Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Testemunhos de Vida Missionária

"Dai de Graça ... "

No dia 3 de Janeiro, às 20:15 h, estava prevista minha ida para São Paulo. O ônibus só apareceu às 21:30 h; saída atrasada (como atrasada está a atuação missionária leiga...), mas cheguei no horário previsto em São Paulo.

Lá estava eu novamente na periferia Sul da megalópole (Vila Missionária), a fim de doar minhas férias de trabalho para o projeto “Vida Nova”, que acolhe crianças carentes.

No meu coração estava a pergunta: “O que eu “tô” fazendo aqui de novo? “Tô” de férias! Mas por que não fiquei numa das lindas praias de Florianópolis?

Hoje, agradeço a Deus por ter ficado 25 dias convivendo com esta realidade: com o menor fora de casa.

Nosso trabalho? Realizar atividades programadas de lazer e reforço escolar para 16 menores com idade entre 06 a 16 anos, cada qual com sua personalidade forte, marcada pela luta de ficar com o que é seu, sem dividir com o outro: tudo é meu e se aconteceu algo errado, foi o outro.

“Tia, fulano fez isso”. “Tia, fulano me bateu”.”Mas você bateu no fulano!”. “Mas tia, foi ele quem começou”. Oh, Deus! Cada dia um novo desafio! Tinha aquele que participava, mas sua atenção parecia estar no espaço sideral; aquele que só criava confusão; aquele que só queria aparecer; aquela que chorava, e aquele que calava, calava ...

Mas como toda planta, quando bem cultivada, cresce, assim, com minha colega Juliana, vimos várias flores desabrochando: na conversa e oração na capela, no início e final de cada dia, na hora da escuta da palavra de Deus, na coragem de reconhecer que errou e pedir desculpas, no esforço diário de querer acertar, na realização das tarefas, na arrumação do refeitório, na limpeza da louça, na higienização dos banheiros.

Isso acontecia também na amizade que foi crescendo entre o grupo, no abraço carinhoso na hora da chegada e da partida, nas brincadeiras partilhadas, na confiança de abrir seu coração de menino(a) e contar do porquê estar na rua, do que já passou, do que já sofreu, dos seus sonhos e planos para o futuro...

Aos poucos, foi caindo a cerca da indiferença e construímos juntos o muro forte da amizade, onde, concretamente, pude entender e vivenciar o “Dai de graça o que de graça recebestes.”

Se o menor recebe amor (gratuito, generoso), é com este mesmo amor que ele dá os dons que produzem amor, afeto, compreensão, carinho, etc.

Mas se de graça só recebe rejeição, abandono, violência..., é com esta mesma moeda que paga à sociedade na qual está inserido.

“Dai de graça o que de graça recebestes”. Hoje sei que tenho muito para dar, pois sei o quanto aprendi e recebi nestes 25 dias.

Obrigado Pe. Maurilio por um dia ter tido a coragem de andar contra a corrente e colocar sua “liberdade” em favor dos menores.

Obrigado, Senhor, por mais esta oportunidade de aprender, amar e servir...

Ernestina Rodrigues
Rua César Renê Wagner n.º 814 - Alto Aririu - Palhoça - SC - 88135-720

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