Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Europa

por Costanzo Donegana

uma pena que muitas pessoas vão achar que estão aprendendo a verdadeira história do relacionamento entre Pio XII e os judeus, assistindo ao filme Amém, de Costa Gravas. Este diretor é conhecido por obras, como Z, Missing, A confissão, politamente engajadas e de forte denúncia. Mas, desta vez, a denúncia atingiu o alvo errado. Ele se inspira na famosa peça teatral O Vigário, de R. Hochhuth, que, em 1963, suscitou enorme polêmica, acusando Pio XII de ser responsável pela eliminação de seis milhões de judeus com seu silêncio cúmplice, motivado por cáculo político.

A peça e o filme misturam história e ficção, imaginando personagens e fatos que não existiram, recorrendo à técnica do claro-escuro, apresentado os dois protagonitas (um jovem padre jesuítas e um oficial das SS) como símbolos do bem, dos sentimentos ideias e humanitários, em contraposição com a crueldade do nazismo e o cálculo político da diplomacia vaticana e de Pio XII, em particular. O tema do relacionamento de Pio XII com os judeus e de seu "silêncio" diante do holocausto se reduzia essencialmente ao dilema: denunciar ou não denunciar a eliminação dos judeus que os nazistas estavam perpetrando?

Também entre os historiadores sérios não há unanimidade na avaliação da atitude do papa. A história é objetiva, mas não os historiador, que é condicionado por fatores subjetivos, como sua formação, cultura, opções políticas e religiosas. O que se pede dele é uma interpretação honesta, livre de preconceitos e interesses, pelo menos em nível consciente. Isso não aparece em Amém. Eis alguns exemplos. Pio XII é apresentado como uma pessoa fria, calculadora, distante dos dramas das pessoas que sofrem, que se refugia na promessa: "Iremos rezar".

Está mais preocupado em combater o comunismo do que o nazismo; antes, vê no nazismo a única força que, no momento, pode vencer o comunismo, embora espere que esse também sucumba. Mas é absolutamente falso imaginar a mínima simpatia de Pio XII pelo nazismo. Basta um fato: no início de 1940, ele aceitou ser mediador entre um grupo de altos oficiais alemães, que queriam abater Hitler, e a Inglaterra. As tratativas eram conduzidas, no mais altosegredo, pelo próprio papa. A conjuração não teve resultado pela pouca vontade do governo inglês.

Uma cena do filme mostra os dois protagonistas escutando pelo rádio o famoso discurso de PioXII no Natal de 1942, esperando das palavras do papa uma denúncia da política de extermínio do nazismo. Nada! Mas a realidade é diferente: Pio XII falou, embora em termos que nos parecem atualmente gerais e mais diplomáticos do que proféticos. Mas atenção: nos territórios do Reich, a divulgação do texto do discurso foi considerada um "crime contra a segurança do Estado, passível da pena de morte".

Pio XII não foi um homem frio e calculador e o drama dios judeus foi um dos tormentos da sua vida. Ele fez tudo o que estava a seu alcance para diminuir o sofrimento daquele povo, em termos de ajuda humanitária, mobilizando paróquias, conventos, dioceses, nunciaturas para "salvar sobre-tudo vidas". Foram milhares os judeus salvos, porque escondidos em casas religiosas, expatriados clandestinamente, e é significativa a gratidão ao papa, expressa por inúmeros representantes oficiais de comunidades judaicas durante e logo depois da guerra.

Pio XII, no tormento da escolha entre falar ou não, preferiu não denunciar, "depois de muitas lágrimas e muitas orações", como confessou. A razão foi não suscitar uma vingança mais feroz dos nazistas contra os judeus e os próprios católicos. Se Costa Gravas tivesse mergulhado nas dobras desse drama de consciência de Pio XII, teria respeitado a história e, talvez, produzido algo que honraria a arte cinematográfica.

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