Jornal - "MISSÃO JOVEM"
Testemunhos de Vida Missionária
![]() Diante das múltiplas dificuldades pelas quais está passando o Timor Leste, a Igreja daquela ilha pediu missionários à Igreja no Brasil, para que ajudassem na reconstrução e na evangelização. Cinco religiosas de três congregações e uma leiga já foram enviadas. A irmã gaúcha Maria Beatriz Mohr, da Congregação da Divina Providência, trabalha na missão de Laléia. Publicamos aqui uma carta que ela recentemente enviou ao Brasil.
NASCENDO NOVAMENTE Estamos no Timor há 8 meses. Parece que partimos ontem. Nossos
olhos já contemplaram muitos cenários e os corações
já sentiram muitas dores e alegrias. Nossa vida é muito
intensa, mesmo numa cultura onde ninguém parece ter pressa. Aqui
estou nascendo novamente. A história sofrida tornou este povo muito diferente e especial. Meu esforço para acolher as pessoas, como elas são, é um exercício diário. O fato de não compreender a língua tetun e muitos outros dialetos dificulta e limita nossa ação. Mas continuamos entre eles. Aqui nos cabe fazer sempre o movimento de voltar. É preciso voltar no tempo, acolher o estranho e o desconhecido, conviver com as diferenças e com as distâncias entre o mundo deles e o nosso. Vejo concretamente nisso o sentido da encarnação de Jesus: agora é a minha vez. É para eles que vim e com eles quero ficar. RECONSTRUÇÃO O futuro político e econômico deste país não parece nada claro. Estão tentando reconstruir a nação e compor os quadros políticos, mas existem poucas pessoas preparadas e muitas dificuldades estão ainda por vir. Muitos partidos estão surgindo e grande é a sede de poder. A democracia e a responsabilidade são dimensões a serem ainda amadurecidas por este povo, após 450 anos de domínio português e quase 30 de invasão indonésia. Deste tempo restam muitas marcas: imoralidade, sofrimento e morte. Foram aplicadas torturas jamais imaginadas. A falta de água potável e a alimentação precária têm muita influência na precariedade da saúde desse povo. Gosto muito do trabalho que estou realizando com um grupo de professores em Cairui. Percebo, porém, que as forças físicas não permitem fazer mais. Minha cabeça e meu coração se adaptaram, mas meu estômago anda muito teimoso.
Com as chuvas intensas e o trabalho nas várzeas de arroz, as doenças aumentaram muito. Minha colega, Irmã Terezinha, se dedica mais a isso, oferecendo tudo que puder para atender o povo. Nós estamos centrando nossos esforços sobretudo no campo da educação. Tivemos a visita da Dra. Zilda Arns (fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança no Brasil) e, com ela, partilhamos o nosso sonho de implantar aqui a Pastoral da Criança. Ela é mesmo um grande presente de Deus para o mundo. Trouxe-nos muito material e nos deu todo apoio. Agora é preciso encontrar caminhos para adaptar a proposta dessa pastoral à cultura local e à organização do povo timorense. Este povo aprendeu mesmo a sofrer, agora precisa aprender a saborear a vida. Irmã Maria Beatriz Mohr |
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