Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

Giorgio Bernardelli

ento e trinta rabinos israelenses elevam a voz em defesa dos direitos dos palestinos. E, para isso, dispõem-se até a enfrentar tribunais. Reunidos na associação Rabbis for Human Rights (“Rabinos para os Direitos Humanos”), receberam o Prêmio para a Paz – 2006, da Fundação Niwano, conhecido como o “Nobel das Religiões”.

O anúncio, dado em Tóquio, em março, recoloca Jerusalém no centro das atenções, justamente quando o Oriente Médio enfrenta os fundamentalismos, que ameaçam considerar as religiões como “um problema a mais”. Na direção oposta, caminha a experiência dos “Rabinos para os Direitos Humanos”, uma das vozes mais contracorrentes do Oriente Médio de hoje. E nem tanto por se tratar de israelenses simpáticos à causa palestina, mas porque agem em nome da Torah.

Tais rabinos, de diferentes escolas e denominações hebraicas, estão convencidos de que o mandamento bíblico:

- “cuide do estrangeiro que mora no teu meio”, vale também na relação com os palestinos.

E, em nome da fidelidade à tradição hebraica, promovem campanhas em defesa dos direitos elementares:

- vigiam contra abusos à entrada de palestinos; colhem azeitonas de cujas oliveiras os proprietários palestinos não podem se aproximar, pois estão próximas de áreas israelitas; oferecem assistência legal a quem perde seus direitos injustamente.


Arik Ascherman, o diretor executivo da associação Rabbis for Human Righsts
("Rabinos para os Direitos Humanos")

“No momento em que fundamentalismos e extremismos religiosos recebem tanta publicidade no Oriente Médio, a Fundação Niwano para a Paz quer reconhecer, com este prêmio, essa associação de rabinos como uma voz única da compaixão, atenção ao outro, amor e justiça, que estão no coração do judaísmo e de todas as demais religiões”, esclarece o documento da Fundação japonesa. O prêmio veio depois que a associação israelita chamou à atenção da imprensa, sobretudo pela sua batalha (perdida) contra a demolição das casas palestinas a leste de Jerusalém. Centenas foram demolidas por terem sido construídas de maneira irregular.

“Acontece – denunciam os Rabinos para os Direitos Humanos – que é impossível obter licença para construção, na área, porque o plano regulador foi feito para tornar impossível o crescimento dos quarteirões árabes nessa cidade contestada. Assim, se há a necessidade de uma nova casa, ela deve ser levantada de modo irregular”. Para protestar publicamente contra esta administração territorial sobre base étnica, o diretor executivo da associação, Arik Ascherman, em abril de 2003, promoveu um ato de resistência pacífica diante dos demolidores, enviados pela Municipalidade.

Seu gesto não serviu para bloquear a demolição das casas, e ele foi processado no início de 2005. “Sob aqueles escombros – escreveu – ficou a minha kippah (espécie de boina judaica) e penso que isso significa algo. Talvez seja um símbolo de que os valores judaicos, nos quais sempre acreditei, foram esmagados e sepultados. Ou simboliza, talvez, que lá havia israelitas, postados contra a injustiça, em nome da Torah”. São palavras fortes, como as da carta aberta, publicada em 2002, durante os dias mais sangrentos da segunda intifada. Na ocasião, a associação escreveu claramente que explodir um ônibus é a pior violação dos direitos humanos e que Israel tem o direito de se defender.

Com um adendo, porém: - “Deve haver justiça” (Dt 16, 20).

“Segundo nossa tradição, é preciso perseguir uma causa justa, mas só através de meios justos. Ao nos defender, devemos sempre nos basear na visão profética da convivência e da humanidade. A sobrevivência dos judeus dependerá, não apenas de sua força física, mas também da sua firmeza moral”. É apenas com esta lucidez e honestidade intelectual que o Oriente Médio poderá sair do beco escuro no qual, dia após dia, parece mais encurralado.

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