Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - África
África, não! Áfricas! Pedro Miskalo - pmiskalo@mundomissao.com.br
“A África é demasiadamente grande para ser descrita. É um verdadeiro oceano. Um planeta diferente, composto de várias nações, um cosmo múltiplo. Somente por comodidade simplificamos e dizemos ‘África’. Na verdade, a não ser pela denominação geográfica, a África não existe” Ryszard Kapuscinski, jornalista polonês
- “A atual situação é infeliz, triste e frustrante no momento que os quenianos tanto labutavam para construir um país mais seguro, próspero, democrático e pacífico. Mais uma vez ressurgiram conflitos interétnicos, em que membros de tribos rivais se enfrentam com facões, machados e foices. Eles matam, ferem, estupram, destroem e incendeiam casas. Como foi possível acontecer isso, justo aqui?”. Essas palavras poderiam se referir a um bom número de países africanos, vulneráveis aos humores políticos das etnias que os compõem. No caso do Quênia, o ódio ganhou fôlego quando o presidente Mwai Kibaki, da etnia kikuyu, fraudou o resultado das últimas eleições. No leste e nordeste da R.D. Congo, por sua vez, acontece um “genocídio silencioso” interétnico, denunciado pelos bispos do país (cf “Notícias”, pág. 06-09). E o que dizer do surto de cólera que se alastra no Zimbábue, fruto do descaso do governo? O continente é, de fato, um grande mosaico. Um mosaico fragmentado. Cobiça e humilhações A África começou a ser vasculhada por estrangeiros desde o século 15. Desde então, a colonização européia crescia sem traumas, com exceção do tráfico de escravos, durante trezentos anos, quando milhões de negros foram perseguidos, emboscados e negociados por homens brancos, às vezes com a participação de sócios africanos e árabes.
“As marcas mais dolorosas e profundas daquela época permaneceram na lembrança e na consciência dos habitantes da África: - os vários séculos de desprezo, humilhação e sofrimento criaram neles um complexo de inferioridade e, no fundo de cada coração, o sentimento de terem sido injustiçados”. (Ébano - Minha vida na África, R. Kapuscinski) Formalmente, o colonialismo efetivou-se com a Conferência
de Berlim (1884-1885). Seu objetivo era organizar a ocupação
da África por potências coloniais. História, cultura,
relações étnicas e familiares locais foram desrespeitadas.
Em Berlim, participaram 14 países europeus, além dos Estados
Unidos e da Rússia. As demais potências não “contempladas” No início do século 20, apenas a Libéria, habitada por negros emigrados dos EUA, na costa noroeste, e a Abissínia (atual Etiópia), no nordeste, constituíam Estados africanos livres. As mil faces de um continente Saltam à vista, imediatamente, pelo menos duas Áfricas claramente delimitadas: - a África branca, ao norte do Saara, e a África negra, ao sul do imenso deserto. Os países “brancos” têm características físicas, climáticas e humanas como as do Oriente Médio. Foram ocupados, desde o século 6, por árabes, que aí difundiram sua língua, cultura e religião (islã). A porção mais ocidental, magreb (“poente”, em árabe), compreende o Marrocos, a Argélia e a Tunísia. Os demais são Líbia, Egito e Djibuti. Dentre os povos característicos do norte estão os tuaregues e os berberes. A África subsaariana, negra, distribui-se em 48 países. Desnutrição crônica, analfabetismo, endemias e epidemias são problemas sociais comuns em vários países, que também ocupam as últimas colocações no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), feito pela ONU, e na distribuição da renda per capita. Guerras civis e golpes de Estado fazem parte do seu dia-a-dia, sem provocar comoção nos demais continentes. Algumas das inúmeras culturas subsaarianas, conhecidas no Ocidente, são: - ioruba, banto, sonink, ashante. As riquezas do subsolo africano (petróleo, diamante, metais diversos), exploradas por empresas multinacionais, em conluio com governos locais, muitos deles despóticos e populistas, não ajudam a diminuir o sofrimento das etnias, que disputam um lugar ao sol e, quando possível, um brilho político e econômico.
Consequências do desprezo Os ódios tribais no continente têm uma origem histórica comum, com base na pobreza e na corrupção, reconhecidas por todos. Já vimos que os colonizadores asseguraram, em Berlim, a posse dos territórios africanos de acordo com os próprios interesses. E a colagem de nações se deu sem a preocupação de garantir a coesão dos nativos. Os colonizadores não entenderam que os nativos possuíam uma “alma”, um espírito muito mais forte do que qualquer arranjo territorial. Aos Estados nascentes foram atribuídos: - nome, bandeira, hino e uma elite educada no Ocidente, favorável, portanto, à administração colonial. Distante e isolada do povo, a elite falava uma língua européia, adotava uma cultura estrangeira, frustrando e fragmentando as esperanças nascidas na independência. E se locupletava com as riquezas nacionais. Registre-se, entretanto, o exemplo da Tanzânia. Lá, o presidente Julius Nyerere batalhou por um Estado nacional mais coeso, sem se colocar na dianteira da distribuição de renda e de benesses públicas. Mea culpa e a consciência da africanidade Ainda há muita injustiça no continente. Não mais provocada pelo antigo colonizador, mas pelos atuais detentores do poder, das ideologias e do dinheiro. Meninos são arrebanhados para lutar; meninas, para se prostituir em acampamentos guerrilheiros e paramilitares. Nações inteiras fogem de guerrilhas e de carestias; tornaram-se andarilhas, silenciosas, em busca de um porto mais seguro. Apesar das mazelas, a maior parte das etnias procura dar continuidade às suas tradições. Cânticos e danças, às cerimônias fúnebres de culto aos antepassados, ao respeito sagrado ao chefe tribal e à profunda religiosidade enraizada em sua alma. Cheia de sons, cores, ritmos, espontaneidade e espírito de grupo, esta mística ancestral vem sendo, a duras penas, mantida, malgrado a influência deletéria das mídias que avançam em todas as direções. As novas gerações, irrequietas e inseguras, dão-se conta dos próprios valores e tentam conciliar tradição e modernidade. E eis que surge uma nova consciência: - a consciência da africanidade. |
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