Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - África

arrocos ocupa uma estreita faixa do litoral noroeste da África. As costas, ao norte, recebem clima e águas mediterrâneas. Mas a maior parte do litoral, incluindo a área da capital Rabat, é banhada pelo Atlântico. Através de Gibraltar, o país se aproxima da Europa e divide com a Espanha a passagem para o Atlântico, principal rota de comércio marítimo internacional desde o século 16. Por ter a maior parte do litoral banhada pelas águas do Atlântico, sua cultura e religião assumem características bastante diferentes, em vários aspectos, do mundo árabe oriental, o que lhe permitiu permanecer sempre à margem da influência otomana.

Muitas civilizações deixaram rastros de natureza étnica, religiosa e lingüística no seu território. Com as mudanças climáticas ocorridas no norte do continente, os primeiros habitantes da região, que eram negros, migraram para a área sul-saariana. Atualmente o Saara e a região norte-africana são habitadas pelos berberes e tuaregs de raça branca. Os berberes aceitaram o Islã entre os séculos 8 e 9, mas “climatizaram” Maomé ao espírito mais independente do povo. Este ramo islamita, conhecido por jareyismo, é o menor dentro do Islã e ainda conserva muitos ritos da tradicional religião berbere.

O ESTADO MARROQUINO E AS TENDÊNCIAS POLÍTICAS

Desde a criação da monarquia marroquina, as várias dinastias berberes (três) e árabes (quatro) impulsionaram a unificação religiosa do país, estabeleceram relações de comércio, fundaram cidades e desenvolveram a economia, sem perder sua identidade religiosa. Os mandatários souberam conservar a autonomia cultural e a estrutura política independentes, em nome do reino. Única na civilização islâmica, a autonomia foi possível porque as dinastias sucediam-se sem deixar “vazios” religiosos e o rei sempre foi o natural defensor dos fiéis. No Marrocos, o conceito legal de Estado (Majzén), instituído na dinastia almorávide (1010-1160), e ainda em vigor, atribui um papel fundamental ao soberano, que dirige ministérios e assuntos religiosos.

O islamismo não comporta sacerdotes no sentido cristão, apenas guias espirituais, iniciados na lei do Profeta. Não existe a instituição religiosa separada do mundo leigo, com organização e administração próprias. A autoridade islâmica não separa o profano do sagrado. Mas não há um pensamento monolítico a respeito do Alcorão. Existem tendências diferentes sobre a leitura corânica: sunitas, xiitas, wahabitas, khareghitas, drusas, hanifitas, ibaditas, ismaelitas, sefardins, etc. Cada uma delas coloca a Lei e o Profeta sob seu manto e, assim, alimenta rivalidades que, não raro, se transformam em conflitos sangrentos.

Elas também dividem, hoje, o Marrocos. A majoritária vertente tradicional, dividida em três grandes partidos, assistiu ao recente avanço fundamentalista wahabí, proveniente da Arábia Saudita na década de 1970. A nova corrente considera ímpios os seguidores dos partidos islamitas tradicionais no Marrocos. Outros grupos menores, radicais, não freqüentam as mesquitas, argumentando que elas representam o Estado, cujas estruturas eles querem destruir. Um deles praticou o atentado em Casablanca, em maio de 2003, vitimando dezenas de orantes.

OBSTÁCULOS NA VIA POLÍTICA DO REI

Universitários e jovens empobrecidos das periferias nas cidades têm aderido ao Islã e expandido o Alcorão nos últimos anos. Seus fundamentalistas ameaçam o governo com dois explosivos: a insegurança econômica da juventude e a distância entre ricos e pobres, que não pára de aumentar. Todos querem uma sociedade mais justa e igualitária. E confiam nas reformas sociais prometidas pelo rei Mohammed VI, ao receber o trono em 1999. Mas os anos passam e elas não se efetivam.

Assim, o país se volta para propostas conservadoras: a concepção tradicional do papel da mulher, através da qual se deseja islamizar cada vez mais a família e a sociedade; a oposição à linha política adotada pelo governo; o distanciamento em relação à cultura ocidental. Como os antecessores, Mohammed VI vive a difícil experiência de demonstrar ao povo que é possível mudar algumas tradições muçulmanas, fundamentadas mais na história do que na fé. Segundo o rei, elas pertencem ao passado e não têm mais sentido nos dias atuais.

ISLÃ E MODERNIDADE

A chegada do Islã no Marrocos deu continuidade ao modelo cultural da região, pois a sociedade patriarcal atribuía caráter sagrado a alguns comportamentos já sedimentados. Apesar das características religiosas peculiares, a secularização vem penetrando no tecido social marroquino, onde ocupa espaços cada vez maiores, como em qualquer nação sob a influência ocidental. Há tempos, a ciência saiu da mesquita e entrou na escola, na universidade. A televisão tem mostrado um mundo, até então, desconhecido. Viajantes descobrem paisagens novas e trazem outras idéias, hábitos diferentes. Os casulos do Alcorão se abrem e as pessoas olham por cima dos muros e sofrem profunda crise de identidade.

O que eles vêem e temem não é o perigo sionista ou cristão, mas “a cultura mundial do consumo e da comunicação:

- leiga, atéia e vazia, que não leva em si nem valores nem estratégia: é um conjunto de regras, não uma civilização... Um modelo que não queremos reproduzir”, afirma Olivier Roy, em 2004, para a revista “Africana”.

Na mesma edição, Jacques Levrat coloca o dedo na chaga:

“Ao insistir sobre os graves defeitos do Ocidente, alguns se opõem violentamente ao aspecto material da globalização, sobretudo se não se beneficiam de suas vantagens materiais, e se sentem marginalizados. Então, o Islã se converte para eles em um refúgio mítico, que teria a solução para todos os seus problemas e em um remédio para a angústia produzida pelas transformações sociais. E assim, lenta porém efetivamente, nasce um islamismo radical, um islamismo às vezes agressivo e violento. Outros cedem à tentação do oportunismo. As sacudidas que se produzem na sociedade tradicional, o fazer que provoca o fim de muitos pontos de referência e de certos controles sociais, deixaram livre o caminho para o crescimento do individualismo e do egoísmo.

Cresce o afã pelo dinheiro e este se converte no valor supremo:

- parte da classe política, contaminada por esse oportunismo, perdeu sua credibilidade moral, adquirida durante a luta pela independência”.


Nas imagens contem aspectos da vida marroquina, seus costumes e tradições

ESPERANÇAS

A liberdade de expressão ganha espaço. A imprensa denuncia a corrupção, as injustiças sociais, o analfabetismo, a prostituição e as diferentes formas de pobreza, e também o Islã, intocável até recentemente. Cresce a luta para garantir direitos e dignidade à mulher e o respeito às culturas diferentes e ao pluralismo cultural. Os intelectuais procuram adaptar o Islã à modernidade, sem desfigurá-lo.

Associações socioculturais e humanitárias permitem às pessoas desenvolver novas formas de solidariedade e a reafirmação da responsabilidade social. Assim se desenhará, pouco a pouco, e se instalará uma cultura moderna que acentua os direitos da pessoa e o compromisso com a cidadania, respeitando valores religiosos seculares. É este, hoje, o maior desafio dos muçulmanos marroquinos. E a sociedade deste país pode descobrir o dinamismo que lhe permita adaptar o Profeta à modernidade.

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