Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - África
por Pedro Miskalo
Estamos na região ocidental do país, conhecida como Darfur, onde as milícias árabes pró-governo, acusadas de promover uma limpeza étnica, combatem a população negra, dividida entre dois grupos rebeldes, o SPLA (Exército de Libertação do Povo Sudanês) e o JEM (Movimento para Justiça e Igualdade). Os rebeldes acusam o governo de favorecer a população árabe, prejudicando as etnias africanas. A interminável guerra civil, e os prolongados períodos de seca que atingem Darfur, já causaram mais de um milhão de retirantes, que, esfomeados, são obrigados a perambular pelo imenso território desprovido de alimentos e de assistência. Duzentos mil já se refugiaram no Chade, país limítrofe a oeste, igualmente miserável e desassistido. Os dados mais conservadores identificam cinqüenta mil mortos, vítimas do genocídio. Mas isso não é tudo. É apenas a tragédia do momento. Traços históricos O termo Sudão vem de Bilad al-sud an, “país dos negros”, expressão com a qual os árabes designavam os negros, em contraposição aos habitantes brancos da África mediterrânea. Assim, “Sudan” eram os territórios ao sul do Saara. No início do século 19, a cartografia e a literatura européias definiram os limites da região. As fronteiras atuais do Estado foram fixadas no início do século 20. Em 1899, apelando para o “direito de conquista”, a coalizão anglo-egípcia assinou uma Convenção que transformou o Sudão em condomínio “anglo-egípcio” que, de fato, foi uma possessão britânica. Em 1951, Faruk, rei do Egito, anulou, unilateralmente, o condomínio e criou a união “Egito e Sudão”. Em janeiro de 1956, o país se tornou independente. De lá para cá, sucederam-se no poder governos civis frágeis ou ditaduras militares, em uma seqüência interminável de guerras civis, carestias, estiagens, pobreza endêmica. A guerra civil já perdura por mais de vinte anos. O saldo de mortos chega a dois milhões, e os refugiados ou retirantes passam de quatro milhões. As raízes do longo conflito remetem a posturas geo-políticas e religiosas. O poder, no norte do país, está em mãos árabe-muçulmanas. A região é quente, o clima é árido, aquecido pelos desertos da Líbia (extremo oeste do Saara) e da Núbia (nome do país na Antiguidade), na parte norte. O Ocidente suspeita que o governo de Cartum acolhe terroristas islâmicos e, por isso, o rejeita. O sul, coberto por savanas e florestas tropicais, é a área onde predominam os cristãos e os animistas. Ambos têm sido vítimas do expansionismo islâmico. O genocídio de seu povo, perpetrado pelo governo de Cartum ao longo de décadas, foi menosprezado pelas grandes potências do Ocidente até 2002, quando os Estados Unidos acusaram o governo de matar dois milhões de civis no sul do país. Fundamentalismo e Terrorismo Em 1989, o general Omar Hassan al-Bashir, no golpe de Estado que depôs o governo anterior, atiça o fundamentalismo da Frente Islâmica Nacional. Em 1991, o país adota um código penal baseado na lei islâmica, a sharia. Em vista disso, os combates entre o SPLA e o governo prosseguem. Em 1993, 600 mil refugiados morrem de fome. No ano seguinte, milhares de sudaneses fogem para Uganda, Quênia e Zaire (hoje República Democrática do Congo). Em 1995, o presidente egípcio Hosni Mubarak é vítima de um atentado atribuído ao governo sudanês. A ONU exige a entrega de suspeitos, que o governo do Sudão recusa. Sanções e embargo econômico, decretados pela ONU (1995) e pelos EUA (1998), sob a acusação de apoio ao terrorismo, isolam o país. Após os atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, os americanos acusam o Sudão como base da Al Qaeda, do saudita Osama bin Laden. O governo local promete apoiar a luta contra o terrorismo. A ONU suspende as sanções; os americanos, não. Mas as lutas internas continuam. Em 2002, o governo e o SPLA reconhecem, em acordo, que o sul não precisa submeter-se à sharia islâmica. Darfur Os habitantes de Darfur pertencem ao grupo étnico Fur. São também muçulmanos, etnicamente africanos negros de origem não-árabe, e rejeitam ser assimilados pelo islamismo árabe dos políticos de Cartum. Eles são unidos à tribo Beja, que vive a leste, perto do Mar Vermelho, também em luta contra o governo central. Os dois movimentos armados na região (JEM e SPLA), ambos da etnia Fur, têm tentado inutilmente obter a legitimidade de seus direitos de cidadania, fora da influência árabe de Cartum.
Porém, o fundamentalismo islamita dos governantes rejeita essa autonomia religiosa; persegue as tribos e ocupa seus territórios. A aviação sudanesa é acusada de usar armas químicas. Além disso, a milícia árabe a cavalo (jenjawid), proveniente do Chade, de Mali e da Mauritânia, e armada pelo exército, ajuda as tropas federais a pôr em fuga a população de Darfur para ocupar seu território, em flagrante desrespeito aos mais elementares direitos humanos. As Forças Armadas desconhecem que o tribalismo, e as formas de discriminação baseadas sobre o origem étnica, a língua e a cultura de um povo, não fazem parte de uma sociedade civil e não têm espaço em comunidades de fé. Já vimos os resultados: aldeias queimadas, desespero, fome e crânios sob o sol do deserto ou sob a lua do Sudão. A Igreja denuncia Para que o Ocidente não corra o risco de se omitir novamente, a Santa Sé e a imprensa missionária têm feito veementes denúncias contra a tragédia. O arcebispo Paul Josef Cordes, presidente do “Cor Unum”, o órgão da solidariedade do Vaticano, voltou recentemente de Darfur, pouco depois da visita de Kofi Annan, Secretário-Geral da ONU, e de Colin Powel, Secretário de Estado americano. Os resultados aparecem, pois a grande imprensa mundial finalmente acordou e já alerta o mundo para o genocídio tão grave quanto o da Armênia, em 1915. O arcebispo Paul Cordes justifica a posição da Igreja: “A Igreja católica, e a Santa Sé, já há muito tempo procuram sensibilizar a opinião pública mundial sobre a situação do Sudão. Desde há muito, os bispos, as ordens religiosas, as nossas organizações católicas, fazem tudo para ajudar a população sudanesa, vítima de tantas atrocidades. Portanto, o envolvimento da Santa Sé com o problema não é de hoje. Mas, em um mundo globalizado, situações como esta só se resolvem graças a uma ação conjunta internacional. Assim, é necessário discutir, participar, dialogar. Deve-se despertar a boa-vontade das nações para resolver esta crise humanitária e avivar as negociações entre as partes em conflito. As Nações Unidas não podem se omitir”. Ele continua: “Neste exato momento, devemos agir para salvar as vidas humanas que se perdem diariamente. Por isso, ONGs cristãs leigas estão em ação. Quero lembrar que a Cáritas, juntamente com as Igrejas ortodoxas, protestantes e anglicanas, já deu o primeiro passo para um programa humanitário de 17 milhões de dólares, para socorrer 500 mil pessoas”. É um pequeno passo e um enorme simbolismo.
Como ficar indiferentes? João Paulo II “Ficar ao lado de quem sofre nos países mais pobres do mundo é um ato de justiça e um sinal de esperança” Caríssimos irmãos e irmãs! Há mais de dezoito anos, o norte de Uganda está desfigurado por um conflito desumano, que envolve milhões de pessoas, sobretudo crianças. Muitas delas, presas nos aguilhões do medo e privadas de qualquer futuro, são coagidas a “bancar os soldados”. Dirijo-me à Comunidade internacional e às autoridades políticas nacionais, para que dêem um basta a esse já trágico conflito e ofereçam uma real perspectiva de paz à toda a nação ugandense.
(Cidade do Vaticano, 25 de julho de 2004) CÁRITAS
Em 2003, a Cáritas italiana enviou, em socorro de vinte e quatro países do continente africano, três milhões de euros (perto de onze milhões de reais). Em Darfur, graças à rede internacional da Cáritas, foi encaminhado um projeto emergencial para quinhentas mil pessoas, cujo custo estimado é de catorze milhões de euros. Diferente, mas não menos trágica, é a situação do norte de Uganda, onde a Cáritas local criou um programa trienal para a reeducação de quatrocentos mil meninos-soldados.
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