Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - África
Senegal,
Daniele
Zappalà entrevista Abdoulaye Wade, D.Z.: Muitos contestam as subvenções à agricultura européia e americana. Como o senhor vê o seu impacto sobre a economia africana? – Às vésperas do Fórum Econômico Mundial da OMC (Organização Mundial do Comércio), escrevi um artigo para o Le Monde, para protestar contra as subvenções, pois elas dificultam a concorrência e o liberalismo econômico; distorcem as regras do jogo. O meu princípio é “free trade but fair trade” (livre comércio, mas comércio justo). As subvenções têm um duplo efeito negativo: impedem-nos de vender os nossos produtos, como o algodão e o açúcar, nos mercados dos países desenvolvidos. Não podemos fazer concorrência aos produtos subvencionados; além disso, eles chegam até nós e nos fazem concorrência. Isso mata o comércio e a economia africana. D.Z.: Cancun foi uma derrota para todos? – O Senegal conduziu os países africanos em Cancun e, na ocasião, eu disse que era melhor não fazer um acordo a fazer um que nos mantivesse enforcados a longo prazo. Desde então, porém, tenho visto progressos porque os europeus estão procurando resolver os problemas do algodão africano, um produto que sustenta 10 milhões de pessoas em cinco países. Na semana passada, o presidente Bush anunciou que retiraria as subvenções. Seria ótimo para nós. D.Z.: O Senegal promove o NEPAD (vide quadro). – É um engano defini-lo assim. Depois de uma longa fase de conferências internacionais que o tornaram conhecido, o NEPAD passa, agora, às ações concretas. Temos recebido importantíssimas ofertas financeiras do Canadá, Japão e da Índia. Na região da África ocidental, a nossa, já foram selecionados projetos viáveis em todos os setores do NEPAD: infraestrutura, educação, saúde, agricultura, novas tecnologias de informação, energia, ambiente, acesso aos mercados dos países desenvolvidos. A União Européia ainda não se pronunciou, mas já existem acordos específicos UE – ACP (União Européia – África+Caribe+Pacífico). D.Z.: A agricultura será mesmo o setor essencial na economia africana? – Será o motor do crescimento para nutrir a população, estancar a carestia e levar à transformação e à exportação. Conseguiremos, se tivermos vontade política e se soubermos fixar os objetivos. No Senegal, em um ano, elevamos a produção de 80 para 500 mil toneladas. Logo chegaram pedidos de importação de dez países, entre eles França, África do Sul e China. D.Z.: Porém, nos âmbitos político e econômico, a África continua em evidência pelos altos índices de corrupção? – Estamos combatendo. O Senegal está entre os 17 países escolhidos para o “Millenium Challenge Account” (pacto de desenvolvimento entre EUA e as nações comprometidas com a democracia, o fim da corrupção e a prosperidade de seus povos). Empenhei-me na criação de uma comissão nacional de luta contra a corrupção, que tem o direito de investigar em qualquer lugar. É um desafio difícil em todos os níveis, mas, enfim, sabemos onde está a corrupção. Além disso, propus ao presidente de Burkina Faso a criação de um Instituto para formação em Administração Pública e Governo, com sedes regionais em toda a África, onde ministros e altos funcionários poderão fazer estágios. O PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento = UNDP, em inglês) sustenta a iniciativa porque a considera a chave do desenvolvimento.
D.Z.: Como o senhor encara a emigração dos jovens africanos para países como a Itália e França? – Por princípio, sou contra a emigração, aquela involuntária, de quem não tem trabalho e parte com o coração apertado. Estou procurando fazer com que essas pessoas possam ficar ou retornar à África. Em todas as obras públicas que lançamos, é reservada uma quota de vagas para os emigrantes. Se criarmos as condições para um autêntico crescimento, os jovens poderão retornar. Mas, hoje, sofro também ao ver como a Europa nos “rouba” parte dos nossos “cérebros”, como os que têm uma boa formação em Informática. É por isso que, às vezes, digo brincando que qualquer dia processarei todos os países europeus para que nos reembolsem as despesas com a formação dos nossos jovens. D.Z.: Que medidas o senhor tomou depois das recentes ameaças de morte feitas aos bispos senegaleses? – Estamos investigando e já temos algumas pistas. Usaram métodos marxistas, indignos de uma democracia liberal. Acredito que sejam manobras para criar um problema onde não existe. Pessoalmente, tenho excelentes relações com o cardeal Hyacinthe Thiandoum, ex-arcebispo de Dacar. Tenho muitos cristãos ao meu redor, a começar dos ministros. No Senegal, não existem problemas entre cristãos e muçulmanos. D.Z.: No final de novembro, porém, os bispos falaram de uma deterioração do “clima social e político”. O que o senhor acha? – Eles têm o direito de falar, mas tenho o direito de não concordar. Eu os encontrei e lhes pedi que interrogassem os cristãos do Senegal. Existe uma estabilidade total em nível social, excluindo-se alguns indivíduos e um pequeno grupo de jornalistas em Dacar, que não têm laços autênticos com o Senegal. A nossa sociedade permanece aberta e, a propósito, gostaria de lhe anunciar uma coisa: decidimos organizar um Congresso Mundial, em Dacar, sobre o tema “diálogo islâmico-cristão”, no final de 2005. Fonte: Avvenire – 24/01/04 – Republica do Senegal
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