Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - África
Novas seitas cristãs por Maria E. Gandolfi
A questão é candente, pois os partidos islâmicos debatem no Parlamento, em defesa de suas próprias intransigências, e escreveram contra a Igreja católica, a única comunidade cristã solidamente estruturada no país, acusando-a de aliciar os jovens mais abandonados, em troca da cidadania estrangeira ou do visto para a emigração. Dom Teissier e os responsáveis pelos protestantes foram recebidos pelo ministro para questões religiosas, a fim de esclarecer as próprias posições, sempre de absoluto respeito à tradição e à fé muçulmana. Teissier também reclamou que a imprensa ilustra a matéria com a foto da catedral (católica) de Notre Dame d’África, de Argel. Dom Teissier recorda que a Igreja católica jamais se aproveita da ação caritativa para fazer prosélitos: “Há 40 anos abrimos a biblioteca a todos os estudantes. E, nesse tempo todo, não batizamos nem um islamita. Abrimos a biblioteca porque queremos ajudar os jovens... Queremos construir um liame de fraternidade, mas no respeito pelo outro”. Nós – garantiu Teissier – interpretamos “a palavra missão no seu sentido amplo, não como ação proselitista ou de aliciamento”. A Igreja católica mantém absoluta discrição sobre conversões islâmicas. Ela analisa com prudência os candidatos, como afirmou dom Alphonse Georger, arcebispo sucessor de dom Pierre Claverie, em Oran: “Homens e mulheres querem se tornar cristãos, sem que os forcemos a nada. Estamos atentos: alguns querem deixar o país, obter visto, entrar em sociedade ocidental que lhes pareça mais permissível, encontrar respostas a problemas psicológicos, afetivos, sociais... É preciso agir com discernimento e isto nos leva a reprovar a maior parte deles. Outras denominações cristãs parecem menos exigentes que nós, que exigimos uma formação de três anos ou mais... Não queremos marginalizá-los da sociedade, da família, em troca de locais de trabalho”. Novos tempos eclesiais Apesar de não ser nova, a polêmica se insere em delicado momento para a Igreja argelina: terminados os piores momentos do terrorismo, findo o êxodo que levou a comunidade cristã a diminuir drasticamente, hoje se percebe uma nova e consistente presença de crentes, advindos da região subsaariana. São ondas de migrantes que transitam, e às vezes se fixam, na Argélia, de olho na Europa; mas também se trata de estudantes que vêm freqüentar a Universidade da África do Norte. O estilo eclesial que diferenciava a Igreja argelina, vê-se à frente de novas presenças, que não presenciaram o trabalho da descolonização, nem a dor e o medo da época terrorista. Segundo aquele estilo, a Igreja argelina era uma “Igreja do povo muçulmano”, um testemunho, um viver juntos, compartilhando a rotina nos bairros mais humildes, ou promovendo um serviço cultural aberto a todos. Mas hoje, perante tais acusações, que estilo adotar? Para responder ao desafio, a Igreja católica convocou a primeira assembléia interdiocesana da história, da qual participaram, em setembro de 2004, 120 representantes das dioceses de Argel, Laghouat, Oran e Constantine. “A finalidade desta assembléia – disse dom Teissier – é porque estamos entrando em nova fase na vida da Argélia. Saímos de uma década de crises. Superamos a violência e desejamos, portanto, reposicionar os objetivos. É normal refletir sobre o futuro. Nossa presença na Argélia é um bem para a Igreja. O país nos ensina a existirmos, como minoria, em terra islâmica. É também útil para a Argélia, pois representa uma pequena janela aberta sobre a diferença. Queremos ser sinal de presença fraterna”. A presença da Igreja é um “testemunho” ao ocidente, “mostrando que é possível viver felizes em uma sociedade muçulmana. Podemos viver sem atritos e guerras. Quem recorre ao discurso extremista, tanto de uma parte, como de outra, não tem futuro. O futuro é a colaboração entre cristãos e muçulmanos, entre todas as culturas, através do respeito pelo outro e o diálogo”, reafirmou Teissier. Enfrentar esta nova realidade significa esclarecer, a quem não conhece a história, o que tenha sido a Igreja argelina até agora. Que, vindos de horizontes diversos, os recém-chegados saibam abrir portas, até então fechadas. Em sua mensagem à Assembléia, os bispos insistem sobre a oportunidade a eles oferecida: “A multiplicidade de nossas origens nos permitirá mostrar plenamente que o cristianismo não é privilégio apenas dos europeus”. II Regno (adaptação) Os Berberes por Pedro Miskalo
Algumas tribos, que renunciam às influências árabes, habitam as montanhas da cordilheira Atlas e o Saara marroquino e constituem autênticos redutos de um povo que, genuinamente, nada tem a ver com as crenças muçulmanas. Em abril de 2002, a Assembléia Nacional modificou a Constituição argelina, tornando o tamazirte, língua berbere, idioma oficial do país, ao lado do árabe. Foi uma conquista berbere importante, pois esse povo representa 25% da população total. Apesar da vitória, a tensão entre eles e os árabes continua a provocar esporádicos conflitos na Cabília. |
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