Jornal - "MISSÃO JOVEM"
Testemunhos de Vida Missionária
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Queria deixar Haro Wato sem grandes alardes. Custa-me muito dizer adeus. Mas o meu diretor espiritual insistiu que deveria ritualizar a despedida para partir em paz para a nova fase do meu serviço missionário. Escolhemos o domingo para celebrar a missa de adeus da Irmã Laura e minha, já que ambos estávamos de partida. Laura, missionária italiana, já estava há uma dúzia de anos na Etiópia, enquanto eu estava há sete anos, nove meses e um dia! Às nove da manhã começamos as confissões. Quanto mais gente confessava, mais a fila se alongava. Às onze horas iniciamos a celebração da Santa Missa. A igreja estava repleta. Foi uma autêntica batalha para controlar as lágrimas, a emoção, a vontade de me calar e encher o meu coração com aquelas imagens de amizade e de tristeza. Na homilia, agradeci aos meus irmãos e irmãs gujis e guedeos por me terem revelado outros aspectos de Deus e da vida que eu não conhecia até ter vivido com eles. Continuamos a celebração com alegria e lágrimas, canções e palmas: uma Missa diferente, muito interiorizada. O meu discurso O problema maior foi depois da comunhão. A irmã Laura, que tinha servido a comunidade como enfermeira, começou por agradecer a celebração, a amizade das pessoas e os anos que viveu entre eles. Sendo uma mulher forte, conseguiu levar o discurso até ao fim e levou uma merecida salva de palmas! Chegou a minha vez. Consegui dizer: Isini guddo galatoonfadha, agradeço-vos muitíssimo, quando o nó cerrou-me a garganta e acabei de vez o meu discurso. Depois foi a vez de pessoas das diversas comunidades da missão - grupo de casais, jovens, trabalhadores, cantores, sei lá! - expressarem os seus sentimentos de gratidão e tristeza através de canções, poemas e discursos... A choradeira tomou conta da comunidade. Ababayo leu uma mensagem que o pai escrevera. Começou por dirigir-se a mim: "Querido Abba Yooseefi: hoje estamos unidos e tristes porque nos vais deixar. Viveste tanto tempo conosco. Chovendo ou fazendo sol, com lama ou pó, atravessaste os rios e não tiveste medo. Agora vais deixar-nos. Nós não podemos fazer nada, mas Deus certamente vai abençoar o teu esforço e fazer crescer o teu trabalho. Abba Yooseefi, todos nós nos despedimos com os olhos cheios de lágrimas." Foi a vez do pai retomar a mensagem, dirigindo-se desta feita à irmã: "Querida Obboletti Laura, passaste dois anos conosco. Deixando a tua família e os teus amigos, vieste parecer-te conosco, ajudando pequenos e grandes. Deste de comer a quem tinha fome, de beber a quem tinha sede e saúde aos doentes. Abriste poços e protegeste nascentes para termos água boa e ensinaste-nos como ter as casas limpas e vivermos com mais higiene. É difícil contar tudo o que fizeste por nós. Que Deus te pague. Ele tudo pode. Nós não. Com os olhos cheios de lágrimas te dizemos: vai em paz, vive em paz." "Sarastes a nossa alma e a nossa humanidade" Um jovem falou em nome da comunidade cristã. Começou por
fazer memória da nossa vocação: "Abba Yooseefi
e Obboletti Laura, que Deus esteja convosco, que a paz esteja convosco.
Partilhastes as nossas alegrias, os nossos problemas, as nossas tristezas. Para fazerdes o trabalho de Deus, de dia e de noite, com chuva, lama, frio e calor, cansados por longas caminhadas, visitastes as 27 comunidades. Nós estamos colhendo os teusfrutos, fizeste-nos crescer. Nós não podemos fazer nada por vós. Que Deus vos pague!" E falando para Ir. Laura: "Tu vias a todas as pessoas com um só olhar. Dia e noite com a sabedoria do Evangelho ajudaste a todos e nos ensinaste sobre a saúde, curastenos a todos do cansaço da doença: as nossas crianças, as nossas mães, a todos nós. Que Deus te abençoe por todos os que curaste através do poder de Deus, pelo que partilhaste, esquecendo-te de tua própria doença. Que Deus abençoe o teu esforço, te ajude e te dê saúde." Corações tristes, mãos cheias de carinho Depois chegou o momento do adeus. Sentaram-nos num banco e, novos e velhos, homens e mulheres, vieram saudar-nos individualmente. Abraços, beijos, carícias, olhos cheios de lágrimas, palavras de amizade e algumas moedas para podermos comprar uma recordação para não nos esquecermos de Haro Wato...
Durante a viagem para Adis Abeba, ia registrando no meu coração cada face, cada gesto, cada detalhe das árvores, casas, cheiro de terra, a erva verde das colinas... memórias de uma experiência única que Deus me proporcionou porque me ama! Waaqa kiyya, si'i guddoo galatoonfadha, si'ille guddoo jaaladha! Meu Deus, te amo e te agradeço muitíssimo! Pe. José Vieira
PARA REFLETIR "Meus filhinhos, não amemos com palavras, nem com a língua, mas por atos e em verdade" (1 João 3,18).
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