Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Testemunhos de Vida Missionária

assassinato da Irmã Dorothy Stang aconteceu no momento em que as igrejas lançavam no Brasil, com inspiração ecumênica, a Campanha da Fraternidade pela paz. Este triste acontecimento mostra que providências urgentes precisam ser tomadas para que a violência seja banida, e a paz possa se tornar realidade para todos os brasileiros. O testemunho de Dom Erwin, o bispo que a acolheu em Anapu, no Pará, nos apresenta a mártir como uma pessoa apaixonada por Deus e pelos irmãos, pelos quais buscava a justiça sem medir esforços.

ENTREGA TOTAL

Estamos todos profundamente chocados com o que aconteceu. Embora a morte de nossa irmã tenha sido preanunciada há tempo, nós não acreditávamos que fosse esse o desfecho de uma vida carinhosamente dedicada aos mais pobres da Transamazônica.

Agora Dorothy fala com Jesus do alto da cruz:

“Tudo está consumado” (Jo 19,30). Sua vida e sua morte são o testemunho inequívoco do amor levado até as últimas conseqüências. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Sim, Dorothy deu sua vida! Deu o testemunho mais eloqüente de seu amor: derramou o seu sangue!

QUEM FOI

Dorothy nasceu em 7 de junho de 1931, em Dayton, nos E.U.A. Ela entrou para a comunidade das Irmãs de Notre Dame de Namur em 1948 e fez os votos perpétuos em 1956. Sua congregação conta atualmente com mais de duas mil religiosas espalhadas nos cinco continentes.

Irmã Dorothy foi professora por quinze anos e iniciou sua vida missionária no Brasil em Coroatá, no estado do Maranhão. Filha de uma grande família, a religiosa deixou oito irmãos chorando sua morte, mas conscientes de que a sua posição ante aos grileiros podia levar a esse desfecho brutal.

CONSAGRADA À VIDA

Dorothy tomou a decisão de consagrar toda a sua vida a Deus e a seu povo. Queria ser irmã de todas as irmãs e de todos os irmãos. Tendo sua congregação uma forte espiritualidade Mariana, Dorothy quis seguir o exemplo de Maria, a mãe de Jesus, que engrandeceu o Senhor e exultou “porque olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,45), mas também acreditou no Deus que “dispersou os homens de coração orgulhoso”, que “derrubou os poderosos de seus tronos e elevou os humildes” (Lc 1,51-52). Dorothy se sensibilizou com a miséria desumana em que tantas famílias estão submersas, e partilhou o peso do sofrimento de tantos irmãos e irmãs, pendurados nas infinitas cruzes erguidas nesta nossa Amazônia. Por fim, ela mesma é pregada na cruz: seis tiros a tiraram de nós!

ENTRE NÓS

Quando em 1982 Dorothy veio a Altamira, pediu-me, com aquela vozinha macia conhecida por todos nós, que a aceitasse na Prelazia do Xingu. Pediu que a destinasse ao lugar mais pobre e mais abandonado, onde vivia o povo mais necessitado. Sugeri que fosse para a Transamazônica Leste, pois eu sabia que naquele trecho da rodovia viviam os mais pobres entre os pobres. Dorothy aceitou entusiasmada a indicação e, para selar o seu compromisso com a Igreja do Xingu, entregou-me uma relíquia de São Gaspar, que ela havia recebido de seu irmão nos Estados Unidos. Disseme que fazia questão de doar-me esta relíquia, pois era do apóstolo do Sangue de Cristo.

MISSIONÁRIA

Dorothy nasceu nos Estados Unidos, mas sentiu em seu coração o grande apelo de ir além das fronteiras de seu país e doar sua vida de religiosa a povos menos favorecidos. Trocou sua terra de bem-estar e conforto pela Transamazônica da poeira e dos atoleiros. Não é a mudança geográfica que importa, o que vale é a fantástica decisão de doar a vida. Ela fez sua opção pelos povos da Amazônia, de modo especial pelos pobres e excluídos. Nunca admitia que uma pessoa, pelo fato de ser pobre, pudesse ser prejudicada e desrespeitada em sua dignidade e em seus direitos.

Rezou com a gente humilde e participou de reuniões ajudando o povo simples a organizar-se na busca de seus direitos. Mas foi mais adiante: ela mesma levou as reivindicações das famílias da Transamazônica às autoridades em Belém e Brasília. Nada para ela podia tornar-se impedimento ou obstáculo. E advertida de que estava correndo perigo e até risco de vida, ela simplesmente sorria. Não acreditava. E nós também não acreditávamos que alguém pudesse ser tão cruel e detonar uma arma contra uma mulher tão indefesa, já anciã.

MÁRTIR

Dorothy está morta! Os problemas, porém, continuam e estão bem longe de uma solução. Diante do corpo inerte de Irmã Dorothy, perfurado mortalmente por seis balaços, levantamos agora nosso grito por uma Amazônia diferente, em que a Lei maior é ditada pela paz, obra e fruto da justiça. Gritamos um basta à lei do 38, à prepotência e arrogância daqueles que se julgam donos da Amazônia, mas, na realidade, são meros grileiros de terras públicas que roubam descaradamente às famílias dos agricultores. Exigimos o respeito aos direitos humanos de todos os povos da Amazônia, também dos povos indígenas que até hoje são desprezados e cujas terras são invadidas e suas riquezas naturais saqueadas.

SUA ARMA

Antes de ser assassinada, Irmã Dorothy mostrou a seus algozes o que ela chamava de sua arma: a Bíblia Sagrada. Este seu gesto derradeiro é o último recado que nos deixa. É sempre a Palavra de Deus que nos inspira e orienta em nosso caminho. “As armas com que combatemos não são humanas, o seu poder vem de Deus e são capazes de destruir fortalezas” (2 Cor 10,4). Irmã Dorothy, fique com Deus! Amém

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