Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

 

 

 

 

por Manoela Citterio

Padre Ângelo Panigati, missionário
no Afeganistão, fala dos afegãos, de
suas esperanças e temores

povo afegão é aberto, tolerante, respeita todas as culturas que atravessaram a sua história e construíram a sua identidade. Por isso, quando leio previsões pessimistas sobre seu futuro, não estou totalmente de acordo". Quem diz isso é padre Ângelo Panigati, 80 anos, missionário barnabita, que viveu 26 anos, como único sacerdote católico no Afeganistão.

LEMBRANÇAS DO PAÍS

Padre Ângelo lembra o dia de sua despedida, antes de voltar para a Itália; lembra as cinco mil estudantes da Universidade de Kabul, onde se estudava, junto com a literatura, a poesia, o pensamento filosófico e religioso do país, as línguas clássicas, como o grego e o latim.

"Como sacerdote católico nunca tive problemas, sempre fui respeitado até a chegada dos russos. Podia me locomover pelo país todo sem dificuldades e havia um ambiente de respeito. Como capelão da comunidade internacional, minha tarefa era dar assistência a técnicos e voluntários ocidentais que trabalhavam em vários lugares do país.

Com o passar dos anos, ganhei também a confiança dos afegãos, que me convidavam para ir às suas casas. As mulheres me recebiam sem o véu e me falavam de seus problemas". Ele morava nas dependências da única igreja católica do país, que se encontrava na embaixada italiana.

O clima de tolerância que padre Ângelo descreve parece um sonho esquecido diante das tragédias e sofrimentos que o povo experimentou, desde a ocupação soviética nos anos 80. A invasão russa durou mais de uma década e deixou mais de um milhão de mortos numa população de 17 milhões. Dizem que ainda há mais de dez milhões de minas semeadas nas montanhas e nos vales e muitos afegãos ficaram mutilados por terem pisado nelas.

Com essas tragédias, um terremoto em 1999 e mais o governo fundamentalista dos talibans, a história do país que procurava se modernizar parou e, após os bombardeios americanos do ano passado, ainda está longe a volta à normalidade. Na situação atual, será que ficou alguma coisa da tolerância e do respeito que padre Ângelo encontrou nos seus tempos?

Padre Ângelo conta que, antes da guerra "no Afeganistão, havia diferentes culturas e correntes religiosas que conviviam no respeito e em paz. Os sunitas participavam das festas dos xiitas e vice-versa. A guerra, porém, despertou nas sete diferentes etnias, um desejo de poder que será difícil administrar e que poderá provocar rivalidades políticas e mortes".

Havia um diálogo entre o islã e o sacerdote: "Sabiam que eu era sacerdote católico, porque estava escrito no passaporte, mas os muçulmanos me respeitavam e até me beijavam a mão com deferência, porque diziam que eu era homem de oração".

Muito respeitadas eram as quatro freiras - duas francesas, uma suíça e uma japonesa, das Pequenas Irmãs de Jesus - por causa do trabalho e da assistência que davam ao povo. Durante o período dos talibans, embora fossem mulheres e estrangeiras, além de receberem a permissão de continuar seu trabalho de assistência, não foram submetidas às restrições a que foram obrigadas todas as mulheres afegãs.

Muitas vezes, os muçulmanos pediam para que rezássemos por eles e pela paz. Os afegãos, quando rezam, não pedem favores para si, mas somente louvam a Alá, agradecem e se dispõem a fazer a sua vontade. Eles sabiam que nós, cristãos, chamamos Deus de Pai, prática não comum entre eles". De fato, segundo o Alcorão, "pai" não está entre os 99 nomes de Deus. Esta é a esperança do povo afegão, muito provado nos últimos vinte anos: que chegue a paz.

No Afeganistão, a guerra terminou, mas continuam a guerrilha, a seca, a fome, e os pais chegam a vender ou alugar os filhos para a sobrevivência de ambos.

Perseguido pela miséria e pela fome, péssima conselheira, Aktar Mohamed, primeiro, vendeu os animais, depois os tapetes e os móveis da casa e, enfim, se convenceu de que a única coisa a fazer era cumprir um gesto desesperado, no qual nunca teria pensado, mas bastante comum na tradição do país.

Levou dois dos dez filhos ao bazar da cidade mais próxima e trocou-os por alguns sacos de cereais. Os meninos tinham dez e cinco anos. Aktar chora a troca, mas, diante da fome e do futuro assegurado para os dois filhos, se consola: "Pelo menos eles irão sobreviver... nós ainda passaremos muita fome".

Nos últimos anos, a fome tem sido grande no Afeganistão. Depois de quatro anos de seca e de guerra, o povo não tem nada mais para comer a não ser espinafres silvestres e outras ervas amargas que se tornam comestíveis somente após longa fervura. Para muitos, especialmente para os moradores das montanhas, não há outra comida. As famílias famintas venderam tudo o que podiam, pedem esmola, e a última saída é vender ou trocar os filhos para sobreviver.

Depois dos bombardeios americanos, grupos humanitários tentam saciar a fome do povo e, apesar do último inverno ter sido bem rigoroso, a penúria não foi tão devastadora como se previa. Como diz um triste ditado local, a fome deixou milhões de pessoas "perto dos túmulos, mas ainda não dentro".

Em situações como essas, as pessoas estão sempre em perigo. "Nós fizemos tudo o que podíamos para reduzir as perdas de vidas humanas", declarou Alejandro Chicheri, porta-voz do Programa Mundial de Alimentação da ONU. Foram distribuídos alimentos a mais de 6 milhões e meio de afegãos e usados todos os meios possíveis: caminhões, camelos, burros.

Embora houvesse todo um esforço internacional, é difícil saber o número exato dos mortos pela fome, tendo em vista situações bem peculiares: estradas precárias, aldeias espalhadas em altas montanhas nevadas e as doenças que a fome deixou atrás de si.

O acesso a certos lugares é quase impossível: há aldeias nas montanhas que ficam isoladas vários meses ao ano, a outras se consegue chegar somente após dias de viagem no lombo de burros: "São pessoas prisioneiras no interior do próprio país", diz Hamed Idrees Rahamani, da Comissão Internacional de Assistência.

Quem vende e quem compra

Diante dessa situação dramática, o que mais preocupa os pais é o futuro dos filhos. Assim, impotentes diante da morte quase certa pela fome, preferem vendê-los ou alugá-los a quem possa mantê-los vivos, embora fazendo-os trabalhar duramente. Os acordos podem ser diferentes, mas, na realidade, o menino é vendido em troca de dinheiro ou de alimentos.

Mohamed Aslam explica como comprou duas crianças de 13 e 11 anos, alguns anos atrás: "A família deles estava numa situação horrível e eu precisava de ajuda para o meu restaurante; assim contratei com o pai, por cinco dólares mensais, duas crianças.

O pai estava disposto até cedê-los gratuitamente, em troca da promessa de que fossem alimentados, mas aceitou o dinheiro por causa de sua extrema necessidade". Aslam fala do fato sem constrangimento, como se fosse o benfeitor das duas crianças. "É mais barato comprar os meninos que alugá-los. Até que podia obtê-los de graça, mas sei que sou obrigado a pagar uma certa quantia de dinheiro. Depois de dois anos, parei de pagar o aluguel deles e os meninos agora são de minha propriedade e para sempre".

Aktar Mohamed conseguiu um contrato melhor: pela criança maior, obteve 21 quilos de grãos por mês e, pelo menor, a metade; o contrato terá valor por seis anos. Naturalmente, a situação das crianças é triste: trabalham duro como escravos legalizados, e sentem-se humilhados e privados da adolescência. Sher, o maior dos filhos vendidos de Aktar desabafa: "Me sinto mal por ter sido vendido. Chorei e continuo chorando, mas entendo que era necessário que meu pai me vendesse". Ele era a salvação da família.

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