Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades do Mundo - África

África perdida?

Hélio Pedroso

Nos dias 3 e 4 de abril, no Cairo - Egito, ocorreu uma reunião entre a União Européia - UE (15 países) e a Organização da Unidade Africana - Oua, (52 países), com o objetivo de constituir uma área de livre mercado euro-mediterrânea. Todavia, as metas imediatas dos dois grupos se revelaram bem diferentes. Enquanto os países africanos, que já devem para a Europa 350 bilhões de dólares, querem o perdão da dívida externa, mais investimentos e vantagens nos mercados, os europeus, embora dispostos a fazer algumas concessões diante de uma seriedade de intenções, propõem-se a patrocinar somente projetos de reformas que possam reverter a desastrosa situação econômica que assola quase todo o continente. Querem discutir comércio de armas, tráfico de drogas, corrupção, maus governos e ditaduras, direitos humanos e todos os outros problemas que estão impedindo o desenvolvimento e a recuperação da África.
Só para citar alguns números, no ano passado, 20 países registraram conflitos armados, 40 dos 52 países africanos ocupam os últimos lugares nas estatísticas da miséria mundial. Há seca, fome na Eritréia, Etiópia, Somália e no Sudão. A Aids infectou mais de 20 milhões de pessoas, tornando-se uma doença quase corriqueira por falta de investimento em saúde e higiene.
De outro lado, a Europa paga duplamente a falência africana: uma vez, nos empréstimos financeiros praticamente perdidos que não ajudaram a melhorar o nível de vida do povo, mas somente engordaram as contas de governantes e ditadores e, uma segunda vez, enquanto recebe milhões de imigrantes africanos em busca de melhor qualidade de vida e aos quais dá assistência, apesar dos protestos de seus cidadãos.
Diante dessa situação, a Europa não quer mais abrir a bolsa e o eventual perdão da dívida, que alguns países querem conceder, está condicionado ao emprego desse dinheiro no campo social, controlado porém por sociedades idôneas do país, como a Anistia Internacional e as Ongs.
Politicamente, porém, a Europa deve pensar que uma África marginalizada será sempre um foco de instabilidade até para o Velho Mundo, seja pela a imigração que não pode ser totalmente assimilada, seja pelas desgraças que aconteceriam no continente e que afinal pedem a colaboração humanitária dos europeus.
No final da reunião, foi selado um plano de ação que deverá valer até 2003, quando haverá outra reunião em Atenas, na Grécia. O plano recomenda a integração da África na economia mundial, por meio da liberalização dos mercados; a cooperação regional, encorajando investimentos no setor privado; a redução da dívida externa africana (que cresceu de US$ 110 bilhões em 1980, para US$ 350 bilhões no ano passado); a promoção e o respeito aos direitos humanos; a garantia das liberdades fundamentais; as eleições livres e regulares; o apoio à democracia e à independência do judiciário. Mas também pede que se encoraje os esforços para promover bons governos, combater a corrupção, o suborno, o nepotismo; que se procure reaver o dinheiro ilegalmente depositado em bancos estrangeiros; que se previnam os conflitos; que se fortaleçam os mecanismos e as missões de paz e outras medidas, como a remoção das minas terrestres que, todo ano, fazem milhares de vítimas, impossibilitando-as de trabalhar.
O importante é que todas essas sugestões postas no papel se tornem realidade e comecem a reconstrução do continente, onde vivem 800 milhões de pessoas.

Os dados do desespero

· Área: 30 277 922 km2 (três vezes e meia o Brasil), mas um terço é ocupando por desertos
· Habitantes: 800 milhões
· Taxa de crescimento demográfico: 3% ao ano, a maior do mundo
· Mortalidade infantil: 86/1000 (10/1000 na Europa ocidental)
· Expectativa de vida: 50 anos nos países onde não há conflitos armados
· Analfabetismo: 42% (70% nos países da África subsaariana)
· Fome: 16 milhões de pessoas atingidas nos últimos anos
· Aids: 20 dos 30 milhões de infectados no mundo. A maioria dos doentes são mulheres.
· Conflitos armados nos dois últimos anos: 20 dos 45 países da África subsaariana estão envolvidos em guerra civis e guerrilhas.
· Pobreza: dos 52 países africanos, 40 estão entre os 50 mais pobres do mundo
· Renda per cápita: US$ 400 (média da África em geral). Em alguns países, esta não chega a US$ 1/dia
· Dívida externa: US$ 350 bilhões

Fontes: Banco Mundial e Fundo da População da ONU

A África que não conta

Desde 1970, mais de trinta guerras, na maioria civis e tribais ou provocadas pelos "senhores da guerra" mancharam o solo africano. Tudo isso aconteceu debaixo de olhar displicente da comunidade internacional, do Conselho de Segurança da Onu,portanto, como acusa Kofi Annan, secretário geral da Nações Unidas, todos têm sua parcela de culpa.
Essas guerras, muitas vezes, foram herança de um colonialismo que abandonou suas ex-colônias sem planejamento e preparo. Os novos países foram desenhados e divididos conforme critérios de interesses e de domínio, sem respeito às etnias. Os exemplos são muitos e dramáticos: Ruanda, Burundi, Congo; desde os anos 90, hutus, tutsis e outras tribos estão mergulhadas em guerras e guerrilhas que já mataram mais de um milhão de pessoas, deixando cem mil refugiados à beira da morte nos países vizinhos.
Pequenos mas cruéis ditadores distinguiram-se pela ferocidade das perseguições contra seus inimigos ou pela ganância com que espoliaram os próprios países, acumulando, em paraísos fiscais, riquezas astronômicas, com a complacência das potências interessadas em manter sua ingerência.
Devemos reconhecer que, nos últimos anos, não foi feito o suficiente ou com a devida inteligência para resolver as causas dos conflitos, para dar uma paz durável e um desenvolvimento verdadeiro ao continente africano. O mundo teve graves culpas na história dessa falência. Contudo, parece que algo está despertando na consciência dos "culpados" e da própria Onu, como ficou evidente na reunião.
A reflexão de Kofi Annan é um apelo a toda a humanidade: "Não podemos mais continuar alegando ignorância sobre o que ocorre na África e sobre o que falta para que o continente progrida; também não podemos continuar descarregando sobre os outros a possibilidade de levar adiante os contatos. Esta responsabilidade é nossa, é do mundo, é da África. As Nações Unidas estão prontas para assumir o seu papel, mas o mundo e a África também devem estar".

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