Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Testemunhos de Vida Missionária

O missionário freqüentemente vivencia histórias que comovem a qualquer um. Nesta edição, o Pe. Henrique Uggé, missionário do PIME, nos apresenta a emocionante história de Lenita, da tribo indígena Sateré Maué.

FAMÍLIA QUERIDA

Na área indígena Sateré Maué existe uma comunidade de índios chamada Nova América. Perto dali morava uma família que freqüentemente eu ia visitar. Era uma família de aspecto comum, mas, infelizmente, os filhos eram portadores de uma doença hereditária.

Os filhos se tornavam progressivamente paralíticos nas pernas e nas articulações das mãos. Depois de análises e diagnósticos, descobriram que a atrofia era devida a uma causa genética irreversível. Por isso, pelo resto da vida, aquelas crianças permaneceriam fisicamente portadoras de necessidades especiais.

FILHOS EFICIENTES

O que mais admirava naqueles meninos e meninas era a inteligência e o dinamismo com que enfrentavam a vida. Um deles, Luigi, conseguia arrastar-se até a pequena canoa construída com um tronco de árvore para ir pescar com o caniço.

As crianças tinham um livrinho de cantos religiosos na língua Sateré e também em português, um exemplo de fé para muitos. Quando faltava dinheiro, a família trocava os trabalhos de artesanato que confeccionavam por redes de pesca, anzóis, roupas, baterias, macas e o necessário para a própria sobrevivência.

Eu ficava admirado com a força de vontade deles. Apesar de tantas dificuldades, sempre tinham belos sorrisos para quem os visitasse. Os meses e os anos se passavam e, às vezes, em minhas visitas eu encontrava algum deles doente, mas sempre conseguiam superar estas situações.

LENITA

Numa das minhas visitas, Lenita, a filha mais velha, já com 18 anos, me disse: “Pe. Henrique, na próxima visita me traga uma sombrinha colorida”. Perguntei-lhe se realmente era aquilo que gostaria de ganhar.

Ela me respondeu: “Sim, padre, desde pequena sempre desejei ter uma sombrinha. Gostaria de tê-la trocando-a por alguns colares que faço”.

Respondi que faria o possível, embora não pudesse assegurar que conseguiria encontrar a tal sombrinha desejada. Anotei o pedido no meu caderninho, enquanto ela me observava atentamente com um olhar de esperança. Essa era a Lenita, a minha pequena índia paralítica, quase imóvel em uma maca, que sonhava ter uma sombrinha colorida.

PROMESSA CUMPRIDA

Depois das visitas às comunidades, retornei a Barreirinha, sede de minha paróquia. Passados três meses, voltei para visitar a área indígena do Rio Andirá. Enquanto estava fazendo os últimos preparativos para a viagem, folheando o caderno de compromissos, lembrei-me do pedido de Lenita. Mas como poderia encontrar a tão desejada sombrinha? E só podia ser colorida, como ela sonhava.

Lembrei-me que o Padre Gabriel, um colega de missão, tinha recebido alguns materiais da Itália. Quem sabe ele daria um jeito. Fui sem demora encontrá-lo e lhe falei do caso. Tive sorte, na sua sala, para minha grande surpresa, havia uma sombrinha branca, azul e vermelha, a única que restou dentre todos os objetos que haviam chegado. Pe. Gabriel gentilmente me concedeu a tal sombrinha. Fiquei aliviado e, cheio de alegria, parti então para a área indígena.

TRISTE NOTÍCIA

Alguns parentes de Lenita, na noite que precedeu a minha chegada à comunidade de Nova América, vieram ao meu encontro avisando-me que a menina estava muito mal. O irmão dela veio ao meu encontro de canoa e me contou que não havia mais esperanças para ela: uma forte pneumonia associada à anemia a estava debilitando e destruindo. De manhã cedo, quando me aproximei de sua casa, notei a grande tristeza no rosto das pessoas da comunidade. Lenita era muito amada por todos.

Muito emocionado, entrei naquela pobre casinha. Os pais dela me acolheram e me acompanharam até a maca. Olhando a menina, compreendi logo que a sua vida estava no fim. Fiquei muito triste e com grande esforço contive minhas lágrimas. Rezamos juntos por ela, depois a chamei: Lenita! A moça abriu os olhos e me reconheceu. Veja, Lenita, trouxe sua sombrinha colorida.

E a abri. Naquele exato momento, um raio de luz do sol irrompeu através do teto de palha e entrou na casa iluminando a sombrinha e a doente. Lenita sorriu, levantou lentamente a mão e tocou a sombrinha, depois seu braço caiu. Dei-lhe a unção dos enfermos, com orações de recomendação da alma e pedi aos anjos que a conduzissem ao céu, lá bem perto de Deus. A tristeza e a emoção estavam no rosto de todos. Pouco tempo depois Lenita falecia.

O ANJO LENITA

Durante aquela noite fui dormir no barco a motor, mas o sono tardou a vir. Quando finalmente peguei no sono, sonhei. Nunca mais esqueci aquele sonho: era um céu cheio de anjos, com vestes brancas, que cantavam uma melodia celestial e, entre eles, havia um que tinha em mãos uma sombrinha colorida e sorria feliz. Tinha o rosto de Lenita.

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