Jornal - "MISSÃO JOVEM"
Testemunhos de Vida Missionária
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Convivi com o Ir. Dante desde setembro de 1995, quanto comecei a trabalhar no Missão Jovem. Durante este tempo, tive o privilégio de aprender com o maior autodidata que já conheci, uma verdadeira enciclopédia ambulante. Dante nasceu em 1922, na Itália. A família dele era muito católica e ele participou da Ação Católica, pois, naquele tempo, segundo ele, não havia nada melhor. Foi um trabalhador incansável: com apenas 12 anos já trabalhava com carteira assinada. EUCARISTIA E VOCAÇÃO Um fato que ele me contou duas vezes nestes últimos sete anos em que convivemos juntos mostra um grande valor: em 1939, acho que foi no dia 30 de abril ou 1º de maio (minha memória não é tão boa como era a dele), ele, quase com 18 anos, fez o propósito de participar diariamente da Eucaristia. Aí eu lhe perguntei: - Mas, Ir. Dante, o senhor conseguiu ser fiel a este propósito nestes mais de 60 anos?. Ele respondeu: - Olha, uma vez estava viajando para a Venezuela e o avião se atrasou bastante, neste dia não consegui participar da Eucaristia. Incrível! Naquele mesmo ano (1939), Dante participou de um retiro na casa dos jesuítas e lá começou a se questionar sobre o futuro. Até então, a perspectiva era prestar serviço militar, voltar, casar e... Mas Deus reservava algo melhor para este jovem. - Compreendi que podia fazer diferente: me entregar totalmente a Ele. Assim, três meses depois, entrei no Pontifício Instituto das Missões Exteriores - PIME, como Irmão Leigo. Dante queria mesmo ser irmão. A GUERRA E OS COGUMELOS A guerra era motivo corrente de nossas conversas, assim como os cogumelos. Certo dia me emprestou um livro, de mais ou menos 500 páginas, para eu descobrir se os cogumelos da casa do meu pai eram comestíveis! Se você não quiser ler o livro, convide um amigo para experimentar os cogumelos! Como ele gostava de cogumelos! Fazia questão de prepará-los pessoalmente e perguntava a um por um se havia gostado. E o gesto que fazia quando apreciava-os... impossível esquecer! Mas, voltando ao assunto guerra, ele confessou: - Ainda bem que Jesus me convocou para o seu serviço e me poupou dessa desgraça. Todos os meus contemporâneos foram convocados pelo Governo e enviados à Rússia. A maioria morreu... Seus relatos sobre a guerra eram impressionantes. Nenhum livro
de história me ensinou tanto. MISSÕES Várias vezes conversamos sobre sua vocação. Um dia perguntei por que não quis ser padre. Ele respondeu: - O que importa é Ele! Nunca mais toquei no assunto. Dizia que estava muito feliz quando fez os votos no PIME. Sempre sonhava com as missões. Ficou um tanto triste quando o superior lhe disse que ainda não poderia ser mandado para fora da Itália, pois sua presença lá era muito importante. Durante anos ficou trabalhando como linotipista na tipografia do Instituto. Embora tivesse afirmado ao superior que estava disposto a tudo, o seu desejo mesmo era ir às missões. Ficou felicíssimo quando, em 1953, viu seu nome incluído na lista dos missionários destinados às missões. E veio para o Brasil. Aqui os serviços foram muitos. Achei que andava bem na linha de Deus - dizia - mas... aconteceu que conheci alguns colegas diferentes e me questionei sobre o que os tornava diferentes. Eram sempre os primeiros a arcar qualquer sacrifício e nunca se ouvia deles a menor queixa a respeito dos outros. O que é que os torna diferentes? Decidiu então entrar para o Movimento dos Focolares. Esta foi a escolha, que ele chamava de conversão, que o marcou até o seu último suspiro. Anos depois veio uma nova ordem do superior: regressar à
Itália. - Foi como se o céu desabasse sobre mim. Sabia que
nunca mais iria rever o Brasil e fui para lá com amargura no coração.
TOPO TUDO! Em 1969, após regressar de Fátima (Casa de Maria,
como ele chamava, para onde ainda voltaria outras vezes), se apresentou
ao superior e disse claramente: - Estou aqui, topo tudo o que o senhor
mandar. Até para o superior foi uma surpresa.
Os anos foram passando. Padres e irmãos do PIME iam e vinham das missões e contavam suas aventuras. Ir. Dante pensava: - Eles podem, mas eu não posso mais reclamar pelo que tinha dito: Topo tudo. Depois, por sorte ou azar do Ir. Dante, o PIME cedeu a gráfica e ele ficou repentinamente sem emprego. Pediu então para voltar a uma missão, qualquer uma. E foi novamente destinado ao Brasil, para sorte nossa. MISSÃO JOVEM Aqui, no Missão Jovem, o Ir. Dante tinha uma função, ou melhor, três funções especiais: trabalhar, manter o bom humor da equipe e servir de tira-dúvidas (sabia de tudo!). Como trabalhador, mesmo com seus 80 anos, era muito disciplinado e incansável. Basta ver o que ele fazia: correio, banco, pagamentos, revisão do Jornal, traduções, cozinha, expedição do jornal etc. Era especialista em piadas, trocadilhos e ditados engraçados. Quando estava bem de saúde, não havia um almoço em que não contava uma anedota. No dia em que alguém da equipe fazia aniversário, já sabíamos que viria a famosa (e real) afirmação do Irmão: - Meus pêsames, você está mais perto... Quando uma pessoa perguntava como ele estava, a clássica resposta: - Não tão bem quanto o senhor... Quando vinha uma consistente assinatura coletiva ouvia-se dele aquele grito de satisfação. E quando encontrava um erro de português em algum jornal: - Este vale por dois! Ou: - Este vale por cinco! Uma vez foi no correio e esqueceu o vidro do carro aberto. Então o funcionário do Correio, o João, o alertou: - Frei, o vidro do carro ficou aberto! Como o Ir. Dante sempre tinha respostas para tudo, respondeu: - É melhor um vidro aberto do que um vidro quebrado!
Outra função, que ele adorava, era tirar as dúvidas do pessoal. Não importava se era teologia, história, geografia, português, cultura, botânica, etc. Foi a primeira e a única pessoa que conheci que tinha como principal livro de estudo o dicionário de português, mesmo falando um português perfeito. Gostava de sentar com ele e ficar fazendo perguntas sobre tudo: todas tinham respostas! Irmão Dante, apesar de saber muito, era de poucas palavras. Falava o essencial. Vez ou outra pedia para imprimir o que ele digitava no computador. Numa das vezes escreveu somente isto: - Não sei se meus co-irmãos perceberam, mas nesta semana fiz o propósito de lavar a louça todos os dias. Noutra ocasião os participantes faziam a avaliação final de um encontro. Todos que falavam demoravam vários minutos para descrever a importância do encontro na vida deles. Chegou a vez do Irmão Dante fazer a sua avaliação: - Estou melhor do que dantes! E só. Foi aplaudido. Fica aqui a nossa gratidão pelo tempo e pela oportunidade que tivemos para estar junto de uma pessoa tão especial! Obrigado, por tudo!!! Mauri Luiz Heerdt |
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