Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - África
O ESTADO MARROQUINO E AS TENDÊNCIAS POLÍTICAS Desde a criação da monarquia marroquina, as várias dinastias berberes (três) e árabes (quatro) impulsionaram a unificação religiosa do país, estabeleceram relações de comércio, fundaram cidades e desenvolveram a economia, sem perder sua identidade religiosa. Os mandatários souberam conservar a autonomia cultural e a estrutura política independentes, em nome do reino. Única na civilização islâmica, a autonomia foi possível porque as dinastias sucediam-se sem deixar “vazios” religiosos e o rei sempre foi o natural defensor dos fiéis. No Marrocos, o conceito legal de Estado (Majzén), instituído na dinastia almorávide (1010-1160), e ainda em vigor, atribui um papel fundamental ao soberano, que dirige ministérios e assuntos religiosos.
Elas também dividem, hoje, o Marrocos. A majoritária vertente tradicional, dividida em três grandes partidos, assistiu ao recente avanço fundamentalista wahabí, proveniente da Arábia Saudita na década de 1970. A nova corrente considera ímpios os seguidores dos partidos islamitas tradicionais no Marrocos. Outros grupos menores, radicais, não freqüentam as mesquitas, argumentando que elas representam o Estado, cujas estruturas eles querem destruir. Um deles praticou o atentado em Casablanca, em maio de 2003, vitimando dezenas de orantes. OBSTÁCULOS NA VIA POLÍTICA DO REI Assim, o país se volta para propostas conservadoras: a concepção tradicional do papel da mulher, através da qual se deseja islamizar cada vez mais a família e a sociedade; a oposição à linha política adotada pelo governo; o distanciamento em relação à cultura ocidental. Como os antecessores, Mohammed VI vive a difícil experiência de demonstrar ao povo que é possível mudar algumas tradições muçulmanas, fundamentadas mais na história do que na fé. Segundo o rei, elas pertencem ao passado e não têm mais sentido nos dias atuais. ISLÃ E MODERNIDADE A chegada do Islã no Marrocos deu continuidade ao modelo cultural da região, pois a sociedade patriarcal atribuía caráter sagrado a alguns comportamentos já sedimentados. Apesar das características religiosas peculiares, a secularização vem penetrando no tecido social marroquino, onde ocupa espaços cada vez maiores, como em qualquer nação sob a influência ocidental. Há tempos, a ciência saiu da mesquita e entrou na escola, na universidade. A televisão tem mostrado um mundo, até então, desconhecido. Viajantes descobrem paisagens novas e trazem outras idéias, hábitos diferentes. Os casulos do Alcorão se abrem e as pessoas olham por cima dos muros e sofrem profunda crise de identidade. O que eles vêem e temem não é o perigo sionista ou cristão, mas “a cultura mundial do consumo e da comunicação: - leiga, atéia e vazia, que não leva em si nem valores nem estratégia: é um conjunto de regras, não uma civilização... Um modelo que não queremos reproduzir”, afirma Olivier Roy, em 2004, para a revista “Africana”. Na mesma edição, Jacques Levrat coloca o dedo na chaga: “Ao insistir sobre os graves defeitos do Ocidente, alguns se opõem violentamente ao aspecto material da globalização, sobretudo se não se beneficiam de suas vantagens materiais, e se sentem marginalizados. Então, o Islã se converte para eles em um refúgio mítico, que teria a solução para todos os seus problemas e em um remédio para a angústia produzida pelas transformações sociais. E assim, lenta porém efetivamente, nasce um islamismo radical, um islamismo às vezes agressivo e violento. Outros cedem à tentação do oportunismo. As sacudidas que se produzem na sociedade tradicional, o fazer que provoca o fim de muitos pontos de referência e de certos controles sociais, deixaram livre o caminho para o crescimento do individualismo e do egoísmo. Cresce o afã pelo dinheiro e este se converte no valor supremo: - parte da classe política, contaminada por esse oportunismo, perdeu sua credibilidade moral, adquirida durante a luta pela independência”.
ESPERANÇAS A liberdade de expressão ganha espaço. A imprensa denuncia a corrupção, as injustiças sociais, o analfabetismo, a prostituição e as diferentes formas de pobreza, e também o Islã, intocável até recentemente. Cresce a luta para garantir direitos e dignidade à mulher e o respeito às culturas diferentes e ao pluralismo cultural. Os intelectuais procuram adaptar o Islã à modernidade, sem desfigurá-lo. Associações socioculturais e humanitárias permitem às pessoas desenvolver novas formas de solidariedade e a reafirmação da responsabilidade social. Assim se desenhará, pouco a pouco, e se instalará uma cultura moderna que acentua os direitos da pessoa e o compromisso com a cidadania, respeitando valores religiosos seculares. É este, hoje, o maior desafio dos muçulmanos marroquinos. E a sociedade deste país pode descobrir o dinamismo que lhe permita adaptar o Profeta à modernidade. |
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