Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Testemunhos de Vida Missionária

Pe. Alberico Crescitelli

No dia 1º de outubro, João Paulo II proclamou Santos 120 mártires da China. Além de 33 missionários, na lista se encontram 70 leigos chineses e 07 seminaristas que testemunharam sua fé entre os anos 1747 e 1930.
Nesta página apresentaremos uma breve biografia de um deles: Alberico Crescitelli, primeiro Santo do Pontifício Instituto das Missões Exteriores - P.I.M.E.

SUA VOCAÇÃO

Alberico nasceu em Altavilla (Itália), em 30 de junho de 1863. Os pais, Benjamin, farmacêutico, e Degna Bruno, tiveram 11 filhos, aos quais deram uma forte formação religiosa.

Desde criança, Alberico freqüentava a Paróquia e participava de atividades pastorais. Seus ideais não correspondiam às opções de vida que os parentes lhe apresentavam.

O encontro que Alberico teve, no dia 20 de outubro de 1880, com Domingos Porrazzo, palotino, foi determinante para sua vida. O religioso, conhecendo o desejo do jovem de se tornar missionário, orientou-o para o Pontifício Seminário dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo para as Missões, fundado em Roma, e que, em 1926, foi unificado com o de Milão, nascendo assim o P.I.M.E.

Alberico, depois de realizar os estudos de filosofia e teologia, foi ordenado Sacerdote no dia 4 de junho de 1887. Em sua primeira missa faltavam o pai e uma irmã, mortos num terremoto em 1883.

A MISSÃO

Voltando à sua cidade natal, Pe. Alberico foi surpreendido por um gravíssimo surto de cólera. O que fazer? Amigos e familiares o aconselharam a fugir do perigo. Pe. Alberico preferiu ficar e dedicou seus primeiros meses de sacerdócio aos seus concidadãos, vítimas do cólera.

Destinado à missão de Hanchung, no Nordeste da China, despediu-se de sua família e, no dia 06 de março de 1888, depois de ser recebido pelo Papa Leão XIII, embarcou de Gênova para a China. Após quatro meses de viagem pelo mar, rios e terra, em 18 de agosto Pe. Alberico chegou à sua missão: Xiaozhai.

CHINA EM CRISE

No fim do século XIX, a China estava atravessando uma profunda crise, defrontando-se com a modernidade, para a qual estava despreparada.

Esta chegou, primeiro, nos barcos dos comerciantes ocidentais e, em seguida, nos navios de guerra de seus países. O encontro foi traumático porque os ocidentais não respeitavam a milenar cultura chinesa, ocupando lugares estratégicos ao longo da costa e se instalando nas cidades.

O que fazer? As duas correntes internas, uma mais tradicional e outra mais aberta às novidades, estavam divididas sobre a orientação a ser tomada e, não raramente, os próprios missionários, protegidos pelos países ocidentais, apareciam aos olhos dos chineses como estrangeiros.

DEFESA DOS PEQUENOS

Em março de 1900, Pe. Alberico foi encarregado de tomar conta do Distrito de Ningqiang, que, até então, nunca tivera a presença estável de um padre. A situação era simplesmente catastrófica. Devido à seca, a fome assolava aquele Distrito que ficava longe das vias de comunicação.

O governo imperial de Pequim enviou ajuda, mas Tam, responsável pela distribuição, era inimigo dos católicos e por isso não os colocou na lista dos necessitados.

Pe. Alberico interveio para solucionar o impasse, mas, fracassadas todas as tentativas, recorreu à autoridade superior, que lhe deu razão. Desta maneira, Tam teve que incluir na lista também os católicos.

Mas o problema era mais profundo: a presença está vel do missionário e seu ardor evangelizador começava a incomodar as autoridades locais que, na semana santa de 1900, decidiram dar um basta às conversões e expulsar o missionário do Distrito.

A situação do Pe. Alberico tornava-se ainda mais delicada pela amizade que tinha com duas personalidades bem conhecidas no ambiente: o senhor Li, honrado pela Corte Imperial e decidido a se tornar cristão junto com parentes e amigos; e o influente Guo, um muçulmano que tinha tomado a defesa do missionário no problema da ajuda governamental aos católicos e que tinha-se convertido ao cristianismo. O fato causou grande impressão e alarme entre os notáveis da cidade.

AMEAÇAS

No dia 02 de junho, chegando em Yanzibian, Pe. Alberico recebeu repetidas ameaças de morte, juntamente com seu servo. As coisas pioraram quando, em 1898, prevalecendo o grupo conservador, a Corte Imperial promulgou um decreto no qual os cristãos eram descritos como alucinados e inimigos do povo.
O extermínio foi violento. Só entre os católicos, em poucos meses, foram mortos cinco bispos, dezenas de missionários e mais de trinta mil cristãos. Todos os missionários foram intimados a deixar a China. Aproveitando o Decreto, os notáveis de Yanzibian também decidiram matar Pe. Alberico, seria no dia 20 de julho.

O MARTÍRIO

Embora consciente dos perigos, o missionário não aceitou a ordem de deixar a área, só passou a morar num conjunto de casas distante poucas centenas de metros de Yanzibian.

Ali ficou até que, no dia 20, constatada a gravidade do perigo, decidiu afastar-se. Era tarde demais. Pela tardinha, despediu-se rapidamente dos cristãos e, acompanhado por pouquíssimas pessoas, se pôs a caminho.

Jao, o alfandegário, inesperadamente convidou-o para hospedar-se na alfândega. Era uma armadilha! Pelas nove da noite, a alfândega estava cercada por uma grande multidão furiosa: não havia nenhuma possibilidade de escapar.

E começou seu martírio, de uma crueldade superior a qualquer imaginação. Foi logo alvo de dois golpes de bastão: um quase lhe cortou o braço esquerdo e o outro atingiu seu rosto, quebrando-lhe o nariz e a boca.

Ficou desmaiado. Amarraram-lhe depois as mãos e os pés com cordas e varas e o levaram para fora da casa. Quando retomou a consciência, o desamarraram, tiraram suas roupas e, com velas, começaram a queimar sua barba e os pêlos do corpo.

Frente à gravidade dos acontecimentos, foi enviado um contingente de 20 soldados, que não puderam ou não quiseram evitar o pior.

Novamente amarrado pelos pés e levado para as margens do rio Jialing, serraram-lhe a cabeça com uma cortadeira que servia para preparar a palha para os animais, esquartejaram o corpo e o jogaram no rio.

Era o dia 21 de julho de 1900. Com ele, no mesmo dia, foram martirizados também 11 catecúmenos.

Homem de caráter extremamente firme, de um forte sentido do dever e de uma profunda espiritualidade e sensibilidade para com as pessoas, hoje é apresentado como modelo de missionário e discípulo de Cristo.

Pe. Sóssio Pezzella – P.I.M.E.

Jovens rezando no local do Martírio

PARA REFLETIR

1. Qual é a situação política, econômica, social e religiosa da China atual?

2. Por que a ação do Pe. Alberico incomodou tanto as autoridades chinesas?

3. Por que a santificação dos mártires chineses provocou tanta reação por parte das autoridades chinesas?

4. Qual é o valor do martírio na Igreja?

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