PROFETIZA DOS NOSSOS TEMPOS

Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Testemunhos de Vida Missionária

Laura tem 32 anos e vive
em Pemba, Moçambique.
Ela deu adeus aos pais, des-
pediu-se do trabalho e, hoje,
dedica-se totalmente às crianças,
mulheres e doentes. Com muita
simplicidade e amor ela afirma:
“Eles são a minha vida!”.

Laura Pierino se multiplicou num poema de amor que está envolvendo centenas de pessoas. Verdadeira profetiza dos nossos tempos, a jovem missionária recusa todo reconhecimento que interrompa, nem que seja por poucos minutos, o caminho que está percorrendo. Laura, como tantas outras amigas, é uma moça linda, simpática, esportiva, alegre. Não participava excessivamente da Igreja, a não ser o essencial: a Santa Missa dominical. Mais divertido para ela era esquiar ou fazer windsurfe.

Enquanto freqüentava a universidade, onde se formou em Línguas, trabalhava numa grande indústria de sua cidade. Mas, no segredo de sua vida bastante tranqüila, havia uma forte inclinação que sempre a levava ao encontro dos outros, realizando gestos generosos para com as crianças órfãs e as pessoas solitárias.

Estas sementes foram crescendo até se tornarem uma árvore maravilhosa naquela África onde Laura, com 23 anos, foi como turista e para onde voltou depois, durante as férias, para dar um apoio aos missionários. Um após outro, visita diversos países daquele continente: Tanzânia, Quênia, Gabão, onde existe o Lambaréné, o mítico leprosário fundado por Albert Schweitzer.

O QUE ACONTECEU NAQUELAS VIAGENS?

Senti fortemente, no olhar destes últimos, levantar-se um grito silencioso”, escreve da África. “O grito de quem nem mais sabe o que é ter o direito à vida, porque, para eles, os vivos são os outros. Percebi também que a esperança continua existindo no coração do homem, embora reprimida pelo medo, esmagada pelo sofrimento e sufocada pela resignação.

Descobri que Jesus Menino nasce na África, porque lá a criança nasce pobre como Jesus. Ele nasce nos campos, a qualquer momento, lá onde a mãe, até pouco tempo antes, trabalhava com a enxada; nasce pela estrada, nasce em uma cabana estreita e escura. Ninguém nunca saberá que nasceu porque poucas são as crianças registradas”.

Foram aqueles olhares que mudaram a sua vida. Os olhos tristes de crianças a quem é negada a infância; gritos de adolescentes sem futuro; prantos de mulheres solitárias, oprimidas em casa ou fora de casa; invocações de doentes que ninguém ouve.

O POVO DAS BEM-AVENTURANÇAS

Foi este povo das bem-aventuranças evangélicas que, quase sem falar, me pedia insistentemente: “Fica conosco!” E Laura fica. Vence as resistências dos pais, despede-se de seu trabalho, dos amigos e amigas, e retorna a Moçambique, fixando-se em Chiurè, uma missão difícil, com um grupinho de irmãs salesianas.

Após alguns meses de aprendizado da língua, Laura começou a ensinar a ler e escrever a mulheres e crianças que viviam na maior miséria. Uma experiência extraordinária, como Laura afirma. Como nunca, ela ama e se sente amada.


Laura com suas crianças

Mas ainda faltava algo para que a sua resposta fosse totalmente evangélica. E o momento e a oportunidade chegam. Sozinha, Laura vai viver num bairro de Pemba, cidade do extremo norte, onde se concentravam os desesperados que, vítimas de uma guerra interminável, lutavam diariamente para sobreviver. Um esgoto a céu aberto: não havia água, luz. Havia só fome, violência, medo e resignação.

No bairro de Cariacò a jovem Laura escolheu uma cabana como todas as outras. Na porta sempre aberta aparecem Ivana e Arminda, duas órfãs de 12 e 14 anos. Chegam também Silvina, Esperança e Atija, crescidas na estrada, e Joana, de cinco anos, filha de um aidético que sempre a levava consigo para pedir esmola. A família dela recebe novos hóspedes todos os dias.

E Laura se torna mãe, irmã e amiga. Saindo na estrada, encontra Ayuba, 11 anos, talvez: seu nascimento nunca foi registrado. Desde o nascimento vivia com uma anciã cega e se tornou seu guia. Ayuba foi o primeiro hóspede da “Casa da Esperança”, onde hoje são acolhidos, graças a ajuda de uma família de Trento, uma centena de meninos de rua. Lá, as crianças aprendem uma profissão e vão à escola, recuperando também o relacionamento com os parentes.

O LEPROSÁRIO DE XIRICO

Pouco depois, Laura realiza o sonho que sempre carregou no coração: Lambaréné, um leprosário construído pelos mesmos doentes, reunidos numa associação presidida por Xirico, um ex-oficial do exército, mutilado pela lepra e condenado a uma cadeira de rodas. Nenhum assistencialismo, mas mobilização das consciências, a fim de que cada um explore suas potencialidades e recupere a sua dignidade.

Laura, em sua cabana, já bem maior, havia criado um novo motivo de esperança: uma creche, onde todos os dias chegam recém-nascidos, sem mãe, esqueléticos e condenados à morte. Lá, eles reflorescem ao calor de seu amor. E quando não conseguem sobreviver, morrem em seus braços, entre carícias e lágrimas.


Centro de Alfabetização

Outros projetos de “Laura dos Milagres” estão tomando corpo nos últimos meses. Entre eles, um centro de alfabetização para as mulheres que vêm de povoados longínquos, e uma casa para ajudar as adolescentes que ficaram sós e grávidas a não abortarem e para se prepararem a se tornarem mães. A quem lhe pede, admirado, como pode agüentar uma vida tão difícil, ela responde com um sorriso que ilumina o ar

“Vivo uma vida maravilhosa. Aos olhos de muitos pode parecer absurdo achar maravilhosa uma quotidianidade marcada por sacrifícios e renúncias de gente que sofre, mas, para aqueles que enxergam com o meu olhar, esta é uma vida verdadeira, construída por gestos de amor, de partilha, de serviço incondicional aos mais pobres.

Quanto mais a minha vida se transforma numa existência para o outro, mais descubro o que é o verdadeiro existir, descubro o essencial... E isto me basta, pois estou dando um sentido pleno à minha vida”. Este é o segredo de Laura, que está atraindo a Pemba dezenas de jovens que se revezam para ajudá-la, impressionando a muitos que se deixam arrastar pela crescente indiferença de uma sociedade dominada pelo materialismo e pelo individualismo exacerbado. Precisamos de muitos e muitas que, como Laura, missionária leiga em Moçambique, nos indiquem, com seu testemunho, onde e como os nossos jovens, bombardeados por falsos ideais, podem encontrar o verdadeiro sentido para a vida. Obrigada Laura!

Mariapia Bonanate

PARA REFLETIR

1 - Que reflexões suscitam em nós o testemunho de Laura?

2 - O que dá sentido à nossa vida?

3 - Já experimentei isso em minha vida?

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