Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - Américas
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por Pedro Miskalo Outro sinal dos tempos: - pela primeira vez, uma mulher é eleita presidente do Chile. A América Latina desperta, consciências evoluem, povos e democracias amadurecem, políticas impostas fracassam... Biografia Evo Morales (46) nasceu na província de Oruro, a 400 quilômetros de La Paz. Quatro de seus seis irmãos morreram na infância, época em que Evo pastoreava e tosquiava lhamas. Com o fechamento das minas (o pai trabalhava em uma delas), a família mudou-se para a região do Chapare, em 1980, para dedicar-se ao cultivo da coca. Evo despertou-se para a vida sindical, representando os cocaleros. Foi parar algumas vezes na prisão. Em 1995, fundou o núcleo do que se tornaria o partido Movimento ao Socialismo (MAS) e, em 1997, obteve o mandato de deputado como líder indígena. Em 2001, em entrevista para o jornal Opinión, de Cochabamba, declarou: - “Expressar o que não podem expressar os companheiros, denunciar o que eles não podem denunciar, é para mim uma alegria. Não tenho porquê ter medo”. Em 2002, candidatou-se à presidência e foi derrotado. A fama chegou em 2003, ao chefiar os protestos populares pela água e pelo gás, que levaram ao fim os governos de Sanchez de Losada e de Carlos Mesa. Como líder político latino-americano não alinhado aos Estados Unidos e à política do FMI, Evo aproximou-se de Fidel Castro (Cuba), de Hugo Chavez (Venezuela) e até de Muammar Kadafi (Líbia). Mas é fã inconteste da ativista indígena dos Direitos Humanos da Guatemala, Rigoberta Menchú, prêmio Nobel da Paz em 1992. Evo escolheu para seu vice o sociólogo Álvaro Garcia Linera, ex-guerrilheiro do exército Tupac Katari, indigenista e seguidor de Marx e de Pierre Bourdieu, hoje com ideais mais moderados. O apoio de Linera, um branco, foi fundamental para assegurar ao líder aymara os votos da classe média urbana. O triunfo da dupla pode significar a definitiva emersão dos nativos do subsolo da história. Uma lição de otimismo Evo saberá trabalhar para o bem comum de todos os bolivianos ou ficará prisioneiro dos ressentimentos raciais e de classe? O bispo de El Alto, dom Jesus Juarez, secretário da Conferência Episcopal boliviana desde 1990, e que o conhece bem, respondeu a Mondo e Missione: - “Morales tem consciência que deve ser o presidente de todos os bolivianos e, portanto, deve abrir-se a todos os que querem um país melhor.
É sensível, ama a transparência e quer que todos os bens e recursos naturais sirvam para o desenvolvimento de toda a Bolívia, que desapareçam as diferenças entre ricos e pobres e que nasça um novo clima social, com mais justiça e solidariedade”. Por que um indígena? “Porque os bolivianos desejavam uma mudança, queriam respirar novos ares. A isso se junta a escassa credibilidade nos partidos tradicionais e o desejo de criar maior solidariedade e um dinamismo de inclusão para todos os bolivianos. Por isso votaram nele, com um consenso que surpreendeu a todos os observadores”, frisou o prelado. (Evo obteve 54% dos votos, logo no primeiro turno). Sobre a oposição, dom Juarez foi taxativo: - “Ela deve respeitar a vontade popular, não criar obstáculos ao processo democrático e garantir a governabilidade, evitando corrupção e nepotismo. O objetivo comum da classe política é conceder oportunidades de trabalho e salário digno a todos”. Mas, e as multinacionais? “A Bolívia é a legítima proprietária de seus bens e as empresas não podem enriquecer-se à nossa custa. Morales irá propor uma revisão dos contratos para uma justa redistribuição dos dividendos”, concluiu o prelado boliviano. Interrogações O analista político boliviano Carlos Toranzo diz que o novo gabinete é formado de “símbolos sociais”, simples militantes de grupos sociais, dóceis a Evo, e não de técnicos e gerentes competentes, exceto os Ministros da Fazenda e de Hidrocarbonetos. Por esta razão e para a manutenção do poder, ele acredita que o presidente será prudente na condução da economia. Os maiores pesadelos do novo Governo convergem-se em duas frentes: - como comportar-se perante as multinacionais extrativistas e que política utilizar nos confrontos do cultivo de coca. Quanto à primeira, o presidente tem-se mostrado camaleônico. Teceu elogios a Fidel Castro, para, em seguida, prometer a Zapatero, que representa os enormes investimentos espanhóis na Bolívia, o respeito à propriedade privada. É possível que ele não exproprie as multinacionais, mas renegocie os contratos vigentes, firmados na última década e exageradamente favoráveis às grandes companhias, a fim de aumentar os recursos do país através do fisco. A outra vertente, mais espinhosa, vem das repetidas promessas de não penalizar a produção de coca, planta profundamente enraizada na cultura boliviana, acompanhada pelo empenho de encontrar mercados alternativos para a controversa planta. Causachun coca, Wañuchun yanquis! (Viva a coca, fora os Ianques!), exclamou Evo tão logo se abriram as urnas. Legalizar a coca, porém, seria extremamente insidioso, porque implicaria recusar, pura e simplesmente, os enormes esforços feitos, nos últimos anos, pelos Estados Unidos e pela ONU para substituir o cultivo ilícito. Washington acusa Evo de conivência com narcotraficantes e de ser um marionete dos projetos de desestabilização da América Latina, tramados por Havana e Caracas. Legalizar a coca é proposta populista e leviana Sandro Calvani, um especialista neste campo, explica: “Na Bolívia, há dois tipos de coca, cultivados em áreas diferentes, devido às condições climáticas, de altitude e características do terreno. A da região de Chapare, entre Cochabamba e Santa Cruz, serve só para produzir cocaína. Nem pode ser mastigada. Legalizar esta coca é legalizar a cocaína, idéia inadmissível em nível internacional. A lei boliviana reconhece o uso tradicional da coca do vale dos Yungas, próximo de La Paz, sobretudo a acullico (a mastigação). Sua produção, no entanto, deve limitar-se ao que o mercado legal requer (cerca de 15 mil hectares), mas lá é cultivado mais que o dobro, de maneira a destinar o resto à produção de cocaína. Além do mais, a legalização de uma produção ilícita, feita apenas por um país, seria uma espécie de monopólio. Portanto, isso deveria ser legalizado em toda a região andina. Acontece que a cocaína é, hoje, três vezes mais barata na Colômbia. Se se admite que a coca se torne legal, a Bolívia não poderá competir com a Colômbia. Além do mais, a legalização da coca inviabilizaria a ajuda pelo desenvolvimento alternativo, daria à Bolívia a marca de país narcotraficante, bloquearia investimentos internacionais, já exíguos. Dar uma mão a trinta mil famílias que produzem coca, condenaria à miséria os três milhões de camponeses bolivianos que vivem da criação de lhamas, do cultivo de batata e de outros produtos legais. Sem falar na chance de uma intervenção dos Estados Unidos na região”. |
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