Jornal - "MISSÃO JOVEM"
Testemunhos de Vida Missionária
A primeira atitude do missionário é a de observar, escutar e aprender, caminhando junto com os co-irmãos missionários e com as pessoas que encontra ao longo do caminho. É com esta mentalidade e cuidado que, após três meses de minha chegada na Guiné-Bissau, vou tentar apresentarlhes um pouco da realidade deste país e da caminhada da Igreja Católica. Faz vários anos que a Diocese de Bissau, e a mais recente Diocese de Bafatá, se empenham para difundir o Evangelho e promover o desenvolvimento entre este povo. O trabalho é respeitado e apreciado, sobretudo pelos valores morais que a Igreja vem introduzindo na sociedade guineense. TESTEMUNHOS Nas visitas as tabancas, semelhantes as nossas vilas rurais, visito as casas em companhia de um catequista. Mas, antes de encontrar as famílias, é costume se apresentar ao “Homem Grande”, chamado Abnar, comissário da tabanca e representante junto do governo. Sentado na varanda da casa, ele nos acolhe e ali ficamos escutando sua conversa e os muitos elogios: - “a Igreja tem uma grande importância na vida deste país, pelo Evangelho que anuncia, pela transmissão e formação de valores humanos e cristãos, pela construção de escolas, perfuração de poços artesianos, cultivo das hortas, etc.” Abnar lamenta: “infelizmente o governo não ajuda”. A Guiné Bissau Tradicional continua dependente, esperando tudo do exterior, do governo, da Igreja, dos missionários. As próprias crianças, que vimos se divertirem jogando futebol, vestiam camisetas de vários times da Europa e do Brasil, com os nomes dos jogadores famosos como: Ronaldinho, Zidane, Ronaldo, etc. “Somos nós mesmos que devemos nos empenhar para o desenvolvimento da tabanca”. O catequista Domingos nos apresentou algumas iniciativas que a pequena comunidade cristã estava realizando. “Os missionários, nos ajudaram a libertar-nos das nossas crenças supersticiosas. Certa vez, em ocasião de um eclipse (a nossa tradição afirma que quem o vê morre), um padre visitou todas as casas da vila, convidando-nos para assistirmos juntos ao eclipse. Todos ficamos acordados, vimos a lua que escureceu o sol sem que nos acontecesse nada de mal. O fato nos ajudou a nos libertar do medo dos espíritos. Foi um grande ensinamento”. Um leigo italiano, que lá trabalhava, afirmou: “Em virtude de sua aproximação ao povo em todas as circunstâncias, a Igreja é sem dúvida o principal motor de conscientização popular. Que seria da Guiné sem a assistência sanitária e as escolas católicas? Isto não é motivo de vanglória, mas de grande responsabilidade”. Um missionário me disse: “a Igreja está contribuindo na formação de uma consciência mais atenta ao bem comum. O influxo cristão sobre a sociedade se sente e se vê: - os critérios de julgamento mudam, a vida cristã humaniza, dá-se espaço à fé no Deus da misericórdia, ao invés do terror dos espíritos maus. O povo aprende o sentido da caridade gratuita, do bem comum, da justiça e da honestidade. Embora nós missionários tenhamos nossas fragilidades e cometamos erros, bem maior é o nosso exemplo de amor ao povo, agindo pelo seu bem. E todos vêem”. Dom José Câmnate, bispo de Bissau, observou: “Aqui na Guiné Bissau temos muitos voluntários leigos. Eles vieram da Itália, de Portugal e do Brasil. Não são poucos os italianos que renunciam a suas férias, trabalham para pagar sua viagem e vem à Guiné para estar alguns meses no meio deste povo que não conhecem. É um grande testemunho cristão que eles nos dão e, com isso, está crescendo na Guiné Bissau a consciência do voluntariado, algo que não se encontra fora do cristianismo e que, portanto, tem um forte impacto também na sociedade civil”. DESAFIO ECONÔMICO Um dos grandes desafios desta jovem Igreja é alcançar a autonomia econômica, ou seja, a manutenção financeira das comunidades paroquiais. Isto, pelo momento, é muito difícil num país que, sendo um dos mais pobres, sobrevive com a ajuda do exterior. Nas paróquias visitadas, as ofertas das missas dominicais não passam de dez Reais. Dom Pedro Zilli, brasileiro e bispo da Diocese de Bafatá, observou: “Hoje temos tantas paróquias confiadas a sacerdotes estrangeiros, que tem amigos e benfeitores em pátria. E os padres locais? Por enquanto, eles não sobrevivem sem as ajudas do exterior”. Mesmo diante destes desafios, vemos uma Igreja que caminha. As estatísticas dizem que o percentual dos católicos, na Guiné Bissau, atinge 14% da população, cerca de 160 mil fiéis sobre um milhão de habitantes. E as vocações? Também estão crescendo: - 20 seminaristas no seminário menor e 15 no seminário de filosofia e teologia. Os padres diocesanos, filhos da terra, são 20 e 24 as irmãs guineenses. UMA NOVA REALIDADE Vivo dentro desta nova realidade, com o olhar voltado a Deus, atento aos sinais dos tempos e seguindo as pegadas das pessoas que me antecederam na caminhada. Na mensagem para o Dia das Missões 2006, Bento XVI afirma: “A caridade é a alma da missão... Servir o Evangelho não deve ser uma aventura solitária, mas um compromisso compartilhado por todas as comunidades”. Peço que me acompanhem, com suas orações, nesta primeira etapa de minha vida missionária. Um forte abraço a todos! Pe. Jaime Coimbra do Nascimento
- PIME |
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