Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Testemunhos de Vida Missionária

O mundo inteiro sabe e fica chocado diariamente com a guerra entre Israel e Palestina. Mas pouquíssimos tiveram a experiência do frei Marcos: viver na própria carne o dia-a-dia de um dos momentos mais delicados desta sangrenta página da história humana.

Aproveitando a oportunidade que a minha congregação estava oferecendo para quem quisesse ir trabalhar na Terra Santa durante o Ano Santo, eu me apresentei como voluntário. No dia 24 de setembro de 1999, cheguei em Tel Aviv.

O ponto alto da minha experiência em Israel foi a visita do Santo Padre. Apesar de não ser um país cristão e onde os católicos são minoria, a visita do papa colocou todo o país em expectativa. E não foi por nada: a figura simples e simpática do Santo Padre conquistou até mesmo os judeus e islâmicos que se opunham ao acontecimento.

Em setembro de 2001, mudei-me para Belém e, em janeiro de 2002, passei a atender o Santuário do Campo dos Pastores, em Belém, a cidade onde Jesus nasceu. Poucas noites depois, após a janta, por horas consecutivas ouvi disparos de fuzis e metralhadoras. Meus colegas já estavam acostumados. “Não há perigo - disseram - os disparos são a uns três quilômetros do Convento. Apague a luz e mantenha a persiana abaixada”. Por via das dúvidas, eu dormia bem espremido contra a parede.

O CERCO DE BELÉM

Os problemas políticos entre Israel e Palestina agravavam-se cada dia mais. No dia 11 de fevereiro de 2003, deparei-me com um quadro bárbaro: na praça do santuário estavam arrastando na traseira de um carro o cadáver de uma palestina, acusada e morta como sendo espiã.

A Páscoa foi celebrada com a participação maciça dos católicos, mas, no dia seguinte, no jantar, o assunto era a iminência de uma invasão da parte de Israel. Uma grande explosão foi ouvida pelas três horas da madrugada, seguida de forte bombardeio. Eram tiros que saíam das grandes metralhadoras dos carros armados. 150 tanques de guerra entravam na cidade destruindo casas e tudo o que encontravam pela frente. O fogo cruzado continuou nos dias e noites seguintes. Todos nós já íamos para cama vestidos, prontos para qualquer eventualidade.

INVASÃO DO CONVENTO

Um dia, com medo da invasão dos israelitas, os palestinos, para refugiarem-se, forçaram a porta do Convento, invadindo os corredores e outras dependências. O cenário do que seria a nossa vida durante aqueles 39 dias estava formado.

Após várias negociações, decidimos que todos os freis estariam livres para ficar ou sair do santuário. Cada Frade foi consultado pessoalmente e, para grande surpresa, apenas 4 religiosos optaram pela saída, alegando problemas de saúde. Os restantes, 26 frades e as 4 irmãs, decidiram permanecer no santuário, fossem quais fossem as conseqüências.

Nos dias seguintes o silêncio era ameaçador. Da janela do meu quarto podia-se ver o movimento dos carros e soldados israelenses tomando posições estratégicas nos terrenos e prédios atrás do Convento. Eu passava o dia lendo em uma cadeira protegida pela parede do banheiro.

NOITE ASSUSTADORA

Numa das noites, esperávamos mais tranqüilidade, porque à tarde começava o “Shabat” (dia sagrado para o descanso dos judeus). Foi justamente nesta noite que fui acordado pela maior explosão então já ouvida, seguida de uma verdadeira chuva de disparos. Houve quem nos avisasse que corríamos grande perigo: os soldados de Israel estavam para invadir o santuário.

Só restava nos refugiarmos nos porões, mas sem acender a luz nem falar em voz alta, para não sermos descobertos pelos palestinos dentro do Convento nem pelos israelitas na parte externa. Nessa noite fiz, talvez, a pior experiência da minha vida. No escuro, num lugar estranho, sem poder fazer nenhum ruído. Foram quatro horas de angústia. Naquela escuridão, eu imaginava os guerrilheiros entrando e metralhando a todos nós.

Como num filme fui repassando toda a minha vida: pensei nos familiares, nos amigos. Fiz um bom balanço da minha existência, pensando nos erros e acertos cometidos: não tinha o que temer! Ao amanhecer do sábado, saímos do porão. O perigo havia passado e o susto também. Começou então uma guerra diferente, guerra psicológica. Os israelitas instalaram potentes alto-falantes, que faziam um barulho infernal.

Quando paravam as bombas, eles começavam a falar, convidando os refugiados palestinos do convento a se entregarem, porque seria melhor. Seguiam ameaças de entrarem no santuário.

LÁ SE FOI A PIA

Mais tarde, os israelitas instalaram uma câmara sobre a torre que controlava todas os movimentos ao ar livre e atiravam. A partir daí, a cada tiroteio, saíam guerrilheiros feridos ou mortos. Dessa forma passaríamos os restantes 35 dias de cerco. No dia 14, após o jantar, enquanto escovava os dentes, percebi uma luz, como que um flash, seguida por um estampido.

Foi o tempo de atirar-me instintivamente na parede e a pia foi pelos ares, atingida por uma bala. Aterrorizado, me arrastei para o quarto, procurando apagar a vela que estava ali e mais duas balas atingiram a vidraça do meu quarto. A nossa comida era racionada. Os palestinos tiravam tudo o que encontravam. Entre eles havia um senhor já idoso, muçulmano, mas que fazia o sinal da cruz e invocava Nossa Senhora. Ele contou mais tarde que, no meio das favas, ele encontrava pão que atiravam no jardim. Às vezes o pão vinha com um bilhete: “para os monges franciscanos”.

FINAL DO CERCO

Após muitas negociações, durante a manhã do dia 10 de maio, alguém nos deu a notícia: “Está saindo o último grupo de palestinos da basílica!” Tais palavras foram ditas e ouvidas sem muita euforia, tal era o cansaçoMais tarde eu desci: a visão era desoladora: colchões, fogões, panelas, pratos e talheres, máscaras contra gás e seringas de injeção cobriam o chão da basílica. Insuportável era o cheiro de urina e de excrementos.

A sujeira e os estragos davam à basílica, no lugar onde Jesus havia nascido, um aspecto próprio de final de guerra. Na entrada principal da basílica havia uma montanha de metralhadoras que os guerrilheiros tiveram que deixar ao sair da basílica.

CONCLUSÃO

Era o fim de 39 dias exaustivos de medo, tensão e muita reflexão. Se alguém me perguntasse se valeu a pena passar esses três anos na Terra Santa e acabar pondo em risco a vida, eu responderia que a minha vida estaria incompleta sem esta experiência! Houve momentos de tristeza, saudade, decepção, medo e mesmo de ira. Mas quem não as tem? Até os santos tiveram momentos de fraqueza.

O importante é nunca deixar estes sentimentos atingirem e modificarem o rumo de nossa vida. Esse tempo me ensinou a ter paciência e a aceitar as coisas como elas são e não como eu desejaria que fossem. Estar em Belém era uma conseqüência da minha vocação: mais do que nunca eu estava cumprindo a vontade de Deus.

Sentia medo sim, mas eu já tinha refletido na possibilidade de morrer, no entanto, para minha surpresa, encarava tudo com serenidade. Mas a guerra não terminou. Os soldados de Israel se retiraram, mas nada ficou resolvido. Esta situação não terminará até que o homem aprenda que existe um só Deus e somos todos irmãos

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