Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

Nem tudo melhora
debaixo do céu da
China

A mídia internacional realça os grandes
progressos comerciais que a China
está realizando após as mudanças do governo
Jiang Zemin. Os fatos são inegáveis,
mas permanecem ainda inalteradas as
políticas persecutórias contra os direitos
humanos e a liberdade religiosa

por Bernardo Cervellera

A Internet na mira
da censura político-religiosa

China montou uma censura, a “mais vasta e dispendiosa de todos os países do mundo contra os sites de conteúdo religioso baseados no exterior”. Quem denuncia é o grupo cristão de informação Online, Forum 18, com sede na Noruega, cujo rastreamento durou dois meses. Os órgãos políticos chineses desencadearam um rigoroso e metódico controle da rede internacional, em particular sobre os sites que retratam a perseguição sobre grupos cristãos e sobre outras minorias na China.

O governo justifica o controle, argumentando implicações de ordem política e o comprometimento da estabilidade social. A pesquisa foi feita entre maio e julho de 2004 – inclusive no dia 4 de junho, 15.º aniversário da repressão aos jovens na praça Tiananmen –, verificando o acesso à internet em todo o território chinês. O dispositivo do governo Golden Shield Firewall bloqueou todos os sites que se referiam às perseguições aos católicos e protestantes, ao Dalai Lama, ao movimento religioso do Falun Gong, às minorias muçulmanas.

Entre os bloqueados havia o site da AsiaNews, e vários sediados nos Estados Unidos. Também ficou bloqueado o site islâmico do Hizb-ut-Tahrir, “partido da libertação”, que pretende instaurar um califado islâmico no mundo inteiro. Sob controle, estariam também os motores de pesquisa Google e Yahoo, tanto em inglês como em chinês. São tolerados alguns sites religiosos considerados “não nocivos” ao sistema chinês. Entre os católicos, estão sendo tolerados o do Vaticano (www.vatican.va) e o da agência Fides (www.fides.org), que haviam sido bloqueados em 1998, quando foi lançada a versão chinesa.

Na ocasião, o governo chinês acusara o Vaticano de querer interferir nos assuntos internos, inclusive religiosos, da China. É possível navegar em sites que trazem apenas textos e escrituras sagradas das várias religiões, como também nos que apresentam a imagem positiva do país, quanto à sua situação religiosa, ou que denunciam perseguições religiosas que acontecem, porém, fora do país. Na tentativa de monitorar o conteúdo de sites que desagradam ao regime comunista, foi lançada uma campanha estatal que convida os usuários da internet a denunciarem os sites declarados ilegais.

A censura à internet, cuja utilização não pára de crescer, é o mais amplo controle dos meios de comunicação exercido pelo atual governo chinês.

Theresa Ricci (AsiaNews)

s Igrejas cristãs e suas ações continuam sob a tradicional política persecutória chinesa. “É a velha linha política de Jiang Zemin, que reafirma um rígido controle sobre a vida da Igreja; o medo de contatos com o exterior; o elogio da autonomia, que significa escravidão à ideologia do partido”. Assim fontes eclesiais de Hong Kong avaliaram as conclusões do Encontro Nacional dos representantes católicos da Associação Patriótica (AP), ocorrido entre os dias 7 e 9 de julho de 2004.

(Leia o anexo: “As Igrejas Paralelas da China: oficial e subterrânea”).

Do encontro, realizado num hotel de Pequim, participaram 356 representantes de 31 províncias chinesas, pelo menos. Entre os participantes, apenas 40 bispos e uma dezena de sacerdotes e irmãs. Um número reduzido para avaliar as votações da maioria presente, isto é, dos representantes das APs provinciais, às vezes ateus declarados e convictos. A partir do atual governo, a China tornou-se partidária do progresso econômico e da abertura política ao Ocidente, mas sua atitude em relação às religiões permaneceu a mesma da época anterior, a era restritiva de Jiang Zemin.

De concreto, o Encontro Nacional confirmou o bispo da Igreja oficial Michel Fu Tieshan, para a presidência da Associação Patriótica e Liu Yuanren, como presidente do Conselho dos Bispos Chineses (CBC). Na vice-presidência da AP foi mantido o leigo Antônio Liu Bainai. Durante três dias, repetiram-se os discursos de sempre: a independência e a autonomia da Igreja católica chinesa em relação à Igreja de Roma; a gestão democrática das decisões e a preparação de novas lideranças em vista do futuro.

A gestão democrática requer comissões em todos os organismos eclesiais, bispados, paróquias, conventos. Seus membros, às vezes leigos filiados ao partido, devem votar e aprovar a nomeação de bispos e de párocos, o currículo escolar dos seminários e a administração econômica das dioceses e das paróquias. Normalmente, tais comissões respondem mais aos interesses políticos do partido do que aos ideais da Igreja. Embora se enalteça verbalmente o princípio da autonomia, o partido continua controlando severamente a rotina diária da Igreja.

Jia Qinglin, proeminente membro do Comitê Permanente do Politburo (órgão político do governo), discursou em defesa da “auto-eleição e auto-ordenação como métodos soberanos para a eleição dos bispos”. Tal insistência, porém, intensifica o mal-estar reinante, porque, cada vez mais, até os bispos da Igreja patriótica insistem na sagração, somente através da aprovação vaticana. Além disso, entre eles cresce a defesa da liberdade religiosa individual, frente às ingerências do governo, e também consideram suas eleições como atos eminentemente religiosos e, portanto, sem as tradicionais interferências políticas.

Fontes eclesiais de Hong Kong comentaram: “Esta liderança que reafirma o controle do governo não percebe que a Igreja e a sociedade chinesa já andam por caminhos próprios. As conclusões deste Encontro são os últimos estertores de um stalinismo agonizante”. Entre outras discussões, uma foi sobre a manutenção financeira das igrejas. Pela primeira vez, evidenciaram-se várias modalidades de autofinanciamento da Igreja católica patriótica, através de aluguéis de propriedades, doações e subsídios do governo.

Mas não se chegou a discutir sua gestão financeira, cuja administração é controlada pelas Associações Patrióticas e, portanto, freqüentemente submetida ao estilo corrupto, corriqueiro em anos atrás. Esvaeceram-se as esperanças de que os novos governantes, em luta contra a corrupção, liberem a Igreja das correntes da desastrosa Associação Patriótica.

As Igrejas paralelas da China: oficial e subterrânea

Igreja oficial está sob o controle do Estado. Através da Associação Patriótica (AP), o governo decide sobre a nomeação de bispos, ordenação de sacerdotes, lugares de culto, publicações, contatos com o exterior e administração. A AP é uma organização leiga que, segundo seu estatuto, deseja construir uma Igreja autônoma e separada de Roma.

A Igreja não oficial (ou subterrânea) surgiu para salvaguardar a ligação com Roma e afirmar a plena liberdade religiosa, garantida teoricamente pela Constituição. Conta com 49 bispos. Ultimamente, muitos bispos “oficiais” (80-85%) pediram, em segredo, a reconciliação com a Santa Sé, o que faz crescer a unidade entre ambas.

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