Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Europa

 

por Alberto Garuti

Após o fim do regime comunista na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, os primeiros anos em que a democracia se instalou na Rússia foram cheios de dificuldades. Não foi fácil a transição de um regime para outro.

O PAÍS MUDOU

Já no ano 2000, durante uma breve permanência do presidente Putin em Paris, ele declarou abertamente à imprensa francesa que "a Rússia tinha mudado" e o jornal Rossiskaia Gazeta resumiu a situação com esta manchete: "Em Paris compreenderam que tinham ido longe demais na crítica a Moscou". Com efeito, terminada a crise financeira de 1998, os investidores estrangeiros voltaram a procurar a Rússia.

O próprio escritor Alexandre Soljenitsin, autor de "Arquipélago Gulag", que sempre denunciara o antigo regime soviético, começou a ver aspectos positivos no novo governo de Vladimir Putin: a Rússia está conseguindo achar de novo sua unidade, o estado de direito está se tornando mais forte, a vida espiritual está renascendo no país com o apoio da Igreja ortodoxa. Ele achou positivo até o apoio dado pelo governo à guerra na Chechênia.

Nesse renascer do país, foi significativo que um jornal russo, Notícias de Moscou, elegesse como "homens do ano", ex-aequo, o presidente Vladimir Putin e o patriarca da Igreja ortodoxa russa, Alexis II. Sempre, por uma tradição secular, o tsar da Rússia e o patriarca ortodoxo foram as pessoas que garantiram o crescimento temporal e espiritual da nação.

O TERRORISMO DEU MAIS FORÇA AO GOVERNO

Durante bastante tempo, o presidente Putin tinha sido visto com maus olhos pela comunidade internacional por causa da guerra na Chechênia. Essa pequena república, uma das 21 que compõem, junto com alguns distritos autônomos, a Rússia atual, reclamava a independência. Em 1994, o então presidente Ieltsin ordenou, depois de uma guerra sangrenta em que morreram milhares de pessoas, a ocupação do território pelo exército russo. A partir daquele momento, os chechenos não cessaram de ameaçar o russo invasor com ações de terrorismo em todo o seu território, suscitando ações repressivas também violentas por parte dos russos.

Mas, depois de 11 de setembro de 2001, Putin já não é visto como o repressor, e sim como aquele que tem que se defender contra os terroristas. Outra declaração de Soljenitsin veio em apoio a Putin: "Uma onda de terror parte da Chechênia e chega até nós. Esses monstros são capazes de cortar a cabeça de seus prisioneiros. Eles zombam e debocham de nossos tribunais. Eles sabem que não vai haver pena de morte... Eles sabem que, antes, serão condenados à prisão perpétua. Depois, vão poder se beneficiar de alguma redução da pena ou de uma anistia ou conseguem fugir. Que fazer com esse terror?".

A ligação entre terrorismo e islã tornou-se particularmente preocupante, devido a uma presença não desprezível de 13 a 14 milhões de muçulmanos em território russo. Uma jornalista revelou que o próprio irmão de Bin Laden, Tarik, chegou à Rússia com uma fabulosa quantia de dinheiro e iniciou a colocação da pedra fundamental de uma nova mesquita, que deveria ser a mais majestosa da Rússia, destinada a se tornar a Meca do Norte. Mas essa mesquita está se tornando uma "mesquita virtual", pois a construção nunca começou e o dinheiro, dizem, teria ido para a Chechênia, sustentar o terrorismo.

DEMOCRACIA ATÉ CERTO PONTO

O presidente Putin foi conduzido ao poder em 2000, por uma população humilhada e mergulhada no caos econômico. A decepção do povo era ainda maior porque as grandes esperanças surgidas depois da queda do comunismo tinham desaparecido totalmente. O que a população russa esperava de Putin era que fizesse com que a Rússia voltasse a ser uma grande potência respeitada internacionalmente, e isso permitiu ao presidente que iniciasse uma política severa de saneamento econômico. Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 reforçaram paradoxalmente sua posição, pois ele foi visto pelos Estados Unidos como um parceiro na luta contra o terrorismo e não mais um opressor do povo checheno.

RÚSSIA

- Território: 17.075.400 km2
- População: 147.434.000
-
Capital: Moscou (8,5 milhões)
-
Outras cidades importantes:
São Petersburgo (4,2 milhões),
Ninji Novgorod (1,4 milhões),
Novosibirsk (1,4 milhões)
-
Religiões: cristãos 46%
(ortodoxos 40%, protestantes
4,66%, católicos 1%) islâmicos (10%)
Os outros se declaram ateus.
-
Língua oficial: russo
-
Renda per capita: US$ 2300
-
Regime político: presidencialismo

Mas, ao poucos, Putin foi tomando posições inquietantes: por exemplo, acabou fechando os canais independentes de televisão. Como nos velhos tempos, só funciona agora na Rússia a televisão do Estado. Comentando esse fato, Grigori Lavlinski, líder da oposição liberal, disse que "se trata de um grande passo atrás, em direção à supremacia do pensamento único".

Putin, pelo contrário, declarou à imprensa, durante um encontro com Bush, em novembro de 2001, que "não se deve ter medo de falar dos limites da liberdade de expressão, quando ela é usada contra a sociedade, sua segurança e seu bem-estar espiritual". O mesmo discurso que ouvimos, algumas dezenas de anos atrás, na boca de ditadores latino-americanos.

Até quando poderá Putin lisonjear o nacionalismo visceral da população russa? Diríamos que se instaurou no país uma "democracia de geometria variável", que sacrifica os direitos e as liberdades individuais no altar da prosperidade econômica e da grandeza nacional. É um caminho que pode, embora seja muito cedo afirmá-lo agora, levar ao fascismo.

A luta do presidente contra o terrorismo rendeu-lhe dividendos em termos de popularidade. Mas isso não foi suficiente. Ele está querendo aumentá-la ainda mais através do apoio que está dando à Igreja ortodoxa, colocando-se ao lado dela em suas controvérsias contra a Igreja católica. O fato tornou-se evidente, quando apoiou e deu seu aval às expulsões de bispos e padres católicos que se tinham tornado incômodos para os ortodoxos. A política de Putin poderia até ser chamada de "nacional-ortodoxismo".

QUAL O FUTURO PARA A RÚSSIA?

Por enquanto, no meio de seu mandato, Putin goza ainda do apoio de 70% da população. A seu favor, pode ser contabilizado um crescimento econômico real com inflação reduzida a 20% por ano, um retorno ao cenário político internacional e um controle quase total da mídia (televisão, rádio e principais jornais).

Restam ainda a resolver: o problema da Chechênia, o da fuga de capitais (cerca de 20 bilhões de dólares por ano) e o da reforma do exército, que está gerando grande descontentamento entre os militares. Enfim, existe, para a Rússia, olhando para o futuro, o medo de um excesso de autoritarismo que, por enquanto, está pondo uma mordaça na oposição e nos faz perguntar: aonde estamos indo? Exaltar o amor à pátria e às tradições religiosas do povo é uma coisa excelente, contanto que não se chegue à xenofobia, ao integrismo, ao fundamentalismo.

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