Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - África
Líbia: por Hélio Pedroso
Com a abertura econômica, houve uma retomada diplomática com outros países, entre os quais o Vaticano, aliviando as restrições que caíam sobre a Igreja católica. Abriram-se novas perspectivas e muitas oportunidades de empregos; há uma febre de construção de edifícios públicos modernos que serão as futuras sedes de bancos e sociedades petrolíferas. O bispo de Trípoli, dom João Martinelli, resume toda essa agitação, esse fervor e anseio de progresso, numa frase: “O povo quer virar a página da sua história”. A IGREJA NA LÍBIA Dom João Martinelli nasceu na Líbia, numa família de imigrantes italianos, e foi, em parte, o protagonista dessa abertura mundial e da reaproximação da Líbia com o Vaticano. Mesmo tendo sido preso por alguns dias, quando o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, ordenou um bombardeio da capital Trípoli, fato que provocou a ira e a reação de Kadafi, dom Martinelli sempre acreditou na possibilidade de uma reconciliação entre Igreja e autoridade líbica. Foram anos difíceis, sem dúvida, porque Kadafi, ao tomar o poder em 1966, fechou as bases militares americanas e inglesas, expulsou toda a comunidade italiana de 20 mil pessoas, seqüestrando-lhes todos os bens, assim como religiosos e religiosas, confiscou casas e prédios, transformou igrejas em mesquitas. A revolução de Kadafi queria romper definitivamente com o passado colonialista e tudo o que não era islâmico ou líbico era identificado como símbolo do poder colonial. Por causa disso, o país parou. Apesar, porém, dessa intransigência, anos depois, as autoridades líbicas entenderam o papel social da Igreja na diplomacia mundial e, em 1997, retomaram as relações diplomáticas com o Vaticano, permitindo a presença de sacerdotes e freiras. Dom João Martinelli foi reconhecido como bispo responsável da Igreja católica líbica que estava renascendo, e se transformou na voz extra-oficial da ligação entre o governo líbio e o Ocidente, via Vaticano. O embargo piorou o isolamento do Kadafi que se jogou na difusão do islã na África, criando escolas e universidades corânicas, tornando-se líder e benfeitor de países subsaarianos pobres, mas também castigando o seu povo com mais pobreza e muito rancor contra o Ocidente. Agora, após a abertura, a Líbia está renascendo como potência internacional. UMA IGREJA DIFERENTE Na Líbia, há cerca de 50 mil católicos, todos estrangeiros, imigrantes de vários países, especialmente do Extremo Oriente e da África negra. Há poucos europeus, geralmente executivos de multinacionais em trânsito. Os imigrantes afro-asiáticos trabalham como mão-de-obra barata ou ficam aguardando nas ruas e nas praças que alguém os chame para trabalhar. A Igreja católica torna-se um ponto de referência e de apoio para essas pessoas marginalizadas.
As dioceses são duas, com cerca de quinze sacerdotes e umas centenas de religiosas que atuam nos hospitais, nos centros para a infância, nas obras sociais e ganham cada vez mais a confiança da população. O dia sagrado para a comunidade islâmica é a sexta-feira e os católicos adequaram-se à essa tradição. Toda sexta-feira, de manhã, a pequena comunidade de Trípoli encontra-se na igreja de São Francisco de Assis, para participar da celebração da missa num verdadeiro grupo mundial: filipinos, indianos, paquistaneses, sudaneses e outros. Diz o bispo que “este encontro é como uma grande reunião de família, um sinal de fraternidade entre todos os participantes. Foi escolhida a sexta-feira, para rezarmos com os muçulmanos no dia deles e nos redescobrirmos cada vez mais perto uns dos outros. A Líbia, hoje, precisa de um diálogo aberto, direto e sincero”. UM PAÍS ONDE O ISLÃ É TOLERANTE Muitas casas têm antenas parabólicas com as quais os líbios podem receber transmissões via satélite de outros países. Os jovens podem ouvir e dançar os últimos ritmos americanos, vestem jeans e roupas esportivas e as moças usam um véu leve para cobrir a cabeça, mas usam também saias coloridas e modernas. Somente as mulheres mais idosas usam a furushiya, um manto, geralmente branco, que esconde todo o corpo, deixando somente as aberturas para os olhos. O islã é a religião do Estado, fundamento da organização jurídica do país. O povo tem um espírito pacífico, aberto e tolerante em relação aos fiéis de outras religiões, demonstrando uma hospitalidade que lembra a antiga tradição beduína do deserto. A LUTA NOS BASTIDORES
A Líbia, até o advento de Muammar Kadafi, tinha sido ocupada pela Itália e, após a guerra 1940/45, retornou ao poder do legítimo rei Idris. Havia liberdade de praticar todas as religiões, seja o islã como o cristianismo. Quando, aos 27 anos, Kadafi, com um golpe militar, apoderou-se do governo, iniciando uma ditadura, embora acérrimo inimigo do Ocidente e devoto fiel do islã, não permitiu que o fundamentalismo islâmico, que já devastava os países vizinhos como a Argélia e o Egito, entrasse na Líbia. Contra os fundamentalistas, Kadafi conduziu uma luta dura e cruenta. Aprisionou, perseguiu e fez desaparecer muitos fundamentalistas, redimensionou o poder dos Ulemas, os mestres do Alcorão que tentavam agregar ao seu redor as forças radicais do islã. Atacou rebeldes fundamentalistas aninhados na Cirenáica. Apesar dos anos de repressão, o movimento islâmico está se reforçando. Estão arrebanhando, em grupos clandestinos, muitos jovens universitários e já existem mesquitas em poder desses fundamentalistas que são fonte de agitação. Até hoje, o exército mantém a neutralidade, mas não é de se descartar que possa se juntar aos fundamentalistas numa linha anti-Kadafi. |
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