Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Testemunhos de Vida Missionária

No mês em que celebramos o Dia da Saúde (07), apresentamos um testemunho missionário de alguém que viveu a caridade de maneira radical, como missionário e médico, e fez verdadeiros milagres.

Dia 13 de fevereiro de 1987: sexta-feira da Paixão para uma missão de Kalongo, no norte de Uganda. Às quatro horas da manhã, um batalhão de soldados do National Resistence Army - NRA - de Museveni, tiram da cama os pacientes do hospital, os médicos, as irmãs e os padres da missão.

A ordem é evacuar imediatamente. Ninguém pode discutir, e todos se olham incrédulos. Há, porém, uma pessoa – e todos olham para ela - para quem a ordem de partir é algo mais do que fazer as malas: Pe. José Ambrosoli.

Pe. José, sem exagero, é tudo para Kalongo. Quando chegou lá, em 1956, era um padre recém-ordenado. Ele era também médico, sem dúvida com muita boa vontade, mas ainda com experiência limitada.

A missão de Kalongo, fundada 22 anos antes pelo Pe. Malandra, tinha só um modesto posto de saúde coberto de palha. Hoje, o hospital está entre os melhores de Uganda, com mais de 300 leitos, 11 setores, entre eles: pediatria, cirurgia, radiologia, laboratório de análise, escola para obstetras e unidade nutricional.

Pe. Franzelli, diante daquela violência, comenta a reação de Pe. José: “Fomos à igreja para a missa da tarde, que ele celebrou. Foi uma Eucaristia simples, sem sermões. Somente convidou, na hora do Pai Nosso, a pedir que fosse feita a vontade do Pai e que nos desse a força de cumpri-la”.

Nos dias seguintes, ocupadíssimo em preparar o material e os instrumentos a serem levados, repetia aos outros: “Ânimo! O que Deus quer, nunca é demais!”
Pe. José, italiano, pertencia a uma família de estudiosos e políticos. O avô foi deputado e o pai um próspero industrial da seda e depois do mel.

Um ano após ter concluída a faculdade e ter conseguido a especialização em medicina tropical, manifestou à família a decisão de entrar numa congregação religiosa que lhe garantisse atuar como médico missionário.

Destinado inicialmente para a Uganda, foi enviado a Kalongo, para substituir o médico titular, com a seguinte condição: “Só por dois meses, não mais”. Ficaria 31 anos. Sobretudo por mérito dele, o hospital de Kalongo tornou-se, em apenas dez anos, o terceiro do país. A própria aldeia, antes insignificante, virou capital da província.

No princípio, Pe. José defrontou-se com uma tarefa superior à sua preparação ainda limitada, sobretudo em cirurgia. Mas, dotado de grande espírito de responsabilidade e apaixonado pela medicina, especializou-se em cirurgia. Na sua cabeceira tinha sempre o breviário e várias revistas de medicina.

Pe. José não concebia sua atividade em termos assistenciais, mas procurava formar pessoas que pudessem difundir as informações da medicina em nível básico. Prova disso é a fundação da primeira escola para obstetras profissionais de Uganda, que diplomou, em 30 anos, mais de 400 obstetras. O próprio Pe. José dava alguns cursos.

Sua fama, como cirurgião, cresceu rapidamente, a tal ponto que os africanos começaram a chamá-lo ajwaka matek, “feiticeiro dos milagres”, e vinham de todo lugar para serem operados por ele. Muitas crianças de Kalongo e arredores chamam-se José pela gratidão de seus pais.

Sua jornada começava cedo com a oração, a missa e depois o café da manhã. Pe. José era muito pontual e preenchia meticulosamente os prontuários médicos dos pacientes e os relatórios das cirurgias efetuadas (cerca de 1500 por ano). Chegava atrasado no almoço, pois o trabalho se alongava. Depois de um breve descanso, rezava mais um pouco e ia para o ambulatório, do qual era difícil tirá-lo: os doentes confiavam nele. Depois da janta, mergulhava-se na correspondência com os muitos amigos que ajudavam sua obra.

Pe. Aldo Marchesini, seu médico auxiliar, testemunha: “Pe. José tinha uma experiência impressionante em todos os campos. Estudava sempre: seu quarto era uma biblioteca equipadíssima. Porém, mantinha-se sempre humilde. Pedia pareceres a todos, até a mim, recém-chegado, e os levava em conta. Nunca se colocava em posição de mestre”. Na mesa se colocava sempre no último lugar e sempre se dispunha a carregar as malas dos hóspedes.

Outro médico, diretor de um hospital de Milão, lembra: “Pe. José Ambrosoli é uma das poucas pessoas das quais somos obrigados a falar bem com absoluta objetividade. Em Uganda, ele era um mito. Salvou milhares e milhares de vidas. Era um grande senhor: compreendia sempre os erros dos outros e fazia acrobacias para desculpá-los. Nunca dava uma bronca. Sabia escutar muito”.

Tinha uma predileção pelos pobres. Ficava próximo deles, carregando sobre si suas dores, dando tudo de si para ajudá-los a saírem daquela situação. Ele mesmo conta: “Um pouco pela seca, pelos contínuos roubos de gado e pelas lutas tribais, veio a fome. Morrem os velhos e as crianças. Eu percorro as aldeias e as mães se colocam diante do jipe, levantando as crianças: Leve-o com você, doutor, gritam. Os casos são tão numerosos que devo escolher, acabando por levar comigo as crianças que não conseguiriam sobreviver, as mais esqueléticas”. Alguns colegas de missão viram Pe. José chorando, naqueles momentos.

A caridade resplandecia nele, também nos detalhes. Conta um leigo italiano: “Um dia fui afetado por uma grave infecção no braço.

A febre era altíssima e Pe. José me prescreveu antibióticos a serem tomados a cada seis horas.

Ele se preocupava em me acordar à meia-noite, para que pudesse tomar o comprimido.

Entrando no quarto, viu que eu tinha roupa suja na pia. Depois de ter-me dado o remédio, lavou minha roupa”.

Quando, no dia 13 de fevereiro de 1987, o comboio de 1.500 homens, entre militares e civis deixa Kalongo, uma fumaça preta se levanta atrás dos fugitivos: os soldados haviam queimado os containers de alimentos e remédios para que não caíssem nas mãos dos inimigos. Alguns dias depois, numa das últimas cartas, Pe. José revela: “Com um nó na garganta, tivemos que abandonar Kalongo. O Senhor, porém, é grande e nos deu a força de aceitar tudo da sua mão. Esta é uma oportunidade maravilhosa para crescer e amadurecer espiritualmente, como também para nos desapegar de muitas coisas terrenas. Portanto, agradeçamos por tudo ao Senhor!”.

Este foi seu testamento espiritual. Ele morreu poucos dias depois.

Roberto Beretta

PARA REFLETIR

1.º Você conhece a situação atual do continente africano? Quais os maiores males que afligem aquele continente?

2.º Como você definiria o Pe. José Ambrosoli?

3.º Cite pessoas que, em sua cidade, a exemplo do Pe. José Ambrosoli, doam sua vida pelos irmãos mais necessitados.

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar