Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - África

Senegal,
desafio africano

Quem é?

Abdoulaye Wade (1926) é presidente do Senegal, desde março de 2000. Formado na França, Wade teve uma longa carreira acadêmica até atingir a diretoria da Faculdade de Direito e Economia de Dacar. Sua experiência política começou em 1974, fundando o Partido Democrático Senegalês (PDS), de postura liberal e centrista. O Senegal, que se tornara independente em 1960, teve o poeta e escritor Leopold Senghor, como seu primeiro presidente até 1980. Este entregou o poder a Abdou Diouf, que ficou na presidência até 2000, quando Wade foi eleito, na sua quinta participação em eleições presidenciais. Muçulmano, é também presidente da Coordenação Pan-Africana de Intelectuais. Em 2001, nomeou, pela primeira vez na África, uma mulher para o cargo de Primeiro Ministro: Mame Madior Boye.

Daniele Zappalà entrevista Abdoulaye Wade,
presidente do Senegal, um dos líderes
emergentes dos países em desenvolvimento

D.Z.: Muitos contestam as subvenções à agricultura européia e americana. Como o senhor vê o seu impacto sobre a economia africana?

– Às vésperas do Fórum Econômico Mundial da OMC (Organização Mundial do Comércio), escrevi um artigo para o Le Monde, para protestar contra as subvenções, pois elas dificultam a concorrência e o liberalismo econômico; distorcem as regras do jogo. O meu princípio é “free trade but fair trade” (livre comércio, mas comércio justo). As subvenções têm um duplo efeito negativo: impedem-nos de vender os nossos produtos, como o algodão e o açúcar, nos mercados dos países desenvolvidos. Não podemos fazer concorrência aos produtos subvencionados; além disso, eles chegam até nós e nos fazem concorrência. Isso mata o comércio e a economia africana.

D.Z.: Cancun foi uma derrota para todos?

– O Senegal conduziu os países africanos em Cancun e, na ocasião, eu disse que era melhor não fazer um acordo a fazer um que nos mantivesse enforcados a longo prazo. Desde então, porém, tenho visto progressos porque os europeus estão procurando resolver os problemas do algodão africano, um produto que sustenta 10 milhões de pessoas em cinco países. Na semana passada, o presidente Bush anunciou que retiraria as subvenções. Seria ótimo para nós.

D.Z.: O Senegal promove o NEPAD (vide quadro).
Por que esse ambicioso projeto de desenvolvimento para a África permanece uma estrutura oca?

– É um engano defini-lo assim. Depois de uma longa fase de conferências internacionais que o tornaram conhecido, o NEPAD passa, agora, às ações concretas. Temos recebido importantíssimas ofertas financeiras do Canadá, Japão e da Índia. Na região da África ocidental, a nossa, já foram selecionados projetos viáveis em todos os setores do NEPAD: infraestrutura, educação, saúde, agricultura, novas tecnologias de informação, energia, ambiente, acesso aos mercados dos países desenvolvidos. A União Européia ainda não se pronunciou, mas já existem acordos específicos UE – ACP (União Européia – África+Caribe+Pacífico).

D.Z.: A agricultura será mesmo o setor essencial na economia africana?

– Será o motor do crescimento para nutrir a população, estancar a carestia e levar à transformação e à exportação. Conseguiremos, se tivermos vontade política e se soubermos fixar os objetivos. No Senegal, em um ano, elevamos a produção de 80 para 500 mil toneladas. Logo chegaram pedidos de importação de dez países, entre eles França, África do Sul e China.

D.Z.: Porém, nos âmbitos político e econômico, a África continua em evidência pelos altos índices de corrupção?

– Estamos combatendo. O Senegal está entre os 17 países escolhidos para o “Millenium Challenge Account” (pacto de desenvolvimento entre EUA e as nações comprometidas com a democracia, o fim da corrupção e a prosperidade de seus povos). Empenhei-me na criação de uma comissão nacional de luta contra a corrupção, que tem o direito de investigar em qualquer lugar. É um desafio difícil em todos os níveis, mas, enfim, sabemos onde está a corrupção.

Além disso, propus ao presidente de Burkina Faso a criação de um Instituto para formação em Administração Pública e Governo, com sedes regionais em toda a África, onde ministros e altos funcionários poderão fazer estágios. O PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento = UNDP, em inglês) sustenta a iniciativa porque a considera a chave do desenvolvimento.

“New Partnership for Africa´s Development” (NEPAD)

É um “programa estratégico para o desenvolvimento africano”. Nasceu da missão conferida pela OUA (Organização pela Unidade Africana) a cinco países: Argélia, Egito, Nigéria, Senegal e África do Sul. Seus objetivos são: a luta contra a pobreza, o crescimento e o desenvolvimento, o fim da marginalização do continente e a participação das mulheres.

D.Z.: Como o senhor encara a emigração dos jovens africanos para países como a Itália e França?

– Por princípio, sou contra a emigração, aquela involuntária, de quem não tem trabalho e parte com o coração apertado. Estou procurando fazer com que essas pessoas possam ficar ou retornar à África. Em todas as obras públicas que lançamos, é reservada uma quota de vagas para os emigrantes. Se criarmos as condições para um autêntico crescimento, os jovens poderão retornar. Mas, hoje, sofro também ao ver como a Europa nos “rouba” parte dos nossos “cérebros”, como os que têm uma boa formação em Informática. É por isso que, às vezes, digo brincando que qualquer dia processarei todos os países europeus para que nos reembolsem as despesas com a formação dos nossos jovens.

D.Z.: Que medidas o senhor tomou depois das recentes ameaças de morte feitas aos bispos senegaleses?

– Estamos investigando e já temos algumas pistas. Usaram métodos marxistas, indignos de uma democracia liberal. Acredito que sejam manobras para criar um problema onde não existe. Pessoalmente, tenho excelentes relações com o cardeal Hyacinthe Thiandoum, ex-arcebispo de Dacar. Tenho muitos cristãos ao meu redor, a começar dos ministros. No Senegal, não existem problemas entre cristãos e muçulmanos.

D.Z.: No final de novembro, porém, os bispos falaram de uma deterioração do “clima social e político”. O que o senhor acha?

– Eles têm o direito de falar, mas tenho o direito de não concordar. Eu os encontrei e lhes pedi que interrogassem os cristãos do Senegal. Existe uma estabilidade total em nível social, excluindo-se alguns indivíduos e um pequeno grupo de jornalistas em Dacar, que não têm laços autênticos com o Senegal. A nossa sociedade permanece aberta e, a propósito, gostaria de lhe anunciar uma coisa: decidimos organizar um Congresso Mundial, em Dacar, sobre o tema “diálogo islâmico-cristão”, no final de 2005.

Fonte: Avvenire – 24/01/04

– Republica do Senegal

  • Área: 196.722 km2
  • Capital: Dacar
  • População: 10 milhões de habitantes (2002)
  • Idioma: francês (oficial), línguas regionais
  • Religião: islamismo: 87,6%; crenças tradicionais: 6,2%; cristianismo: 5,5%; sem religião: 0,4%; bahaísmo 0,2% (2000)
  • Economia: baseada na agricultura, pesca e produtos petrolíferos
  • Renda per capita: média de 490 dólares
  • Expectativa de vida: 51 anos para homens e 55 anos para mulheres

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