Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Testemunhos de Vida Missionária

Trabalhei e vivi em região muçulmana por onze anos. O Islamismo é uma religião diferente. Por causa da religião, um povo diferente. Muito diferente da gente do Brasil. Diferente na fala, na alimentação, no vestir, na cultura e na prática religiosa.

Primeira impressão

Lembro-me quando vi muçulmanos pela primeira vez. Era o ano de 1985. Antes, eu sabia da existência deles só pelos livros e por ouvir falar. Nunca tinha visto um de perto, em carne e osso. Foi uma surpresa.

Certo dia, participei de uma reunião de padres na cidade de Zamboanga, localizada numa península de mesmo nome, no extremo sul das Filipinas. Quando a reunião acabou, ali pelas quatro da tarde, a mesma hora em que terminavam as aulas na Madrassa, escola muçulmana ligada às mesquitas, peguei minha moto e fui para a casa onde estava hospedado.

Ao longo do trajeto, iam a pé dezenas de moças trajadas em vestes pretas e véus brancos. As vestes pareciam hábitos de freiras. Iam até os pés. Os véus brancos eram um pouco diferentes daqueles das religiosas católicas, mas guardavam alguma semelhança com o traje cristão.

Ao chegar em casa, comentei com meus amigos que a cidade de Zamboanga tinha muitas freiras, tinha freiras demais mesmo. Deveria ser uma cidade extremamente católica para ter tanta freira assim. Meus amigos acharam aquilo muito estranho e começaram a me perguntar onde eu havia visto tantas freiras.

Expliquei para eles que, no caminho de volta da reunião, tinha visto na rua uma verdadeira procissão de freiras, e todas elas muito jovens. Então me explicaram que não eram freiras, eram moças da religião muçulmana, vestidas em trajes próprios das mulheres islâmicas e que vinham das aulas na Madrassa.

Cristãos e Muçulmanos

Daquele dia em diante, todos os dias, eu passei a ver, conversar e conviver com milhares de homens, mulheres e crianças praticantes da religião muçulmana. Aprendi dos preconceitos que eles tinham contra nós, cristãos, e dos preconceitos que nós, cristãos, nutríamos contra eles. Mais tarde fui perceber que eram puros pré-conceitos, idéias verdadeiramente pré-concebidas. Os muçulmanos eram como todos os demais povos do mundo. Havia muçulmano bom e muçulmano menos bom.

Aquela região das Filipinas, onde trabalhei por onze anos, é mista em termos de religião. Há uma maioria cristã, mas há também uma porcentagem muito expressiva de muçulmanos. De cada cem habitantes, uns trinta e cinco são praticantes do islamismo. E o que é pior, desde quando os espanhóis chegaram naquelas ilhas do sudeste asiático em 1520, cristãos e muçulmanos vivem em conflito.

Existe o preconceito

Os desentendimentos cresceram com o correr do tempo e, de uns sessenta anos para cá, a coisa se tornou muito perigosa. As pessoas dificilmente se entendem e cristãos e muçulmanos desconfiam muito uns dos outros quando não entram em guerra. Os cristãos acreditam que o melhor muçulmano é aquele que está no cemitério.

Os muçulmanos, por sua vez, animados pela própria religião, acreditam que, se matarem um cristão, terão um bilhete de passagem direto para o céu. O fato é que de preconceito em preconceito vai-se aumentando a distância entre os membros dessas duas grandes religiões.

Os missionários

Nós, missionários do PIME, que trabalhamos nas Filipinas, perguntamos a nós mesmos o que deveríamos fazer naquele país em que a maioria da população é cristã, já que temos, como carisma principal, a atividade missionária entre os não-cristãos. Ali, deveríamos desenvolver algum trabalho com as populações muçulmanas até mesmo para ficarmos de acordo com o nosso carisma de missionários.

Decidimos então por vários caminhos. Para alguns, só o fato de morar em uma casinha no meio dos muçulmanos já era um grande trabalho missionário. Eles viam a gente, conviviam com a gente e iam percebendo que não éramos tão ruins assim como pensavam e como aprenderam dos antepassados. Da nossa parte, a gente ia também se convertendo, descobrindo valores naquele povo e naquela religião tão diferente da nossa.

Outros achavam que não era suficiente apenas viver naquelas comunidades de população mista, era preciso ir além. Decidiram então entrar em “diálogo de vida” com os muçulmanos. Como os muçulmanos filipinos gostam muito das atividades comerciais, são eles que detêm o maior número de barracas nos mercados públicos municipais.

Houve então casos de padres missionários que, no desejo de entrar em comunhão de vida com aquele povo, sem perder a identidade cristã e sacerdotal, acabaram montando uma barraquinha de verduras e frutas no mercado municipal. Ali passavam o dia inteiro junto com os muçulmanos, testemunhando com a presença, e com a própria vida, que cristãos e muçulmanos poderiam conviver muito bem e em paz em um só território.

Diálogo

Outros missionários do PIME acharam melhor estabelecer um movimento organizado de diálogo entre cristãos e muçulmanos. Trata-se de um diálogo de fé. Montou-se então um movimento chamado “Silsilah”, que em árabe significa “corrente”. Este movimento era composto de cristãos e muçulmanos.

Eles se reúnem regularmente para juntos rezar, estudar o islamismo e o cristianismo, dar cursos sobre essas duas grandes religiões e promover a paz entre cristãos e muçulmanos que, divididos, sofrem muito com os atos de violência praticados contra uns e outros.

Respeito

Nas cidades onde trabalhei durante aqueles onze anos, sempre convivi com os muçulmanos. A experiência que mais me marcou e da qual guardo vivas recordações vem de uma escola católica de segundo grau da qual fui diretor.

Naquela escola, a “Saint Andrew’s Academy”, tínhamos uma média de 520 alunos cursando do primeiro ao quarto ano do segundo grau. Desses rapazes e moças, mais de cem eram muçulmanos. Eles conviviam muito bem com os alunos cristãos. Quando fazíamos atividades próprias dos cristãos, como dias de formação, retiros e missas, os alunos e alunas de religião muçulmana ficavam loucos para participar.

A gente não deixava por respeito a eles e pela sua religião. Tenho certeza que compreenderam que nós os amávamos e que a religião deles e a nossa surgiram justamente para promover a paz, o amor e a concórdia entre os povos.

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