Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Testemunhos de Vida Missionária

nquanto preparávamos esta edição, nós, o povo brasileiro e, podemos dizer, o mundo, acompanhávamos, pela mídia informal, a iniciativa corajosa de Dom Luís Cappio, colocando em risco, através da greve de fome, sua própria vida, em favor da revitalização do Rio São Francisco e de sua população ribeirinha. Numa época em que tanto fala-se do valor da água, este missionário franciscano decidiu dar “uma vida pela Vida”.

A história de Dom Luís, ao lado dos nordestinos, começou em 1974, quando chegou ao sertão com apenas a roupa do corpo. Nestes anos, durante os quais acompanhou a morte agônica do velho Chico, foi crescendo neste homem a consciência de que ele precisava urgentemente ser ressuscitado.

Em outubro de 1992, com mais três amigos, iniciou uma missão de conscientização percorrendo seis mil quilômetros, a partir da nascente, ao longo do rio São Francisco. Esta peregrinação ecológica foi um marco na luta pela preservação do Rio São Francisco e da subsistência das populações ribeirinhas.

SUAS CONVICÇÕES

Transcrevemos aqui a entrevista realizada pelas repórteres Ariadne Araújo e Fátima Sudário, do jornal O Povo, com Dom Luís, a respeito de suas convicções que, há anos seguidos, o levam a lutar contra o projeto de transposição do Rio São Francisco.

• Por que o senhor resolveu percorrer o rio São Francisco?

A prendemos com o povo a importância que esse rio tem para a vida e, sempre com o povo, aprendemos a amar esse rio e vê-lo como o grande gerador de vida para toda essa população. No entanto, o Rio São Francisco estava num profundo processo de morte. A cada ano ele mostrava sintomas cada vez maiores de morte. Assim sendo, achamos por bem conscientizar o povo ribeirinho sobre a importância do rio e a necessidade de preservá-lo.

Disso surgiu a idéia de uma caminhada, durante a qual tivéssemos a oportunidade de estabelecer esse diálogo com toda a população ribeirinha, para que compreendesse o rio como um grande dom de Deus para a vida deles e a necessidade de empreender iniciativas para a sua pres ervação.

• Como o senhor foi visualizando os sintomas da devastação?

Em várias frentes. A pior de todas é o grande desmatamento nas nascentes do rio que leva inexoravelmente à sua morte. De lá, fomos constatando também a devastação das matas ciliares que protegem os barrancos. Conseqüência:o rio fica cada vez mais largo, mais raso e obstruído. Evidente é também o problema da poluição. O rio hoje é um grande esgoto a céu aberto, seja dos dejetos sanitários das cidades e vilas à beira do rio, seja também pelos esgotos químicos das indústrias da região de Belo Horizonte. Outro problema vem da irrigação.

Não nos posicionamos contra a irrigação mas contra o fato de não haver nenhum gerenciamento das águas tiradas do rio. Outro fator que prejudica o Velho Xico é o modelo de agricultura que exige o uso de agrotóxicos, produtos que, aos poucos, envenenam as águas. E não podemos esquecer o problema causado pelas grandes barragens que impedem a subida dos peixes para a desova, acabando assim com a vida do rio.

Aquele que outrora foi um rio viscoso, cheio de peixe, hoje a pesca é rara no São Francisco. É triste ver como no médio São Francisco, aquela região que vai de Sobradinho a Paulo Afonso, o rio não é mais rio, são imensas represas que favorecem a evaporação da água, diminuindo assim o seu manancial. E agora aparece esse projeto, que eu chamo de louco, da transposição do rio, sem antes olhar para a sua revitalização.

• Por que o senhor vê o projeto da transposição como uma loucura?

Em primeiro lugar, é um projeto que tem uma casca social: levar água para os pobres do Nordeste lá de cima. Uma casca social, que esconde os verdadeiros interesses, que são políticos e econômicos. Em segundo lugar, o projeto demanda um dinheiro muito elevado e um tempo grande de execução. É de se perguntar: será que as próximas administrações terão a mesma determinação que o atual governo, será que não vai ser mais um projeto como o da Transamazônica, que vai consumir dinheiro público sem chegar a lugar nenhum? Terceiro, esse tipo de projeto demanda um consumo faraônico de energia elétrica.

Quem vai pagar essa conta? O povo? O povo não tem condição. Conclusão: mais um projeto destinado às elites, às grandes empresas ou, até mesmo, às multinacionais. •Mas é um fato que há escassez d’água nos estados mais ao Norte do Nordeste. Neste caso a transposição não é necessária? Para nós o que é mais importante é que existem muitos outros projetos alternativos de pequeno custo, de gerenciamento mais adequado, sem problemas ecológicos, como a construção de tanques para armazenamento da água de chuva, construção de pequenos açudes, poços artesianos, iniciativas que solucionam o problema das pequenas comunidades, sem exigir esses investimentos faraônicos.

Infelizmente, o problema está no fato de que o modelo do nosso desenvolvimento não acredita nas pequenas iniciativas e, atrás disso, existe o lobby das grandes empreiteiras que exigem que esses projetos sejam aprovados. Nós acreditamos nos projetos alternativos, que já foram testados, provando sua eficácia. Para concluir, eu digo que anêmico não doa sangue. Se quiserem que o rio São Francisco doe, garantam a vida dele.

• O senhor avalia que a peregrinação surtiu algum efeito no sentido de conscientizar as populações ribeirinhas para a preservação do rio?

Sem dúvida: foi uma virada de página. Acredito que na história do rio São Francisco a gente pode falar do antes e do depois, porque antes o rio estava aí e havia muito pouca consciência de preservação. Um exemplo disso é que o tivemos numa missa de Bom Jesus dos Navegantes, aqui na Barra, quando, na hora das ofertas, chegou um senhor querendo ofertas quatro sacos de lixo, dizendo: “olha isso aqui foi a limpeza que eu fiz por Bom Jesus no rio dele”. São milhares de iniciativas que vão surgindo, ali, aqui, acolá, umas mais organizadas, mais bem pensadas, outras espontâneas, e a gente vê que são fruto da peregrinação.

PARA REFLETIR

1.º Qual a sua opinião sobre a greve de fome de Dom Luiz Cappio pela revitalização do Rio São Francisco e contra a sua transposição?

2.º Considera isso um gesto heróico?

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