Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Testemunhos de Vida Missionária

Irmá Orana Mueller acalentava um sonho que a vinha acompanhando por longos anos: ir para as missões além-fronteiras. Este sonho se realizou no dia 10 de junho de 2001, quando Ir. Orana partiu para Moçambique, cheia de alegria e confiança. Ao despedir-se, afirmou:

"Confio muito em Deus e, sabendo-me amada, caminho na certeza de que Ele me conduzirá".

Ser missionária! Finalmente, todas as buscas de sua vida se realizaram, mas ninguém podia imaginar que, em breve tempo, esse entusiasmo significaria, ao mesmo tempo, o sacrifício de sua vida.

Sua opção missionária lhe exigiu doação Total: despojar-se de tudo, adoecer e morrer longe do círculo de suas amizades e de seus familiares no Brasil.

As irmãs da comunidade de Lichinga, onde Irmã Orana viveu os sete meses de sua vida missionária, assim escrevem: "Ao chegar em Lichinga, região mais pobre do país, começou a trabalhar diretamente com o povo, como sempre sonhou, atendendo a uma emergência na administração do ESAM (Ensino Secundário Aberto Moçambicano).

Esse seu sim confirmou, mais uma vez, sua capacidade de entrega e disposição de servir aonde as necessidades são mais gritantes. Com muita competência coordenou o departamento de administração do ESAM. Parecia ter pressa de organizar tudo da melhor forma, como se não lhe fosse dado o tempo suficiente para realizar tudo que era necessário. Mas, apesar de assumir com alegria essa sua função continuava alimentando o desejo de trabalhar mais diretamente com os pobres e, entre eles, atendendo, em particular, as mães mais necessitadas.

Os sete meses dedicados ao projeto missionário foram realmente poucos, mas todos eles vividos intensamente, deixando sinais de doação e alegria".

Irmã Orana sempre foi uma grande lutadora por uma vida mais digna para as pessoas. Na avaliação e planejamento que a Comunidade realizou no dia 26 de dezembro, poucos dias antes de adoecer e morrer, afirmou: "Não abro mão de lutar pela vida!"

Irmã Beatriz Mohr, colega missionária no Timor Leste, deu também seu testemunho:

"Sei o quanto Irmã Orana quis ser missionária. Tive a sorte de conhecê-la quando eu ainda era jovem, e sempre foi um forte estimulo vocacional para mim. Seu jeito alegre de ser era importante para quem estava à procura de um sentido para a vida. Era o meu caso. Portanto, seu percurso missionário não pode ser contado pelo tempo passado na África, mas pela vida que se fez vocação, mesmo nos serviços administrativos dentro de nossas obras."

Em 1998, assim ela falou de si mesma:

"Hoje, como sempre, sinto-me uma pessoa amada por Deus. Tenho certeza disso. Vejo-me como uma mulher realizada, determinada, objetiva, alguém que busca uma vida qualificada e feliz. Meus relacionamentos são espontâneos e, graças a Deus, tenho certa facilidade de conquistar amizades. Tenho, de fato, muitos amigos e amigas. Gosto de relacionar-me com todas as camadas da sociedade, mas especialmente com as pessoas mais humildes e necessitadas. Luto pela liberdade e dignidade delas. É este o desafio a que me propus: retomar o passado, viver intensamente o presente e projetar o futuro para uma vida qualificada e feliz".

Irmã Orana dedicou a maior parte do tempo como diretora administrativa em hospitais. Nos últimos 14 anos trabalhou no hospital de Arroio do Meio. Muito lutou para que o mesmo fosse adequado às exigências atuais, visando sempre melhores condições de vida para os doentes.

Além da direção do Hospital, esteve muito engajada nas atividades pastorais da paróquia, integrando hospital e comunidade.

Mas quando percebeu que sua presença não era mais tão necessária e que já haviam lideranças leigas bem preparadas, ela decidiu-se por aquilo que sempre mais desejou como religiosa: ser missionária além-fronteiras.

Irmã Orana soube discernir com sabedoria o lugar certo para investir os últimos sete meses de vida e, com certeza, pode dizer: missão cumprida.

No dia 26 de dezembro, Irmá Orana apresentou sintomas de mal estar, semelhantes aos de malária. No dia seguinte, submeteu-se a exames, que comprovaram o mal da malária.

Ela recebeu todos os cuidados possiveis, mas a cada dia o estado de saúde ia se debilitando mais. A falta de medicamentos fez com que se desencadeasse uma luta desenfreada para conseguí-los: Portugal, Malawi, Maputo, Brasil, Alemanha... foram alguns dos lugares procurados. Diversas pessoas e congregações se solidarizaram. Mas, apesar de todos os esforços, a cada hora o quadro ia piorando. No dia 1 de janeiro, Irmã Orana pediu a Unção dos Enfermos.

Irmá Delvina perguntou-lhe se desejava permanecer em Moçambique. Ela fez um gesto com a cabeça confirmando esta vontade e no dia 2 de janeiro de 2002 Irmã Orana faleceu e foi sepultada, como sempre desejou, no lugar onde morreu, Irmã Orana, provando seu despojamento total, permanece no chão de Lichinga, entre os pobres que tanto amou. É a primeira irmã da Divina Providência a ser plantada em solo africano. Acreditamos que essa semente fecundará e dará frutos abundantes para o bem de todos.

Irmã Athália Schaefer

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