Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - Ásia
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A imagem de que o governo chinês mantém o poder firme-mente em suas mãos pode-ria não estar totalmente correta. Já começam a aparecer sinais de alguma fraqueza mal disfarçada por Alberto Garuti
CRÍTICAS E AUTOCRÍTICAS Na véspera do XVI Congresso do Partido Comunista Chinês (Pcc), Bao Tong, um político que passou sete anos na cadeia por suas idéias liberais, mas que é muito estimado no país e nos ambientes mais progressistas do partido, desafiou publicamente o presidente Jiang Zemin. Ele escreveu, na conceituada revista Far Eastern Economic Revue, um ensaio onde se diz convicto de que chegou, para o país, o tempo do multipartidarismo, da democracia, da liberdade de associação, de palavra e de imprensa e que o estado não deve continuar sendo o dono das pessoas. Os membros do partido têm os olhos obcecados e o coração
corrompido pelo desejo de sucesso. Para Bao, o Partido já não
consegue representar nem os operários, nem os camponeses, nem os
estudantes nem o mundo da cultura. OS DECEPCIONADOS NA CHINA São muitos os que não esperam mais nada do Partido. Justamente as mesmas categorias sociais que tinham representado grande parte de seu sucesso, são agora o foco do maior descontentamento. Os operários - Ninguém pode jamais usar o termo "desemprego". Notícias sobre fechamento de fábricas, greve e manifestações de trabalhadores são censuradas. Os sindicatos são considerados "divisão dentro da classe operária" e as greves devem ser reprimidas, até com intervenção armada. Os camponeses - Mao prometeu aos camponeses a posse da terra onde trabalham. Até hoje, eles, além de não possuírem a terra, têm que permanecer nela, com residência obrigatória. Quem for para a cidade é perseguido como criminoso andarilho. Só os chefes do Partido podem vender terras, arrendá-las, enriquecer. Os estudantes - O descontentamento que manifestaram terminou com o massacre da praça de Tiananmen.
HAVERÁ MUDANÇAS NA CÚPULA DO PARTIDO? Entre outubro de 2002 e março de 2003, mudanças deverão ser realizadas nos altos escalões da política chinesa. Por ocasião do XVI Congresso do Partido Comunista (outubro de 2002), Jiang Zemin deixou o cargo de presidente e de secretário do partido. No mês de março de 2003, durante a Assembléia Nacional do Povo o primeiro ministro, Zhu Rongji, deixará seu cargo, seguido pelo ministro Li Peng, atual presidente da mesma Assembléia. Tudo isso, em tese, deveria acontecer. E muitos esperam que aconteça e que signifique mudanças não somente de nomes que se revezam nos altos cargos do partido, mas que as mudanças signifiquem abertura à democracia. Mas há temores. Como disse um camelô de Beidaihé, entrevistado por um jornalista: "Ninguém deixará o poder. Na política chinesa isso é impossível: os líderes se retiram somente quando são obrigados". Vozes de bastidores, com efeito, já dizem que Jiang Zemin quer ficar para garantir a estabilidade; Li Peng quer ser nomeado presidente da república (para evitar vinganças em fim de mandato) e o sucessor, já designado, do primeiro ministro Zhu Rongji está sendo considerado excessivamente liberal. Os sinais que fazem pensar que há uma ação descontente com o rumo da política chinesa são muitos. Um deles, além dos já vistos, é o aumento de interesse do povo pela religião, apesar de todos os obstáculos criados pelo governo. O DESPERTAR DAS RELIGIÕES Qual é o maior fracasso da política chinesa durante 50 anos de comunismo? Alguém poderia pensar que foi o Grande Salto Para Frente, idealizado por Mao Tsetung, que deixou 30 milhões de mortos por causa da fome. Outros poderiam pensar que foi a famosa Revolução Cultural dos anos sessenta, com todo o caos social que causou. Mas, o maior fracasso foi, e continua sendo, a política religiosa do Partido Comunista. Há mais de 50 anos o Pcc vem apregoando o fim iminente de todos os cultos religiosos, mas a realidade é exatamente o contrário: o número das pessoas filiadas a qualquer confissão religiosa continua crescendo cada vez mais. Se considerarmos também as pessoas que, vez por outra, freqüentam alguma igreja ou templo, poderíamos concluir que pelo menos 60% da população chinesa permanece, de alguma forma, ligada a alguma religião. Isso causa admiração, especialmente se pensarmos que há 50 anos está acontecendo, naquele país, um verdadeiro bombardeio sistemático contra as religiões em geral, feito de propaganda maciça em prol do ateísmo, de campanhas anti-religiosas, de perseguição, torturas e condenação à morte de pessoas que seguem religiões que não sejam oficiais, "de Estado". Como conseguiu sobreviver o espírito religioso nestes últimos 50 anos? Muitos pensam que seja devido à força da família chinesa - que compreende o respeito aos anciãos, que educaram as jovens gerações para a fé, e à relação que os chineses têm com os antepassados - que representou um verdadeiro escudo contra o ateísmo e o materialismo do Partido. Os chineses, hoje, estão decepcionados com um partido que prometeu muito no passado, mas que está agora descambando para a corrupção, a violência gratuita e os privilégios. Não é difícil encontrar antigos Guardas Vermelhos, decepcionados com os atuais chefes e com os rumos que o Partido tomou, aproximando-se das religiões tradicionais ou da religião cristã para encontrar paz e harmonia. O presidente Jiang Zemin, para ligar ainda mais o Partido à sociedade, sugeriu que não somente os capitalistas, mas que também os que crêem em Deus poderiam tornar-se membros do Pcc. Num discurso feito não muito tempo atrás, sugeriu que "as religiões existirão no socialismo ainda por muito tempo". E, mesmo que tenha lembrado os princípios ateístas do Partido, acrescentou: "Pedir às religiões que se adaptem ao socialismo não significa pedir ao pessoal religioso e aos que acreditam que abandonem sua fé". Contemporaneamente, Pan Yue, vice-diretor do Departamento estatal pelas reformas estruturais, pediu com energia que o Partido abandone a visão marxista da religião como de ópio do povo". São, esses, sinais de fraqueza de um governo que já foi todo-poderoso e que agora tenta ceder no que pode para manter controle e poder. |
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