Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - África
Até alguns anos atrás, a África do Sul vivia uma das mais vergonhosas chagas humanas: o apartheid, isto é, a maior parte da população, a negra, não era reconhecida como membro de direito da sociedade sul-africana. Como estaria, hoje, aquele povo, depois que dois governos negros, o de Mandela e de Thabo Mbeki, assumiram o poder? Alberto Chiari dá algumas pinceladas tristes de uma realidade sombria e fracassada
O que assusta, hoje, é encontrar em todo lugar altos muros de defesa, rolos de arame farpado e avisos explícitos: “Atenção! Resposta armada”. Agressões e tiroteios são problemas sérios na cidade; cartazes alertam os lugares onde, para entrar, é obrigatório declarar se está armado, como bibliotecas, escolas, aeroportos. Isso acontece em Johannesburg como em Pretoria, cidade do governo. Ao hospital Chris Hani Baragwanath, de Soweto, a cidade que foi teatro de revoltas anti-raciais, chegam duas mil pessoas, em média, a cada ano, feridas por arma de fogo.
O mesmo acontece na Cidade do Cabo, meta turística, mas que não é exceção. Os luxuosos palacetes, com vista sobre o oceano, são praticamente fortalezas e vivem sitiados pela delinqüência. Todo mês, há denúncias de 100 a 145 arrombamentos, conforme dados da polícia. Outra desgraça são as gangues armadas que agem em pleno dia. Não somente os ricos e brancos são alvos dessa violência, mas toda a minoria abastada. Na África do Sul, do presidente Thabo Mbeki que sucedeu a Nelson Mandela em 1999, o desemprego é simplesmente endêmico: 40% da força trabalhadora está sem trabalho. Todos são atingidos, sobretudo, pretos e jovens. Por isso se mata até por 5 rand (2 reais). É perigoso mostrar objetos como relógios ou celulares. Nas estradas que levam às famosas praias douradas do oceano, são registrados 108 assaltos a mão armada em cada cem quilômetros. Morre-se mais facilmente por fogo cruzado (27%) que por incidentes estradais (22%), não obstante a lei rigorosa que veta a posse de armas, a não ser por motivos justificados, e pune com penas de 25 anos de prisão. Apesar da severidade da lei, o número de armas que circulam no território é estimado em 4 milhões e meio, sendo que um número indefinido estaria escondido. O país não tem confiança no governo e nem as pessoas entre elas. PEQUENAS ESPERANÇAS Existem mais de duzentas associações que, nos últimos anos, trabalham para obter do governo medidas mais restritivas. “O ponto da questão é que o apartheid acabou no plano político, mas não no plano econômico” – diz José Lanzi, diretor da Scalabrini Development Agency,dos padres scalabrinianos, na Cidade do Cabo – e as gangues são a resposta. A África do Sul está num momento crítico de mudanças: é o pais mais desenvolvido do continente, mas não consegue eliminar as barreiras que dividem os diferentes segmentos da população e pode até regredir com prováveis choques tribais. As novas eleições, as terceiras após a queda do apartheid, serão realizadas neste ano e o governo tem larga maioria. São suas metas: aumentar o número de policiais (hoje substituídos por vigilantes particulares), para combater a altíssima taxa de violência, inimiga do crescimento econômico do país. Deve também tentar iniciar algo para deter a Aids: numa população de 44 milhões de habitantes, 4,7 milhões são aidéticos, somando quase mil mortos ao dia. Conforme o Banco Mundial, dentro de quatro gerações de sul-africanos, pode haver a bancarrota da economia. No ano passado, após protestos dos médicos que trabalham no combate à Aids, o governo anunciou um plano de distribuição de remédios anti-retrovirais: um gesto que liberou 41 milhões de dólares do plano Bush para combater a Aids na África. Embora pareça que o governo Mbeki ainda tenha boas chances de vitória, ele deve acordar para os graves problemas, como o desemprego e a caótica situação social, se quiser salvar o país, totalmente abalado em sua estrutura.
PROJETO
SCALABRINIANO: Trata-se de uma missão religiosa na Cidade do Cabo, mas especialmente, um centro de formação para o trabalho. A razão é simples: a cidade, sede do parlamento sul-africano, ainda traz feridas dos choques e da deportação dos negros nos District Six e Crossroads. Hoje, nas favelas de mais de dois milhões de moradores, reservatório ideal de desempregados e de criminosos, trabalham os missionários scalabrinianos. Há mais de dez anos, eles abriram o Scalabrini Refugee Service, dirigido por pe. Arcângelo Maira, oferecendo mantimentos, roupas e um curso de inglês. Isso, porém, não era suficiente. A verdadeira desgraça da África do Sul é a falta de trabalho que obriga roubar e até matar para sobreviver. Era necessário criar outras situações que ajudassem os jovens a encontrar trabalho. A Providência ajudou a encontrar um prédio de quatro andares abandonado. Conseguiram comprá-lo com ajuda de movimentos italianos de solidariedade e, após reestruturá-lo, iniciaram algumas partes do projeto.
Na escola, recebem noções de cultura geral, sobre as leis trabalhistas e as regras vigentes no mundo do trabalho. Em seguida, os trabalhadores são ajudados a se inserirem no mercado, mas continuam sendo acompanhados por um tutor. Quem demonstra capacidades empreendedoras é ajudado a se estabelecer por conta própria.
• Scalabrini Refugee Service |
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