Jornal - "MISSÃO JOVEM"
Testemunhos de Vida Missionária
É por Isso que os missionários, de vez em quando, são chamados de um lugar para outro. Faz parte de sua missão estar sempre em movimento. DE RONDÔNIA À COLÔMBIA Depois de seis anos de experiência missionária, por sinal muito bonita, no Estado de Rondônia, fui enviado a exercer meu trabalho missionário na Colômbia. Muita gente me dizia: Padre, não vai não, a gente aqui precisa muito de você. Apesar de deixar para trás muita saudade, parti com um pouco de preocupação pelas notícias que chegavam daquele país, muito conhecido pela violência, pelo narcotráfico e cultivo da coca. Mas, com o passar do tempo, percebi que nem tudo o que se dizia era verdade. Sim, há muita violência, como há em outros países, mas lá sem dúvida um pouco mais acentuada, devido aos muitos grupos armados que atuam em certas regiões. O PAÍS E SEU POVO A Colômbia é um país com muitas belezas naturais, principalmente na Cordilheira dos Andes. Seu povo é muito querido, acolhedor e com uma forte religiosidade popular. É um país com muitas riquezas naturais e recursos próprios, que lhe daria condições para sair da situação de injustiça em que vive. MEU TRABALHO A minha experiência de missão consistia principalmente num trabalho de animação missionária em várias cidades do país. Acompanhávamos também uma área indígena, dos sicuanis, que somam cerca de 15 mil pessoas. Dávamos assistência também aos cultivadoresda coca, pessoas expulsas de suas terras e que fugiam para essas áreas para se protegerem da violência e para ganharem o seu sustento. Devido à insegurança e ao medo, a vida era muito difícil. Ninguém sabia o dia e a hora em que poderiam ser surpreendidos pelos exército ou pelos paramilitares. A maioria das áreas de cultivos da coca estão, ainda hoje, praticamente sob o controle das guerrilhas: FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), ELN (Exército de Libertação Nacional), EPL (Exército Popular de Libertação) e os Paramilitares. A maior concentração está na fronteira com a Venezuela, Brasil, Peru e Equador. A GUERRILHA A Colômbia vive em guerra há mais de 50 anos. Começou logo após a Segunda Guerra mundial entre os dois partidos políticos da época, e ainda atuais: o Liberal e o Conservador. Nos anos 60, com o movimento revolucionário se alastrando na América Latina, foram se formando os grupos guerrilheiros, sendo um deles o ELN, cujo ideólogo foi o Pe. Camilo Torres que, depois de um intenso trabalho e luta contra a corrupção imperante, decidiu pegar nas armas. Inicialmente, a guerrilha foi bem vista pela população, pois formou muitas cooperativas, preparou muitas lideranças e organizou o povo. Mesmo que a Igreja não tenha oficialmente apoiado a guerrilha, muitos padres o fizeram. A PARTIR DOS ANOS 90 A situação mudou completamente quando a guerrilha começou a se ocupar das áreas de cultivo da coca organizada pelo narcotráfico, a organizar seqüestros e assaltos às Caixas Econômicas, bancos. Dessa forma foi perdendo a credibilidade do povo. Nas suas fileiras estão, atualmente, muitos jovens e criançasde até 12, 14 anos. A situação continua muito complicada, pois envolve muito dinheiro e, com isso, a guerrilha, os paramilitares e o próprio governo ganham com esta situação. Todos querem a paz, mas uma paz de interesses. À Guerrilha já não interessa mais o poder, mas sim manter uma situação na qual há muito para se ganhar. Quem está pagando as conseqüências de toda essa guerra é o povo simples e humilde que tem que fugir da sua terra por causa das ameaças, seja da guerrilha como dos paramilitares. OS MASSACRES
Quando a guerrilha chega num povoado do interior, já chega com a ordem de levar todo mundo para a praça e, os que estão, segundo eles, na lista negra, são executados ali mesmo. O mesmo é feito pelos paramilitares. Os que sobrevivem são obrigados a fugir, já que suas casas e seus pertences são queimados. Muitos líderes sindicais e comunitários foram assassinados, como também 3 bispos e um grande número de sacerdotes e religiosas. POSIÇÃO DA IGREJA Nos últimos anos, a Igreja tem tomado um posição firme contra todos os atos de violência praticados contra a população. O trabalho que está realizando nas comunidades dos que tiveram que fugir da guerra, no sentido da recuperação de sua dignidade e superação do ódio, é muito bonito. Nas áreas de produção da coca, o nosso trabalho consistia em acompanhar as pessoas no seu dia-a-dia. Não podíamos fazer muita coisa devido aos controles e mesmo porque ninguém sabia quem era quem em toda essa guerra. Às vezes, acontecia-me de celebrar a eucaristia com dois guerrilheiros armados, um de cada lado: diziam que estavam me protegendo! Podia ser, mas que dava medo, dava! APRENDI UMA LIÇÃO Em toda essa experiência, o que mais aprendi foi
o testemunho dessas pessoas que, mesmo vivendo no meio da guerra, do medo
e da insegurança, sempre têm a capacidade de acolher, de
perdoar e de amar. Acredito que este é o sinal
de que o Reino de Deus é mesmo dos pobres e dos pequenos, daqueles
que não têm mais nada a perder, mas que estão abertos
à ação de Deus. A experiência
me ajudou também a descobrir que onde a vida está ameaçada,
é lá que deve estar o missionário de Deus, confirmandoo
na sua vocação, que é receber e dar. E você,
jovem, que recebeu muitos dons de Deus, sim, Pe. Alcides Costa, mccj |
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