Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - África
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As seitas nascem na África que sofre com os solavancos da instabilidade e dos desajustes sociais, culturais e econômicos. Elas se convertem num refúgio de pessoas insatisfeitas e um instrumento de poder para os políticos Constantino Bogajo No dia 17 de março de 2000, em Kanungu-Uganda, a seita do Movimento para a Restauração dos Dez Mandamentos instigou 500 pessoas ao suicídio, porque "chegara o tempo da salvação". Esse suicídio em massa causou um grande impacto no país e na África porque, como tentava desviar o presidente de Uganda, Yoweri Museveni, "É incrível que na África aconteçam essas coisas". A verdade é que as seitas na África proliferam como cogumelos.
Para fundá-las, é suficiente que alguém se auto-proclame
"pastor, sacerdote, bispo, profeta ou messias". Algumas dessas
seitas vêm de fora e contam com o apoio das grandes seitas norte-americanas,
do Brasil ou da Ásia, como a Gospel of Prosperity, Tulsa's Rhema
Bible Church, DESAJUSTES SOCIAIS Várias causas podem explicar a proliferação das seitas na África. Citamos algumas que são até um desafio para as Igrejas e os políticos. Do ponto de vista político, ninguém duvida que a atual
situação africana foi e continua lamentável. Os políticos
criaram uma linguagem que servia somente para o poder e para abocanhar
os recursos do Estado. Todas as esperanças suscitadas no momento
da independência viraram fumaça. Alguns adotaram ideologias
e sistemas sócio políticos totalmente estranhos à
sociedade africana e cujo resultado foi desastroso. Socialmente, a África está vivendo uma grande transformação. Muita gente migra para os centros urbanos, dando origem a grandes favelas onde se vive em condições desumanas. Essa migração deve-se a vários fatores: fugir das guerras, busca de um trabalho estável, melhores condições de vida. A conseqüência é a desagregação da família, a solidão: é muito comum ver, pela cidade, pessoas perambulando sozinhas, porque perderam suas próprias raízes e não encontraram alternativas. Surgiu também um novo fenômeno: os meninos de rua, forma visível do conflito entre a modernidade e os valores tradicionais. Enfermidades como Aids, ebola, cólera e malária grassam nessa população sem destino estável. Essas doenças são incuráveis ou oferecem grande resistência aos medicamentos tradicionais. Isso faz com que muitos busquem alternativas para seus sofrimentos e frustrações nas forças mágicas. Muitos curandeiros, que eram autênticos médicos tradicionais, converteram-se em charlatões e trapaceiros. A bruxa- ria, outrora considerada como algo misterioso e maléfico, agora se considera um fato positivo. INSTRUMENTALIZAÇÃO POLíTICA Muitos políticos africanos apóiam essas seitas violentas e fanáticas e promovem a corrupção, em troca de ajudas econômicas. Facilmente, até presidentes, hoje se declaram kimbauistas, amanhã freqüentam a Igreja Universal do Reino de Deus, depois de amanhã se declaram pentecostais e outro dia... É o que acontece principalmente durante as campanhas eleitorais. A morte, que na África era algo sagrado, agora passou a ser uma companheira habitual. Um moçambicano queixava-se pouco tampo atrás: "Chorar não tem sentido em si porque não temos nem tempo para enxugar as lágrimas ou viver o luto. Foi violada a sacralidade da morte, transformaram os nossos campos em cemitérios". Todas essas circunstâncias criam um ambiente propício para a proliferação das seitas. Alguns personagens carismáticos, aproveitando-se dessa realidade, estabeleceram comunidades cujo objetivo principal é fazer com que seus adeptos se sintam protegidos, em família, e para isso criam fortes laços de amizade entre eles e facilitam até alguma ajuda econômica. Dessa maneira, muitas pessoas perseguidas por situações adversas sentem-se acompanhadas, seguras. As pessoas que estavam perdidas no anonimato agora são reconhecidas, amparadas e gozam da solidariedade do grupo. Sentem-se "curadas" tanto psicologicamente como emocionalmente. Aderindo a esses grupos, o africano espera encontrar soluções ao drama existencial que está vivendo. PROBLEMA OU DESAFIO? Não podemos negar que as seitas são um problema para a África. Com suas doutrinas fundamentalistas, enfraquecem a situação já fragilizada da sociedade africana. Manipulam o povo, impedindo de adotar posturas críticas e buscar soluções duradouras e justas para sua precária situação social e pessoal. Solapam ainda mais a harmonia sócio-cultural e atentam contra um dos princípios da ética africana que consiste na unidade do mundo, da família, do grupo e do trabalho para o bem comunitário, respeitando a sacralidade da vida.
De outro lado, as seitas são um desafio também para as Igrejas independentes. Muitas delas pararam no passado sem renovação ou avanços. É verdade que lutaram a favor de uma inculturação do Evangelho, mas perderam muita força depois da independência política, quando buscaram alianças com os políticos. Também descuidaram do estudo em profundidade da teologia e dos textos bíblicos. Para a Igreja católica, os desafios são ainda maiores. É preciso recuperar o tempo e dar os passos já percorridos pelas outras Igrejas. É verdade que se avançou bastante com o Sínodo Africano, mas existe ainda um receio na hora de concretizar os princípios. A famosa analogia da Igreja-família na África ainda está longe de ser posta em prática. As pequenas comunidades de base, que deveriam ser a força motriz das nossas paróquias e centros de inculturação, muitas vezes se transformam em centro de batismo em massa, sem que o sacramento transforme profundamente a vida do africano. Não é suficiente que as nossas liturgias durem duas, três horas, utilizando tambores, cânticos, danças, paramentos sacerdotais de cores africanas. É necessário refletir mais sobre seu simbolismo e significado, a partir de uma antropologia e teologia africanas. As curas são um tema discutível na Igreja católica local. Muitas vezes, o nosso linguajar está inadequado. É importante distinguir entre o curandeiro ou médico tradicional e o bruxo ou adivinho. No conjunto, o ritual de cura é bruxaria. Não podemos continuar interpretando a cultura africana com nossa mentalidade dessacralizadora do simbolismo. É necessário que a criança - a África - aprenda a nadar dentro da água; não podemos ensina-Ia a nadar, se nunca entra nela. As seitas continuarão nos desafiando e fragmentando nossa sociedade e nossas comunidades já enfraquecidas antropológico-cultural e economicamente. Se continuarmos a proteger assim a criança, ela nadará sempre em nossos braços. O Mundo Negro, set. 2002 |
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