Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - África
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Atrás disso, um olhar menos distraído percebe que as causas de todos estes males da África são a posse das abundantes riquezas naturais (ouro, diamantes, petróleo), que interessam tanto aos novos ditadores africanos como às grandes potências ocidentais. As guerras e todas as suas mais terríveis conseqüências derivam dessa avidez em participar na divisão do grande bolo ainda inexplorado. Dá para entender por que as forças internacionais intervêm em alguns lugares e não em outros, ou somente quando a opinião pública denuncia esse descaso que custa milhões de mortes e extensas áreas de terra queimada. Os fatos se repetem, como cópias xerográficas, em todos os lugares: no Sudão, no Congo, na Costa do Marfim, na Libéria, em Uganda, em Ruanda e no Burundi. Sudão: sharia a serviço do petróleo O Sudão se estende numa superfície de 2,5 milhões de km2, e possui cerca de 28 milhões de habitantes, divididos em 600 grupos étnicos que falam mais de 100 línguas. O norte do país, independente desde 1965, é muçulmano, o sul é cristão e animista. Em termos de clima, o Sudão é desértico ao norte, mas tem savanas e florestas tropicais ao sul; freqüentemente sofre com fortes carestias e 3,2 milhões de pessoas no sul dependem das ajudas humanitárias internacionais. Devido ao constante clima de guerra e pilhagem por soldados do norte, praticamente não existe uma vida normal nem assistência escolar e médica (há apenas 4 médicos, 2 dentistas e 4 oftalmologista para três milhões de moradores, conforme denúncia da Ong, AMREF - Fundação africana para pesquisas médicas). Os direitos negados Em 1983, o governo islâmico de Cartum impôs a todo o Sudão a lei da sharia, que foi o motivo da revolta do sul contra o governo central, assumida pelo Spla - Armada de Libertação Popular do Sudão, de John Garang. A guerra civil foi e é particularmente feroz contra a população do sul, cristã e animista, que sofre com a destruição das aldeias, massacres, estupros, escravidão de crianças e de jovens. Para o presidente Omar el Bashir, trata-se de uma guerra santa islâmica contra os não-islamizados. Em vinte anos, somam-se 2,5 milhões de mortos e 4 milhões de prófugos refugiados na Etiópia, em Uganda e na Eritréia. Como também esses países vivem em guerra, os refugiados não conseguem encontrar um lugar de paz. A nova Constituição de 1999 previa a liberdade religiosa, mas o governo de Cartum continua considerando o islã a única religião do Estado e nele se inspira para a sua política, obrigando os cristãos e os animistas a seguirem os ditames islâmicos.
Os bispos sudaneses reclamam, em vão, que a nova constituição, prevista nos acordos de Machako, garantiria liberdade religiosa e respeito a todas as religiões. Em 1995, houve uma tentativa de diálogo entre os responsáveis do governo e da Igreja, para que esta fosse reconhecida não somente como uma Ong, mas uma entidade religiosa legítima no país. A resposta do governo ainda não veio; enquanto isso, a situação dos cristãos, em particular, e dos não islâmicos, em geral, permanece sempre crítica e parcial. Continuam as incursões no sul e estas acontecem, sobretudo, nas regiões ricas de petróleo, de onde, desde 2000, foram expulsas mais de 700 mil pessoas, na maioria cristãs. A coincidência é, pelo menos, suspeita. No norte do Sudão, as autoridades continuam obstruindo toda e qualquer atividade religiosa dos cristãos, proibindo a entrada dos missionários, negando a permissão de construir escolas e igrejas. Dramática, pelas denúncias dos bispos e das Ongs humanitárias, é a situação dos prófugos do sul, amontoados em campos no deserto, nos arredores de Cartum. A Igreja está proibida de levar-lhes qualquer ajuda física e moral, e, se os prófugos quiserem sair dos campos, devem mudar de nome e se converter ao islã. Se um muçulmano quisesse se converter ao cristianismo, seu gesto, pela lei da sharia, significaria trair Alá e a própria família e, portanto, pode ser punido com a morte. Os cristãos vivem momentos dificílimos, mas, apesar dessas abertas violações dos direitos humanos, a Igreja de Cartum registra, em média, o batismo de 4500 novos cristãos por ano, provenientes especialmente do sul. Uma esperança de trégua? Desde o mês de abril, estão se encontrando o presidente Omar el Bashir e John Garang, para confirmar acordos e compromissos esboçados em julho 2002, em Machako, no Quênia. Os primeiros compromissos - ainda longe de serem aplicados - seriam: um acordo de trégua entre os dois exércitos; seis anos de transição, com administrações separadas do norte e do sul, monitoradas pela comunidade internacional; um referendo para a autodeterminação do sul. Além dessas questões políticas, continuam as questões mais concretas, como a divisão dos proventos do petróleo que é extraído no sul, mas acaba integralmente nas mãos do governo de Cartum. O Sudão produz 325 mil barris/dia de petróleo que é exportado para vários países, totalizando 40% da exportação global. O petróleo é, assim, um dos nós decisivos no conflito entre o norte e o sul, sobre o qual se estratificam elementos religiosos e raciais, herança colonial e cobiça do poder e da riqueza. Outra incógnita para a paz é a questão religiosa que atinge mais diretamente a pele dos cristãos e animistas do sul. A Constituição atual, totalmente islâmica, é recusada pelo sul, que quer um país secularizado e leigo. Por causa dessa constituição confessional, o exército tornou-se um defensor das práticas religiosas islâmicas, enquanto os que não as praticam são, automatica-mente, traidores. Os contrastes entre as duas parte são enormes e de difícil solução, também pelo fato de que o norte, apesar do diálogo aparente, continua com suas incursões no sul e combates contra o Spla. As loucuras que destroem Uganda Entre as nações que se formaram após a Segunda Guerra Mundial, Uganda parece ter uma sina de ser o país que mais sofreu pela loucura dos seus presidentes e generais. Todos lembram os exageros e até os atos de canibalismo do general Id Amim Dada, morto em agosto, que chegou ao poder por um golpe de estado em 1971, declarando-se, dois anos depois, presidente- ditador vitalício. Foi deposto e exilado em 1979. Durante sua ditadura sanguinária, causou a morte de 300 mil opositores ao regime. Hoje, outro comandante louco e fanático está destruindo o norte de Uganda. Joseph Kony, um visionário, constituiu um grupo antigovernamental chamado Exército da Resistência do Senhor (Lra - Lord's Resistance Army), com cerca de 4500 guerrilheiros, e ameaça mais de 3 milhões de moradores das províncias do norte de Uganda, aos confins do Sudão. Parece que sua loucura seja um mal de família porque sua prima, Alice Lakwena, líder de uma facção de guerrilheiros chamada Exército do Espírito Santo, foi aniquilada pelo exército oficial em 1988. Alguns observadores, que tiveram contato com Joseph, falam de um indivíduo com profundos desequilíbrios mentais, mas que consegue dominar e quase hipnotizar milhares de fanáticos assassinos. Matem todos O comandante Joseph Kony, o visionário louco de 40 anos, que se diz inspirado por Deus para implantar um governo inspirado no Decálogo do Antigo Testamento, é de uma crueldade extrema contra os tribais: seqüestra crianças e as sobreviventes são forçadas a se tornarem soldados tão cruéis e sanguinários como o comandante. Desde que existe o Lra, já teriam sido seqüestradas mais de 20 mil crianças, das quais sobreviveriam não mais de 3 a 4 mil. No exército existem adultos, mas também meninos e meninas, forçados a participar dessa tropa de assassinos loucos. Parece que os seminaristas seqüestrados em 11 de maio já estariam incorporados nas fileiras do exército.
As populações locais do norte de Uganda, da etnia achol, desprotegidas e aterrorizadas pelo exército regular, vivem em aldeias indefesas e tentam se refugiar nas missões católicas, alvos preferidos do Exército do Senhor. Mais de 11 missionários combonianos e uma religiosa foram mortos em emboscadas nesses últimos anos. Recentemente, a loucura do comandante visionário distribuiu, via rádio, uma massagem, captada pelas missões locais, em que ordena a seus subalternos que destruam as estruturas missionárias, queimando-as e matando todos os missionários. Os ataques dos guerrilheiros Divididos em grupos de centenas de milicianos, na maioria adolescentes e crianças, atacam à noite, matando com requinte de crueldade as vítimas que não conseguiram escapar, seqüestrando crianças que, como contaram algumas que conseguiram fugir após seu seqüestro, são obrigadas a matar seus pais e outras pessoas com sevícias brutais e forçadas a comer carne humana. Esse procedimento, além de abrutalhar as crianças, as torna temerosas de serem presas pelo exército regular e condenadas pelos crimes, razão pela qual se ligam cada vez mais ao exército fanático numa espiral que não lhes permite saída alguma. Após o seqüestro e o treinamento na floresta, passam por um ritual de unção - wiro ki moo - que os tornaria com o 'corpo fechado' às balas dos adversários. No treinamento, muitas vezes, são drogados para demonstrar sua coragem em provas de atrocidades contra eventuais prisioneiros. O governo central não consegue acabar com esse movimento porque dispõe de poucos soldados num território imenso. As autoridades políticas e religiosas clamam por uma ajuda militar internacional para pôr fim a esse desmando. O arcebispo de Gulu, dom John Baptist Odama, declara que a situação é insustentável em todas as regiões do norte, que as missões católicas, as únicas que dão algum amparo ao povo, estão indefesas e se tornaram alvos fáceis dos guerrilheiros. Ele sublinha que esses atos de selvageria não podem ser configurados como uma guerra de religião, embora os rebeldes se comportem como exaltados por um ideal fundamentalista, e pede a intervenção militar da Onu para evitar que a população seja dizimada. |
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