Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - África

 

Líbia:
o degelo de um país

por Hélio Pedroso

queda-de-braço entre a Líbia, detentora de enormes reservas de petróleo, e o Ocidente que, após o atentado de Lockerbie, em dezembro de 1988, com um saldo de 270 mortos, terminou meses atrás dando fim às sanções econômicas americanas, que provocaram enormes sacrifícios ao povo, mas não conseguiram dobrar o ditador Muammar Kadafi. O petróleo era uma reserva não somente para a Líbia sobreviver durante o embargo, mas financiou também um expansionismo islâmico em muitos países africanos.

Com a abertura econômica, houve uma retomada diplomática com outros países, entre os quais o Vaticano, aliviando as restrições que caíam sobre a Igreja católica. Abriram-se novas perspectivas e muitas oportunidades de empregos; há uma febre de construção de edifícios públicos modernos que serão as futuras sedes de bancos e sociedades petrolíferas. O bispo de Trípoli, dom João Martinelli, resume toda essa agitação, esse fervor e anseio de progresso, numa frase: “O povo quer virar a página da sua história”.

A IGREJA NA LÍBIA

Dom João Martinelli nasceu na Líbia, numa família de imigrantes italianos, e foi, em parte, o protagonista dessa abertura mundial e da reaproximação da Líbia com o Vaticano. Mesmo tendo sido preso por alguns dias, quando o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, ordenou um bombardeio da capital Trípoli, fato que provocou a ira e a reação de Kadafi, dom Martinelli sempre acreditou na possibilidade de uma reconciliação entre Igreja e autoridade líbica.

Foram anos difíceis, sem dúvida, porque Kadafi, ao tomar o poder em 1966, fechou as bases militares americanas e inglesas, expulsou toda a comunidade italiana de 20 mil pessoas, seqüestrando-lhes todos os bens, assim como religiosos e religiosas, confiscou casas e prédios, transformou igrejas em mesquitas. A revolução de Kadafi queria romper definitivamente com o passado colonialista e tudo o que não era islâmico ou líbico era identificado como símbolo do poder colonial. Por causa disso, o país parou.

Apesar, porém, dessa intransigência, anos depois, as autoridades líbicas entenderam o papel social da Igreja na diplomacia mundial e, em 1997, retomaram as relações diplomáticas com o Vaticano, permitindo a presença de sacerdotes e freiras. Dom João Martinelli foi reconhecido como bispo responsável da Igreja católica líbica que estava renascendo, e se transformou na voz extra-oficial da ligação entre o governo líbio e o Ocidente, via Vaticano.

O embargo piorou o isolamento do Kadafi que se jogou na difusão do islã na África, criando escolas e universidades corânicas, tornando-se líder e benfeitor de países subsaarianos pobres, mas também castigando o seu povo com mais pobreza e muito rancor contra o Ocidente. Agora, após a abertura, a Líbia está renascendo como potência internacional.

UMA IGREJA DIFERENTE

Na Líbia, há cerca de 50 mil católicos, todos estrangeiros, imigrantes de vários países, especialmente do Extremo Oriente e da África negra. Há poucos europeus, geralmente executivos de multinacionais em trânsito. Os imigrantes afro-asiáticos trabalham como mão-de-obra barata ou ficam aguardando nas ruas e nas praças que alguém os chame para trabalhar. A Igreja católica torna-se um ponto de referência e de apoio para essas pessoas marginalizadas.


Muammar Kadafi

Líbia

  • Superfície: 1.775.500 km2
  • Capital: Trípoli (administrativa)
    e Surt (executiva e legislativa)
  • População: 5,5 milhões
  • Língua: Árabe (oficial)
  • Religião: islamismo 96,18%, outras 3,5%, sem religião 0,32%

As dioceses são duas, com cerca de quinze sacerdotes e umas centenas de religiosas que atuam nos hospitais, nos centros para a infância, nas obras sociais e ganham cada vez mais a confiança da população. O dia sagrado para a comunidade islâmica é a sexta-feira e os católicos adequaram-se à essa tradição. Toda sexta-feira, de manhã, a pequena comunidade de Trípoli encontra-se na igreja de São Francisco de Assis, para participar da celebração da missa num verdadeiro grupo mundial: filipinos, indianos, paquistaneses, sudaneses e outros.

Diz o bispo que “este encontro é como uma grande reunião de família, um sinal de fraternidade entre todos os participantes. Foi escolhida a sexta-feira, para rezarmos com os muçulmanos no dia deles e nos redescobrirmos cada vez mais perto uns dos outros. A Líbia, hoje, precisa de um diálogo aberto, direto e sincero”.

UM PAÍS ONDE O ISLÃ É TOLERANTE

Muitas casas têm antenas parabólicas com as quais os líbios podem receber transmissões via satélite de outros países. Os jovens podem ouvir e dançar os últimos ritmos americanos, vestem jeans e roupas esportivas e as moças usam um véu leve para cobrir a cabeça, mas usam também saias coloridas e modernas. Somente as mulheres mais idosas usam a furushiya, um manto, geralmente branco, que esconde todo o corpo, deixando somente as aberturas para os olhos.

O islã é a religião do Estado, fundamento da organização jurídica do país. O povo tem um espírito pacífico, aberto e tolerante em relação aos fiéis de outras religiões, demonstrando uma hospitalidade que lembra a antiga tradição beduína do deserto.

A LUTA NOS BASTIDORES


Ex-catedral de Tripoli, hoje transformada num
centro cultural islâmico

A Líbia, até o advento de Muammar Kadafi, tinha sido ocupada pela Itália e, após a guerra 1940/45, retornou ao poder do legítimo rei Idris. Havia liberdade de praticar todas as religiões, seja o islã como o cristianismo. Quando, aos 27 anos, Kadafi, com um golpe militar, apoderou-se do governo, iniciando uma ditadura, embora acérrimo inimigo do Ocidente e devoto fiel do islã, não permitiu que o fundamentalismo islâmico, que já devastava os países vizinhos como a Argélia e o Egito, entrasse na Líbia.

Contra os fundamentalistas, Kadafi conduziu uma luta dura e cruenta. Aprisionou, perseguiu e fez desaparecer muitos fundamentalistas, redimensionou o poder dos Ulemas, os mestres do Alcorão que tentavam agregar ao seu redor as forças radicais do islã. Atacou rebeldes fundamentalistas aninhados na Cirenáica. Apesar dos anos de repressão, o movimento islâmico está se reforçando.

Estão arrebanhando, em grupos clandestinos, muitos jovens universitários e já existem mesquitas em poder desses fundamentalistas que são fonte de agitação. Até hoje, o exército mantém a neutralidade, mas não é de se descartar que possa se juntar aos fundamentalistas numa linha anti-Kadafi.

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