Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Testemunhos de Vida Missionária

A vida missionária exige entrega total. É o que nos diz nesta entrevista o Pe. Clemente Vismara, por muitos anos missionário em Myanmar (ex-Birmânia).

Pedro: Pe. Clemente, qual foi seu primeiro campo de missão?

Logo que cheguei em Kengtung, Pe. Bonetta, o superior da missão, me destinou a Monglin, um lugarejo a 120 quilômetros de distância, quase no limite do Laos.

Pescador de Myanmar

Como residência, os cristãos da pequena comunidade haviam-me construído uma choupana de barro e palha! Logo ao entrar, senti faltar o fôlego: úmida, escura, com chão de terra e cheia de insetos. Pareceu-me até pior do que a trincheira onde, como combatente, me refugiava durante a primeira guerra mundial. Depois de uma semana de convivência, Pe. Bonetta voltou para Kengtung, deixando-me só, com a promessa de que chegaria outro padre.

Pedro: Imagino como deve ter sido duro se acostumar!

Duríssimo, mas o coração estava feliz. Na guerra eu era obrigado a atirar nos outros, agora estava lá por vontade própria.

Pedro: Que tipo de relacionamento instaurou com as pessoas?

Bom, ou melhor, ótimo. Comecei a ser o “tira-dentes” e também o médico. À noite, em volta do fogo, lia alguns livros de medicina para aprender pelo menos a distinguir as doenças e, embora ainda não nos pudéssemos entender pela fala, as pessoas viram logo que podiam confiar em mim.

Pedro: E como foi que nasceu a sua comunidade?

Quando cheguei, em outubro de 1924, eu era o único batizado num raio de 100 quilômetros. Desde o começo, o meu apostolado foi um contínuo andar, de pé ou a cavalo, pelas aldeias da região. Quase sempre levava três órfãos comigo e, quando tínhamos comida, comíamos juntos. Carregava também um bocado de remédios. Era uma maneira de ajudar aquele povo sofrido e carente de tudo.

Acabados o dinheiro e os remédios, tinha que voltar para casa e, dias depois, recomeçava outra viagem. Mais tarde fundei umas escolas, valendo-me muito da amizade pessoal. À noitinha, sentado em volta da fogueira, contava histórias do Antigo e Novo testamento. Falava muito de Jesus. Pouco a pouco, antes os mais pobres e depois os outros, se convenceram que a religião do padre era boa e passaram a solicitar mais instruções.

O venerável Pe. Clemente Vismara - P.I.M.E.

Mas, meu amigo, o começo foi muito difícil! Sempre que chegava numa aldeia, as pessoas fugiam e se escondiam nas choupanas. Era a primeira vez que um homem branco aparecia para visitá-los.

Empregava boa parte do tempo cuidando dos meus cavalos e preparando a comida para os órfãos, que aumentavam a cada dia. Sempre chegava alguém que, por ser mais corajoso ou extrovertido, se aproximava de nossa tenda e ali começava uma amizade.

Minha linha de comportamento sempre foi a de ficar contente com tudo e louvar por aquilo que tinham e ofereciam: sua comida, sua língua, suas choupanas e seus costumes, desde que não fossem contrários à lei de Deus.

Pedro: Pe. Clemente, com tantas crianças órfãs que tinha em casa, como pode ficar sossegado?

Por que não deveria sê-lo? Sempre gostei do barulho e, freqüentemente, brinco com eles. Quando estou sentado no pátio, há sempre alguns que se aproximam, tiram-me a barba e procuram alguma bala nos meus bolsos.

Quando vou para a igreja eles me seguem; quando me alimento, eles olham como o faço. Imagine que cheguei a ter, no orfanato da missão, mais de 250 meninos, e de diversas raças!

Quando penso que este país é tão dividido e que se matam à toa, eu sinto um grande amor por essas crianças que crescem como irmãos. Isto demonstra claramente que minha vida serve para alguma coisa e que Deus me abençoa.

Pedro: Pe. Vismara, sempre vejo-o feliz. De onde vem tanta alegria?

É só pensar na sorte que tive, a começar pela família, o extraordinário dom da vocação sacerdotal e missionária e depois estar no meio de um povo que me quer bem. Será que um missionário tem razões para ser infeliz?
Eu digo sempre a Deus: quero ser todo teu e se há algo ruim em mim, tira-o logo.

Pedro: Pe. Clemente, gostaria de conhecer algo a mais de sua vida missionária em Myanmar.

Poderia contar inúmeras aventuras de todo tipo. Pensando bem, a minha foi realmente uma vida de fadiga, de muitas e intermináveis viagens de até dez ou quinze dias, a cavalo ou mesmo a pé. Chegava nas comunidades morto de cansaço, sem um tostão ou outros recursos humanos a não ser o coração aberto. Isso já era suficiente para que o povo me entendesse plenamente e acatasse a minha mensagem. As preocupações não faltavam, mas, posso lhe afirmar que, raramente, senti tristeza ou abatimento.

Pedro: Gostaria que o senhor deixasse uma mensagem aos jovens que também são atraídos pela vocação missionária.

Faço-o com muito prazer. Baseado na minha longa experiência, digo a esses jovens que, para ser missionário, é necessário doar a vida com generosidade, simplicidade, entusiasmo e amor.
Não guardem nada para si. Sejam livres para amar a Deus e ao próximo por toda a vida. Se o missionário não é capaz de tamanha doação, não vale nada. Acreditem: Só Deus basta!

O país é mais conhecido no Ocidente pelo seu nome antigo: Birmânia. Seu nome atual começou a vigorar a partir de 1989, quando o governo fez questão de destacar a presença de outros povos, além dos birmaneses, em seu território.

Nas regiões montanhosas, de chuvas abundantes, domina uma selva tropical, quase impenetrável e habitada por grande variedade de animais: rinocerontes, búfalos, elefantes, tigres, leopardos... Mas há também regiões que sofrem de tremendas secas.

O território de Myanmar é habitado por um mosaico de etnias, na maioria mongolóides.

O Myanmar é ainda muito fechado aos influxos externos. É um país predominantemente agrícola.

Apesar dos progressos no campo educacional, o analfabetismo continua sendo um grave problema.

A religião predominante é o budismo, embora existam minorias hindus, muçulmanas, cristãs e animistas.

Depois da expulsão dos missionários, foram crescendo progressivamente as vocações ao sacerdócio.

Muitos seminaristas estão se formando no exterior, como é o caso dos que estudam em Monza (Itália), junto com os seminaristas do P.I.M.E. (Pontifício Instituto das Missões).

PARA REFLETIR:

1.º Diga suas impressões sobre o testemunho do Pe. Clemente Vismara.

2.º O que comporta o “ser missionário?”

3.º Sua comunidade, seu grupo... fala do dever de evangelizar o mundo e da vocação missionária?

4.º Você já pensou em ser missionário(a)? Por quê?

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