Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - África
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Os novos "Cães de Guerra" Rodolfo Casadei Era uma vez os mercenários, aqueles que freqüentavam bares em Johannesburgo ou ociavam nos pubs de Londres, esperando que tocasse o telefone para partir numa aventura de guerra em alguma parte do mundo. Eram os mercenários que vendiam seus serviços de soldados em troca de pagamento, mas também gozavam o direito de saquear os bancos centrais das capitais onde combatiam e furtar diamantes. Hoje, eles são até mais numerosos que no passado, mas bem diferentes daqueles dos anos sessenta, os mercenários aventureiros, anarquistas e megalômanos, que combateram em Katanga ou no Congo. No lugar deles, despontou um impessoal e anônimo entrelaçado de sociedades especializadas em serviço de seguranças, filiais, financeiras e companhias mineradoras, que deslocam capitais e "cães de guerra" hi-tech, com a habilidade e agilidade de uma corporation globalizada. Seus diretores executivos e administradores delegados, todos ex-oficiais e agentes de serviços secretos das forças armadas, não usam o uniforme militar, mas paletós e gravatas, mantêm relações com todas as organizações de segurança nacional das grandes potências, com os chefes de Estados do Terceiro Mundo, com muito mais competência e poder de persuasão que seus predecessores. A grande novidade dos "cães de guerra" do futuro está sobretudo na habilidade empresarial. Enquanto os mercenários de outrora combatiam pagos por uma grande companhia mineradora, hoje, os mercenários são donos ou acionistas de uma ou outra companhia à qual os governos locais concederam lucrativos contratos de prospeção e de exploração, e essa companhia, por sua vez, faz parte de uma holding tentacular com interesses multiformes. A Sandline Internacional, de origem inglesa, e a Executive Outcomes (Eo), de origem sul-africana, as duas multinacionais mercenárias mais famosas na África do Sul (agora uma só para escapar de problemas causados pela "lei antimercenários" desse país) participam da Corporation Strategic Resources. Esta, através de várias sociedades com atividades que vão dos serviços de segurança (Sandline Internacional e Life-Guard), ao transporte aéreo (Ibis Air), desarmamento de minas, à informática, ao mercado financeiro e especialmente, à extração minerária (Diamond Works, Heritage Oil & Gas, Branch Energy, etc.), é controlada, por sua vez, pela Adson Holdings. Em Serra Leoa, um exemplo típico: em 1995, os homens da Eo, além de fornecer assistência técnica ao exército que combatia a guerrilha da Frente Revolucionária Unida, adestrar os recrutas das forças armadas e das milícias tribais, protegiam as concessões minerárias da Branchs Energy. Quando em 1997, a Sandline substituiu a Eo, foi estabelecida uma situação semelhante: o contrato de engajamento pedia que governo de Serra Leoa fizesse concessões no distrito diamantífero de Pujehun à Diamond Works da qual a Branch Energy é subsidiária. E esses não são casos isolados. A israelense Levdan, especializada no treinamento de guardas de seguranças presidenciais na África, está unida a uma firma de comercialização de diamantes, a Kardan Investiment, que - por seus serviços no Congo Brazzaville - foi autorizada a realizar prospeções petrolíferas no país. Depois da queda do presidente Lissuba, ela foi substituída por militares cubanos em troca de uma notável soma de dólares e isso prova que o fenômeno dos mercenários não depende de uma mentalidade colonialista ou de uma prática capitalista. Até Fidel Castro usou e abusou dessa prática mercenária: basta lembrar que, nos anos setenta e oitenta, Cuba exportou para Angola entre 20 e 40 mil cubanos para sustentar o governo filo-comunista contra a UNITA que era subvencionada pela África do Sul do apartheid e por Ronald Reagan. Sempre em Angola, a sociedade de capital belgo-holandês, Internacional Defence and Security (Idas), conseguiu uma concessão diamantífera numa área de quase 100 mil km2, por serviço em matéria de segurança. Cães de guerras legitimados Outra característica relevante desses novos mercenários é sua habilidade em ganhar uma áurea de legitimidade através de contatos, contratos e formas de colaboração cada vez mais estreita com os governos nacionais, as instituições internacionais e empresas multinacionais. Em maio de 1998, a Sandline apareceu na grande crônica, quando foi revelada a sua participação na recolocação do presidente Kabbah no governo de Serra Leoa, derrubado um ano antes pelo militares. Com o tácito consenso do governo inglês e o suporte de seus serviços de segurança, a sociedade mercenária teria fornecido ao Exército comunitário dos países africanos (Ecomog) e às milícias tribais favoráveis ao presidente reposto, 35 toneladas de armas provenientes da Bulgária, monitoramento sobre o inimigo, pilotos para os aviões e helicópteros de combate nigerianos. A revelação da colaboração entre a sociedade mercenária e o governo trabalhista inglês causou escândalo no país, também porque existiam sanções da própria Inglaterra, do Commonwealth e da União Européia, proibindo qualquer fornecimento de armas à Nigéria. Ao final, essas armas acabaram nas mãos da Nigéria pois, estranhamente, o Ecomog é formado, em sua totalidade, por soldados nigerianos. Todavia, os diretores do Sandline não deram sinais de preocupação e, aliás, no mês de outubro precedente, foram convidados de honra e relatores no encontro sobre o papel das companhias particulares nas estratégias de segurança, organizado em Washington pela Defence Intelligence Agency (Dia), a contra-espionagem militar americana. Uma verdadeira consagração oficial. Outro exemplo notável dessa tendência de misturar guerras e negócios é a expansão das atividades da britânica Defence Systems Limited (Dsl) que iniciou suas atividades internacionais em 1986, com um contrato de adestramento de alguns batalhões do exército moçambicano, então em luta contra os rebeldes da Renamo. Em 1996, a Dsl já tinha sucursais em 44 países e quatro mil dependentes. Entre os seus clientes, constam agências das Nações Unidas, o Banco Mundial e companhias petrolíferas e multinacionais. Em 1997, a Dsl fundiu-se com a Armor Holdings, sociedade norte-americana com ações nas bolsas que, através de outra associada americana, conseguiu contratos para a segurança de muitas embaixadas dos EUA no Terceiro Mundo, entre as quais as mais expostas e perigosas como as da Angola, Uganda, República Democrática do Congo. Questão ética O aumento da importância internacional dessas corporações de mercenários é estigmatizado pela imprensa favorável ao Terceiro Mundo como uma nova fronteira de um liberalismo que privatizou tudo nas mãos de poucas e poderosas pessoas, especialmente a defesa e a segurança nacional dos países democraticamente mais frágeis. Mas isso é uma maneira de confundir as causas com os efeitos, porque a maioria dos governos e dos exércitos do Terceiro Mundo também não são legítimos e não têm o consenso interno do povo - que apanha de todos os lados. O perigo é que a defesa desses governos irá depender cada vez mais de sociedades de seguranças particulares fazendo, naturalmente, a fortuna das mesmas nas costas do povo. Avvenire - setembro/1999 |
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