Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - África

 


Estado miserável das aldeias etíopes

Etiópia: um país de contrastes

por Pedro Miskalo

Traços Históricos

Rota comercial e cultural entre o Nilo e a Arábia, (separados pelo Mar Vermelho), a Abissínia, área hoje ocupada pela Etiópia e Eritréia, conheceu no passado uma civilização rica e florescente, conhecida como Império de Axum. Segundo a tradição, a monarquia etíope foi fundada no ano 1.000 a.C. por Menelik I, filho do rei Salomão e da rainha de Sabá. Em 1890, a região da Eritréia torna-se possessão italiana. Em 1930, Ras Tafari assume o trono etíope com o nome de Hailé Selassié (“o poder da Trindade”). Em 1936, o soberano enfrenta a invasão fascista, que vigora até 1941. A Eritréia é re-agregada à coroa etíope em 1952, mas os guerrilheiros eritreus não deram trégua ao governo de Adis-Abeba, até obter sua independência, como se verá adiante.

O golpe militar de 1974, liderado por Aman Andom, depõe Selassié e proclama a República Democrática da Etiópia. O último imperador morre na prisão no ano seguinte. Em 1976, Mengistu Hailé Mariam toma o poder, nacionaliza empresas, promove a reforma agrária e se achega à União Soviética. Entre 1977 e 1978, 10 mil opositores de duas províncias (Eritréia e Tigre) são assassinados. A independência da Eritréia, em 1993, afasta os etíopes do estratégico Mar Vermelho. A guerra entre os dois países, de 1998 a 2000, deixa mais de 120 mil mortos, prejudica a economia e agrava mais ainda as condições de vida do povo, ampliando o flagelo da fome.

Uma índole de resistência

A Etiópia e a Libéria foram as duas únicas nações africanas que resistiram ao colonialismo europeu nos séculos anteriores. A dominação européia da Etiópia ficou limitada ao curto período da ocupação italiana, entre 1936 e 1941. O cristianismo tem longa tradição na região. Ele desceu no Egito, com os coptas, ainda no século 4, para se tornar religião predominante até a atualidade. Dos 70,7 milhões de habitantes (2003) que compõem o mosaico étnico-cultural etíope, 57,7% são cristãos. Destes, 36,5% são ortodoxos e 13,6%, protestantes.

A cultura cristã dos seus soberanos impôs uma histórica resistência, através de constantes guerras, na salvaguarda dos altiplanos centrais contra o avanço do Islã desde o século VII. Hoje, a presença muçulmana chega a 30,4% da população total. Dois terços dos altiplanos são férteis, onde predominam cereais e café, além da criação de bovinos; no entanto, as lutas contra invasores e separatistas, o avanço do deserto de Ogaden, a exploração predatória das florestas montanhosas do reino Kaffa, o berço do café, no sudoeste do país, e as secas periódicas que assolam a região, minaram a frágil economia agrária etíope.

Convivendo com a fome

Localizada no chamado Chifre da África, a maior parte do território etíope está acima dos 2.000 metros de altitude. Adis-Abeba, a 2.408 metros acima do nível do mar, é a mais elevada capital africana. Dalol, na depressão de Denakil, tem a mais alta temperatura média do planeta: 30.º C. O clima árido tropical, as secas periódicas e as opções políticas dos governantes transformaram o país – já debilitado economicamente- em um dos mais miseráveis do planeta. A economia se baseia na agricultura, à qual se dedicam 85% da população. A renda anual per capita é de 97 dólares e estima-se que 2/3 dos etíopes sejam analfabetos. Atualmente, mais de 55% da população está abaixo da linha da pobreza, de acordo com o Programa da Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Metade da sua população – que é a terceira maior da África – padece de subnutrição crônica.

Risco de carestia e êxodo forçado

O nível de rios e lagos está baixando tanto que o espectro da fome já se aproxima de novo, como em 1973, quando 250.000 etíopes morreram de inanição. Hoje, 8 milhões de etíopes sobrevivem exclusivamente da assistência de organismos internacionais. Eles fogem para as cidades, sobretudo no sul e na província de Onomo, com 30 milhões de habitantes. O governo do Primeiro Ministro Melles Zanewi, no poder desde 1995, incentiva a lavoura como saída para o desenvolvimento, contrastando com o pedido do americano Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, que chamou a atenção das autoridades locais para o setor industrial e de infra-estrutura.

Para derrotar o pesadelo da fome, o governo criou, recentemente, um plano trienal de transferência da população em situação de risco, para terras férteis. Orçado em 220 milhões de dólares, o plano é financiado, em boa parte, pelo Banco Mundial. Por enquanto, 400 mil etíopes já foram obrigados a abandonar suas casas. “O problema – explica Desalegh Rahmato, presidente do Fórum de Estudos Sociais – é que nossas áreas cultiváveis estão diminuindo. O país não dispõe de áreas suficientes para garantir vida digna a todos os que vivem na zona rural”. Enquanto isso, as periferias de Adis-Abeba e de outras grandes cidades se enchem de retirantes pobres, em suas natelas (vestes) típicas, em busca de esmola ou de trabalho.

Dia e noite fervilha um exército de 600 mil jovens andarilhos. São os meninos de rua, engraxates ou carregadores que, quanto muito, levam para casa algumas moedas, suficientes apenas para um pedaço de injera, um pão de cereais, comum em toda a Etiópia. Além da pobreza, para o futuro se desenha um quadro de doenças, como a aids, a tuberculose e a malária. Essas endemias detêm a esperança de vida média em 44 anos. “Somos um país de contradição – observa Ruphael Yohannes, diretor do Addis Tribune, o primeiro semanário privado etíope –, porque temos muitos recursos, mas não conseguimos chegar a um crescimento suficiente para dominar a pobreza”.

Uma saída para crise

Este país faminto, que desenterrou para o mundo o hominídeo Lucy e ofereceu a todos o sabor do café, tem também a oferecer o fascinante universo de sua cultura milenar. A indústria do turismo pode se tornar um estímulo para o desenvolvimento e possível fator de progresso: desde os obeliscos de Aksum aos monumentos da região de Condar, a Camelot da África, com seus castelos seiscentistas. E, mais ainda, “a oitava maravilha do mundo”, as onze igrejas rupestres de Lalibela, esculpidas no século XII “pelos anjos”, segundo a lenda. Finalmente, o país oferece a diversidade de vida e a beleza do Parque Nacional Simen, a depressão do rio Awash, as estrelas gravadas de Tiya, o sítio arqueológico de Aksum, o Vale do rio Omo, entre outros paraísos turísticos.

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