Jornal - "MISSÃO JOVEM"
Testemunhos de Vida Missionária
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POR QUE NÃO? - Fortuni, domingo vou celebrar a missa numa vila que fica no meio do
lago Tonlè Sap. Quer vir comigo? - Perguntou-me Pe. Mário. Pe. Mário alugou um carro e, às sete da manhã, passou para me pegar. Embarcaram juntos também dois meninos cambojanos, amigos do Padre, que nunca tinham ido à cidade de Phnom Penh, como também nunca tinham visto o mar. Era uma ótima ocasião para conhecerem o próprio país. Foram três horas e meia de estrada não asfaltada para chegar ao lago. Descendo do carro, fomos rodeados por uma porção de olhos puxados e de sorrisos desdentados que gritavam e procuravam nos convencer para irmos nesse ou naquele barco. Finalmente escolhemos um, por sinal bem veloz. UMA COMUNIDADE FLUTUANTE
A viagem é breve. Neste período, a vila fica a somente dois quilômetros da margem. Depois, com a vinda das chuvas, a viagem é bem mais longa, já que a vila será transportada mais para o centro do lago. - Todas as vezes que venho aqui para celebrar a missa, sou obrigado a procurar a Igreja, pois ela nunca fica no mesmo lugar. Ainda bem que é fácil reconhecê-la porque tem a cruz no alto - Disse sorrindo o Pe. Mário. De fato, a cruz aparece por cima dos milhares de tetos de palha. COMUNIDADE NUMEROSA Entramos na cidade flutuante. Em Kompong Luong vivem nada menos que 10 mil pessoas. Existe um canal principal onde fica o comércio, também este sobre plataformas flutuantes. Ali é possível comprar sabonetes, pão, roupas... Ao lado do comércio estão as casas, cabanas de madeira recobertas de palha trançada e com pequenas janelas enfeitadas de flores alaranjadas. Algumas famílias têm até horta flutuante, alguns coelhos, porcos e cachorros. As pessoas são quase todas vietnamitas. Facilmente percebe-se os traços faciais diferentes dos cambojanos: pele mais escura, olhos mais puxados e nariz menos achatado. Os habitantes se movimentam sobre tudo que flutua: canoas, baldes de plástico etc., onde as crianças entram e saem remando. Um verdadeiro espetáculo! UM MUNDO DIFERENTE Na vila flutuante há um contínuo movimento, mas tudo é lento e sinuoso. Em tudo impera uma extrema pobreza. As mulheres, sentadas em suas canoas, circulam vendendo frutas e verduras. É difícil descrever a elegância das cores e formas que nelas se sobressaem. Todas usam chapéus de palha em forma de cone e calças largas e rústicas para remarem mais facilmente A igreja é de madeira e toda pintada de azul. Como em todas as igrejas da Camboja, não existem cadeiras ou bancos, mas somente um simples altar ao fundo. Assim que descemos do barco, as crianças vieram ao nosso encontro e não nos largaram mais. Elas são carinhosas e mostram uma grande necessidade de afeto: olham, abraçam, observam-nos como se fôssemos marcianos e, entre elas, comentam cada detalhe, chegando a verificar se a cor de nossa barriga é igual à do rosto, se os nossos cabelos têm a mesma consistência que os deles. Depois começamos a brincar e aí ninguém segurou mais a garotada: nossos braços, mãos e pés estavam totalmente presos pelas mãos, braços e pés dos pequeninos. A este ponto não resta outra alternativa a não ser correr. Brincando de esconde-esconde, eu me refugiei num barco passando por um buraco de uma chapa de ferro. Pe. Mário, já mais experiente, estava lá em cima, contemplando e sorrindo por causa dessa cena original. A IGREJA CATÓLICA Antes da missa, as pessoas da comunidade nos convidaram para jantarmos juntos e, quase como num passe de mágica, todas as crianças desapareceram. Sentados em tapetes, nos trouxeram carne de novilho com cebolas e folhas de menta, arroz e uma estranha sopa de verduras, depois mangas cortadas em fatias. Não são muitos os cristãos católicos na Camboja. A religião do país é o budismo, mas a Igreja continua sua obra de evangelização e realiza muitas atividades de promoção humana.
Durante a semana, os missionários vivem num centro onde dirigem uma escola, um hospital e auxiliam mais de 20 crianças portadoras de deficiência física. Kike, o bispo de Battambang, vive na Camboja há 17 anos. Ele é ótimo: basta observar seus olhos para entender a profundidade de sua espiritualidade e a alegria que traz consigo. Seus gestos mostram o quanto este bispo é um homem simples e humilde. MISSA INCULTURADA A missa é algo de inacreditável, talvez a mais bela cerimônia da qual eu já tenha participado em toda a minha vida. O rito católico e a cultura budista se misturam. Nossa Senhora é uma esplêndida moça vestida com trajes locais, com um chapéu sobre a cabeça e, no colo, ela segura o menino Jesus, naturalmente de olhinhos puxados. Os dois sorriem! Foi a primeira vez que eu vi uma imagem sacra sorrir para as pessoas. Num silêncio total, todos os fiéis, homens, mulheres e crianças, sentam-se no chão com as pernas cruzadas. A língua que todos falam na vila é o vietnamita, mesmo que na escola se ensine o khmer, para que haja integração desse povo com o resto do país. São poucas as pessoas que falam as duas línguas. Assim, embora o sermão seja entendido por poucos, nota-se que é escutado por todos. Encerrada a Missa, aos poucos a concentração das pessoas se dissolve, as crianças começam a brincar, alguém segue uma rã com os dedos, outro dorme e diversas mães amamentam os filhos para que não chorem. Que beleza! Pe. Mário gosta de pregar, rezar e cantar junto com seu povo. Um velho vietnamita, junto com o Padre, canta com entusiasmo: Deus está em nosso meio. G. Fortuni Ême Jota
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