Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Testemunhos de Vida Missionária

Braz Lourenço de Oliveira, 31 anos, é natural de Cataguases - MG. Braz é seminarista do PIME e está cursando teologia em Tagaytay - Filipinas. Agora está preparando-se para um tempo de experiência em Zamboanga, região de maioria muçulmana, ao sul do país.

Quando se está em missão, o tempo parece voar. Já faz um ano que cheguei às Filipinas e logo percebi que a realidade asiática traz experiências diferentes e contagiantes.

O fato de ser estrangeiro e missionário chama muita atenção aqui, pois para a maioria o missionário é sempre “padre”, principalmente para as crianças que se aproximam e pedem a bênção puxando nossas mãos até tocarem suas cabeças.

REALIDADE PASTORAL

Dias atrás, acompanhado por alguns catequistas, fui visitar uma família num dos lixões da periferia de Manila, capital das Filipinas.

Chegar até a casa foi uma longa viagem pelos labirintos daquela comunidade. Tivemos que atravessar quintais como se fossem vias públicas, pois as casinhas de folha de zinco e madeira não deixam muito espaço para o vai-e-vem de uma superpopulação aglomerada num mesmo espaço.

O esgoto a céu aberto não parece incomodar os moradores que não têm outra opção. Diga-se o mesmo do lixo acumulado junto aos canais: um verdadeiro foco de infecções. É comum encontrar grupos de crianças brincando junto à água preta da sarjeta. Os pequeninos rostos de Cristo sorriem e acenam para nós.

UMA SURPRESA

Chegando numa pequena habitação de um cômodo, onde moram o casal e três filhas, tivemos que fazer o acompanhamento pastoral do lado de fora. No meio da visita fomos interrompidos por uma vizinha que pedia socorro. Grávida de oito meses, com as pernas inchadas e roxas, a mulher já não podia caminhar sem ajuda.

Chocados com a situação, decidimos levá-la ao pronto-socorro mais próximo. O problema foi carregá-la até a saída da favela, onde poderíamos encontrar uma condução que nos levasse ao hospital. No hospital, os médicos constataram que os pulmões da senhora estavam cheios de água e que o bebê corria risco de vida se o líquido não fosse retirado logo.

Eram nove horas da manhã. A paciente esperou até o meio-dia para ser atendida, pois suspeitavam que ela não tivesse dinheiro para pagar o cateter e a bolsa: $150 pesos, cerca de oito reais. E não tinha mesmo!

Indignados com a situação, coletamos o dinheiro entre nós e garantimos os cuidados de emergência. Lá pelas duas horas da tarde, os médicos nos informaram que a paciente havia tido “parada cardíaca” e que não poderia deixar o hospital. Outro sufoco! O marido era vendedor ambulante. Saltando de ônibus em ônibus, ele vendia balas e salgadinhos. Seria impossível localizá-lo.

Às nove da noite, graças ao bom Deus, uma tia da paciente apareceu e pudemos explicar-lhe a situação. Mas, a providência de Deus é grande: Uma semana depois, a senhora deu à luz a gêmeos.

DE MÃOS ATADAS

Outro dia, dirigindo-me para uma das cidades onde realizo minha pastoral, fui surpreendido pelo protesto de moradores que tinham suas casas ameaçadas de demolição pelo governo e proprietários de terra. O ônibus teve que parar, pois a rodovia estava interditada. Tive que descer e prosseguir a pé uns 5 km para chegar a um novo ponto de ônibus na cidadezinha mais próxima.

O cenário era de guerra civil. Pneus pegando fogo no meio da avenida, arame farpado, árvores atiradas ao chão como barricadas, móveis colocados do lado de fora das casas para impedir a entrada do pelotão de choque. Muitos moradores estavam armados: a situação era muito tensa.

Os tratores e o pelotão de demolição estavam em prontidão juntamente com o exército, mas, temendo haver um derramamento de sangue, nin-guém arriscava iniciar. Enquanto me distanciava do tumulto, segui pensando: o que faria Jesus numa situação como esta? O protesto durou ainda uma semana e, mais uma vez, os pobres levaram a pior: as famílias foram desalojadas e as casas demolidas.

DESESPERO X ESPERANÇA

Por causa do trabalho pastoral com as famílias, estou em contato também com grupos pró-vida que disputam a campanha de controle de natalidade no país. A causa principal da pobreza é a superpopulação, alega o governo, mas nem toca no assunto da corrupção generalizada. Meses atrás, no congresso nacional foi aprovada a “pena de morte”. Mais de dois mil condenados estão na fila da punição capital.

A cruz filipina fica cada vez mais pesada nos ombros do povo. Apesar de tudo, continua a esperança por dias melhores, certos que o sopro do Espírito, em silêncio, vai fazendo florescer o Reino entre esse povo. O que tenho certeza é que Deus é bom e que nos ama com um amor que não é possível descrever por palavras ou gestos, mas é claramente visível na Eucaristia e no rosto do irmão e da irmã.

GRATIDÃO

Entre as muitas graças que tenho recebido de Deus, uma delas é a experiência que estou fazendo: somos todos peregrinos nessa terra e o Pai está nos convidando a vivermos como irmãos e irmãs, não importando nacionalidade, língua, cultura, religião.

A presença de Cristo em cada um de nós, reconheçamos ou não, nos faz filhos e filhas sempre desejosos do voltar, como o filho pródigo, ao aconchego do Pai. Peço ao povo brasileiro que reze por nós, seus missionários, e pela evangelização nas Filipinas.

Um grande
abraço a todos

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