Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

CHINA:
UMA IGREJA NA
ENCRUZILHADA

DEPOIS DE TRINTA ANOS DE PERSEGUIÇÃO, OS CATÓLICOS DA CHINA
VIVEM UM DILEMA: TENTAR ALGUMA APROXIMAÇÃO COM O
GOVERNO QUE,APESAR DE ALGUMA MUDANÇA CONTINUA O MESMO,
OU PERMANECER NA CLANDESTINIDADE.
HÁ RISCO DE DIVISÕES PROFUNDAS E INSANÁVEIS

Alberto Garuti

Uma Igreja perseguida há mais de cinqüenta anos, tentativas de atrair um grande número de cristãos para o lado do governo, pessoas simples que permanecem fiéis, apesar de todas as dificuldades, mártires e, mesmo assim, o número de cristãos em contínuo aumento: estamos falando do que acontece na China. A situação é semelhante, sob muitos aspectos, ao que ocorreu no começo da história da Igreja, no Império Romano.

Excetuando o que houve em Pequim durante a revolução estudantil de 1989, o que sucede hoje na China não se encontra nas manchetes de nossos jornais. Pouco se sabe, pela grande imprensa, por exemplo, a respeito da vida religiosa na China sob o atual governo.

As informações do que ocorreu lá a partir da tomada do poder pelos comunistas em 1949, chegaram até nós através dos refugiados que conseguiram se asilar em Hong Kong, território chinês que até 1999 estará sob a administração da Grã-Bretanha, ou através de cartas ou, atualmente, através dos turistas.

OS COMUNISTAS E A RELIGIÃO

Fiel ao. ensinamento marxistaleninista, o comunismo chinês sempre considerou toda e qualquer religião como "ópio do povo", como instrumento a serviço da classe reacionária e da burguesia, que poderia tomar os pobres e oprimidos incapazes de se revoltarem contra os opressores.

A partir dessa premissa, só poderia haver uma conclusão: as religiões deviam ser combatidas. A intensidade da luta dos comunistas chineses contra as várias religiões existentes na China (Budismo, Taoismo, Islamismo, Cristianismo) variou de acordo com o grau de organização de cada religião. A lgreja Católica e as igrejas protestantes, sendo de origem estrangeira e contando com uma verdadeira organização internacional, representariam uma grave ameaça ao governo comunista e foram alvo de violentas perseguições.

O primeiro passo que o governo deu foi a expulsão de bispos, padres e religiosos estrangeiros para acabar de vez com qualquer possível influência do Vaticano e do exterior, em geral, na Igreja chinesa. Três ou quatro anos depois da tomada do poder pelos comunistas, não havia mais missionários estrangeiros na China, com exceção de alguns que tinham sido condenados e que estavam presos, Mais tarde, estes foram libertados e a seguir expulsos.

Quanto aos fiéis chineses, o governo proclamou a liberdade de religião e, ao mesmo tempo, a liberdade de combatê-Ia, caso houvesse interferência na política, críticas à ideologia ou ameaça à estabilidade do sistema.

Aparentemente, não houve graves fatos de derramamento de sangue por' causa da religião. A perseguição foi mais sutil. Em lugar do martírio sangrento, muitos cristãos, especialmente bispos, padres e"leigos engajados, tiveram que enfrentar a prisão durante. muitos anos, trabalhos forçados, cursos de doutrinação, humilhações.

A repressão foi muito forte, mas sempre se fez o possível para evitar aparecimento do "mártir" o objetivo era isolar e humilhar as lideranças. Assim, o povo sentir-se-ia cada vez mais desnorteado e sua fé acabaria se enfraquecendo.

Eliminados os líderes que achava mais perigosos, o governo, em relação à maioria dos cristãos, preferiu adotar o sistema de aliciá-Ias e atraí-los em lugar de combatê-los. Desse modo, os cristãos estariam sob seu controle e poderiam ser usados para a atuação do plano socialista. Uma vez que isso fosse realizado, a Igreja, por si mesma, perderia força e influência e, aos poucos, deixaria de existir.

Esse plano foi realizado por etapas. Inicialmente foi declarada a "Tríplice autonomia", isto é, a Igreja chinesa deveria ser independente de qualquer influência estrangeira em tudo o que se referisse à "evangelização, sustento e gestão". Começou-se a exigir que todas as entidades religiosas entregassem um relatório das contribuições recebidas do exterior, e em seguida proibiu-se qualquer relacionamento com outros países.

Por meio da declaração da tríplice autonomia, foi possível acusar os missionários estrangeiros de agentes do imperialismo: a expulsão de todos eles tinha assim uma motivação que poderia tornar-se aceitável.

CHINA

Nome oficial: República Popular da China
População: 1.150.000.000
Superfície: 9.571.000 km2
Religião: Confucionismo, Budismo, Taoismo, Islamismo e Cristianismo.

O país apresentou, na década de 1980, um crescimento anual do produto nacional bruto de quase 10%; esse crescimento em 1992 foi de 7% compatível com o da década passada, e isso reforça a tese de Deng Xiaoping que vem sustentando que "se o capitalismo tem alguma coisa vantajosa, então o socialismo deve usá-Ia". Para isso abriu o comércio com o exterior e permitiu que, em zonas especiais do país, proliferassem as empresas privadas. A abertura tem estimulado manifestações de protesto pedindo mais liberdades, como a dos estudantes na praça Tiananmen, em Pequim, em 1989.

A "ASSOCIAÇÃO PATRIÓTICA DOS CATÓLICOS CHINESES"

Outra conseqüência da "Tríplice autonomia" foi a de ter criado divisão entre os católicos: enquanto uns (padres, freiras e leigos engajados) (eram presos, "torturados, tiveram seus bens confiscados e foram condenados a longos anos de cadeia, outros, animados de fervor patriótico, colocaram-se contra os primeiros, julgando-os culpados de se terem tomado "lacaios do imperialismo".

Mas era muito importante atrair padres e bispos também para o lado dos "patriotas".

As tentativas se sucederam durante vários anos. Alguns, de fato, começaram a simpatizar com o governo. Contudo, era necessário dar uma estrutura a essa nova comunidade que estava se formando para que se pudesse ter uma "Igreja chinesa", totalmente independente de Roma.

Para criar essa "nova Igreja" era importante reduzir ao mínimo o espaço de ação da "velha".

Os cristãos que não queriam colaborar com o governo começaram a encontrar inúmeras dificuldades; as possibilidades de evangelização que bispos e padres chineses tinham eram bastante limitadas. Não lhes era possível desenvolver atividade direta de pastoral, só era permitida a celebração de missas e a administração dos sacramentos, não podiam sair de sua cidade e visitar os cristãos de cidades vizinhas, sem falar da ameaça sempre presente de prisões, cursos de doutrinação, humilhações.

Tudo isso fez com que muitos líderes começassem a perder sua influência junto ao povo. Muitos cristãos ficaram assim desnorteados, especialmente, porque apareciam novas lideranças, simpatizantes do partido, que recebiam publicamente todo apoio e estímulo das autoridades.

A situação estava se tomando madura para a criação de uma "igreja chinesa" . Uma assembléia da qual participaram 241 representantes de todas as -dioceses da China (bispos, padres, freiras e leigos), não eleitos pelo povo mas escolhidos pelo partido, foiorganizada pelo governo. Os participantes reuniram-se de 17 de junho a 2 de agosto de 1957, num hotel de Pequim, para discutirem uma pauta já precedentemente preparada.

No final dessa reunião, o "Diário do Povo", de Pequim podia anunciar o nascimento da "Associação patriótica dos católicos chineses", que deveria ter estas finalidades:

  • ser estritamente ligada ao partido;
  • empenhar-se em fazer com que a Igreja Católica marchasse no caminho para o socialismo;
  • ser totalmente independente , autônoma e autogerida;
  • aceitar a orientação política do partido comunista chinês.

Um último passo foi dado nas reuniões que se sucederam nas grandes cidades e nos centros importantes: a aprovação de uma moção que estabelecia que a eleição dos bispos fosse feita por representantes de cada diocese, independentemente da Santa Sé.

No ano seguinte, a 27 de junho de 1958, a encíclica "Ad apostolorum principis", de Pio XII condenou a "igreja patriótica" e as eleições ilegais dos bispos.

O que caracterizou desde o começo essa Igreja foi o total desligamento do Papa e da Igreja Universal, não havendo sinais de outros desvios doutrinais.

Uma conseqüência desse confronto com a Santa Sé foi o fortalecimento da "igreja clandestina" formada por bispos, padres e cristãos que quiseram permanecer fiéis à Igreja Católica e ao seu pastor supremo.

1966 : A REVOLUÇÃO CULTURAL

Os acontecimentos dos anos seguintes estimularam ainda mais o desenvolvimento da igreja clandestina.

Em 1966 teve início a "revolução cultural" levada a efeito pelos guardas vermelhos.

Ela visava destruir as "quatro velharias": as velhas idéias, a velha cultura, os velhos costumes e as velhas tradições das classes opressoras.

As religiões também, de acordo com os revolucionário, entravam nessas categorias. Igrejas, templos e residências foram invadidos e despojados de qualquer objeto que lembrasse religião. As igrejas foram transformadas em laboratórios, escolas ou depósitos.

Ao mesmo tempo, o comunismo se tomava a nova religião, com sua "Bíblia" (o livro de Mao), suas imagens (o retrato de Mao), seu próprio ideal de salvação.

De 1966 a 1976, dez anos de "revolução cultural" empurraram a totalidade dos cristãos, tanto os da igreja patriótica como os da clandestina, de volta aos tempos das catacumbas: os guardas vermelhos de "Mao fecharam todos os lugares de culto e enviaram para a prisão ou para os campos de trabalho a maior parte dos padres, religiosos e leigos engajados. Os cristãos começaram a se reunir nas casas particulares, mas foi preciso esconder os livros, as imagens e todos os objetos religiosos, Os pais chegavam até a temer que os próprios filhos, mesmo os filhos pequenos, os denunciassem. A revolução cultural tentou eliminar Qualquer sinal de religiosidade e não respeitou nem a "igreja patriótica".

1976: RENASCE A ESPERANÇA

Depois da morte de Mao, o regime permitiu certa liberdade. As igrejas foram abertas de novo, muitos padres e leigos que estavam presos conseguiram a liberdade; entre 1978 e 1979, a maioria dos padres voltou às suas dioceses.

Pensava-se que o ministério pudesse, doravante, ser exercitado em total liberdade, mas Deng Xiaoping, o sucessor de Mao, foi bem claro, definindo, para os anos vindouros, os quatro princípios intocáveis sobre os ,quais estava fundado o regime:

  • socialismo;
  • liderança do partido;
  • ditadura do proletariado;
  • marxismo-leninismo-maoismo

Por trás de uma fachada de liberdade, somente a Associação patriótica dos católicos chineses saía fortalecida.

Os cristãos fiéis ao Papa tinham que voltar à clandestinidade, mas começavam a sentir-se cansados, sozinhos e sem pastores. Trinta anos tinham-se passado desde o advento dos comunistas: muitos bispos e padres haviam morrido de doenças, velhice ou, simplesmente, não tinham conseguido sobreviver aos sofrimentos do cárcere. Foram lançados apelos a Roma pedindo bispos e padres.

Diante da situação, a Santa Sé concedeu amplas faculdades aos bispos a ela fiéis para nomearem e consagrarem o próprio sucessor, é até para escolherem os pastores das dioceses vizinhas já sem bispos. Roma fez votos para que essas faculdades fossem utilizadas com grande prudência, mesmo porque a diplomacia vaticana estava tentando chegar a um acordo com o governo chinês.

É preciso reconhecer que nem sempre as escolhas feitas foram felizes; em alguns casos até; mais de um bispo foi consagrado para a mesma diocese. Mas a igreja clandestina conseguiu sobreviver.

1988-1989: AUMENTAM AS PERSEGUiÇÕES E A CLANDESTINIDADE

Nos anos pós-Mao, aconteceu na China o que acontecerá mais tarde na Rússia após a queda do regime: um acentuado interesse pelas religiões, inclusive pela religião católica, e uma certa saturação e alguém desinteresse pela ideologia. Por exemplo, no distrito de Handan, onde existem somente 270 aderentes ao partido, nos últimos anos, 870 pessoas se tornaram católicas.

Se considerarmos o país inteiro, podemos chegar às mesmas conclusões. O número de cristãos teria aumentado consideravelmente, apesar das perseguições. Os três milhões e meio de fiéis de 1949 seriam agora, de acordo com Dom Paul Shan, bispo de Kaohshiung (Taiwan), 13 ou até 15 milhões: de 7a 10 da Igreja clandestina e 5 da patriótica.

Segundo uma estimativa menos otimista da agência "Asia News", o número de católicos seria pouco mais que o dobro do que era no início da República Popular.

Os oito milhões de católicos estariam assim divididos: quatro com a Igreja clandestina e quatro com a patriótica.

Mas, apesar das aparências, na China, após a morte de Mao, o partido continuou firne no comando, embora tenha afrouxado um pouco os controles e a disciplina, se compararmos os anos 80-90 com a época do "grande timoneiro" .

O crescente interesse e a procura pela religião, e pela igreja clandestina em particular, fez com que o regime retomasse as proibições e recomeçasse uma verdadeira e sistemática perseguição contra tudo o que se fazia fora do esquema da igreja patriótica. Poderíamos assim dizer todo apoio era dado à igreja patriótica, em quanto a clandestina era perseguida.

Uma das proibições mais recentes foi a de não permitir aos estrangeiros, que agora podem visitar a China, qualquer contato com o cristãos clandestinos. Nem Card. Sin, arcebispo de Manila, Filipinas, conseguiu a permissão para visitar os cristãos de Xianxian, onde se encontram as famílias de muitos padres de origem chinesa que Tabalharam em sua diocese. Visitar os clandestinos pode ser, agora, um gesto que põe em risco não tanto os estrangeiros, mas os cristãos que são visitados. Muitas prisões nos últimos tempos, foram realizadas sob a única acusação de as pessoas presas terem tido contatos com estrangeiros.

As prisões de cristãos da Igreja clandestina tomaram-se mais freqüentes ainda nos últimos anos, depois da repressão da revolta dos estudantes na praça Tiananmen em Pequim, em 1989. Nesse mesmo ano, por ex., os bispos em comunhão com o Papa reuniram-se para fundar a "Conferência Episcopal Chinesa" todos os participantes da reunião, mais de vinte bispos, foram presos.

MAIOR LIBERDADE PARA OS "BONZINHOS"

A repressão agora, como dissemos, tem como alvo somente os clandestinos. Os outros cristãos, mesmo que não estejam diretamente ligados à igreja patriótica, uma vez que manifestem certa simpatia pelo governo, gozam de algumas facilidades divulgadas publicamente pela imprensa oficial, a fim de isolar cada vez mais os cristãos que preferem permanecer independentes.

Cerca de vinte seminários foram abertos, com a autorização do governo, depois de 1983 e neles entraram 700 a 800 estudantes sendo que entre eles, 200 já foram ordenados sacerdotes. Igrejas foram reabertas, santuários puderam ser construídos, como uma basílica na Mandchuria que os católicos fizeram baseados num cartão postal da basílica de Lourdes. O próprio governo está financiando a reconstrução de todas as igrejas que foram destruídas durante a revolução cultural, à condição que a comunidade que as freqüente pertençam à Igreja patriótica.

Mas essa liberdade aparente tem uma contrapartida política. Os cristãos acabam fazendo o que o governo quer. Por ex., foram organizadas várias reuniões de oração para agradecer a vitória das forças governamentais sobre os estudantes na praça Tiananmen em Pequim, e foram recolhidas contribuições de católicos para ajudar as famílias das vítimas.

Engana-se quem pensa que sejam as famílias dos estudantes mortos: foram ajudadas as famílias dos guardas que morreram reprimindo as manifestações estudantis.

O PERIGO DAS DIVISÕES NA IGREJA

Poderíamos chegar à conclusão que na China existe uma Igreja clandestina, organizada e fiel ao Papa, que se contrapõe a uma Igreja oficial quase cismática. Entretanto seria uma visão incorreta da situação. A maioria dos analistas reconhece que existe, um grupo intermediário que não é nem patriótico nem clandestino, que pratica sua religião abertamente e não recusa a autoridade do Papa. A situação apresenta nuanças dificilmente compreensíveis ,para quem não conhece a mentalidade e a cultura chinesa.

Existem clandestinos oficialmente reconhecidos pelo governo e patrióticos clandestinamente aprovado por Roma. Mas existem também clandestinos que recusam, terminantemente, qualquer contato com o governo e com os patrióticos e patrióticos abertamente em contraste com Roma e que sustentam uma Igreja totalmente nacional e independente.

O grupo intermediário seria formado por comunidades de católicos das grandes cidades que procuram certo acordo com as autoridades civis sem, por isso, sentirem-se na obrigação de fazer parte da Associação patriótica, e por bispos e padres que, mesmo mostrando alguma simpatia pelo governo, procuram dar a suas dioceses e paróquias uma orientação compatível com a doutrina católica.

A isso acrescente-se o fato que, dos 60 bispos eleitos democraticamente, cerca de vinte já teriam conseguido, muito discretamente, a aprovação por parte de Roma, antes ou depois da consagração. Assim noticiou o jornal "La Stampa", de Turim, do 19 de setembro de 1991, que citou, como fontes da notícia, eclesiásticos muito influentes e ligados ao Vaticano.

O que preocupa é a oposição, o abismo que separa os dois grupos mais radicais, isto é, os clandestinos e os patrióticos.
Os primeiros são, aqueles que sofreram as duras prisões e a oposição dos guardas vermelhos por causa de sua fidelidade à doutrina católica. Eles não querem meio-termo nem compactuar com os que consideram traidores. Acusam os patrióticos de heresia e relaxamento moral e não admitem a possibilidade de nenhuma forma de diálogo com eles.

Os cristãos clandestinos não apreciam muito nem dos cristãos do "grupo intermediário": julgam terem sido traídos pela presença e pelo contínuo aumento desse grupo que lhes parece compactuar como patriótico. A Santa Sé foi mais compreensiva a respeito do assunto: em um documento de 1988, já a firmava que não pode haver Igreja Católica sem união com o Papa, mas, ao mesmo tempo, deu a entender que pessoas que adotam posições erradas, freqüentemente, são vítimas de pressões insuportáveis e que precisam, portanto, de muita compreensão. O documento, dessa forma, não condenou ninguém.

Os outros, os patrióticos, também são rígidos em suas posições: chamam os clandestinos de exaltados, fanáticos, atrasados culturalmente, dizendo inclusive, que praticam ritos e cerimônias que beiram a superstição.

Há quem veja na tolerância do grupo intermediário, por parte do governo, uma tática comunista para isolar'e enfraquecer ainda mais o grupo clandestino e poder dar, em seguida, o golpe de misericórdia à Igreja da China.

Essas não são dificuldades que possam ser solucionadas de um dia para o outro. Existem preconceitos, rancores, lembranças de sofrimentos passados e falta de informações, numa sociedade que quer se abrir ao mundo mas que continua, inexplicavelmente, fechada em si mesma. É preciso tempo, paciência, vontade de compreender.

Enfim, de uma situação de perseguição generalizada teríamos passado à situação atual em que somente um grupo continua sendo perseguido e em que a maioria se pergunta: que posição tomar? Qual o futuro da Igreja na China?

O que está sendo feito?

A resposta a essas perguntas depende tanto de fatores internos como de fatores externos.

A atual situação política chinesa parece transitória. Não é muito provável que se possa manter durante muito tempo uma rígida ideologia marxista com uma economia que se encaminha para se tomar uma economia de mercado. Isso deixa supor que o atual isolamento da China, por trás de sua grande muralha, poderá terminar e com isso abrandar-se-á o extremado nacionalismo que deitou suas raízes até na Igreja Católica Chinesa.

Maiores contatos com o mundo externo poderão ajudar os chineses a rever certas posições radicais. Os próprios católicos chineses, tanto clandestinos como patrióticos, ainda que sempre receosos de uma intromissão estrangeira, pedem orientações diretivas claras, pois se sentem perdidos.

Existem grupos que, fora do país, tentam ajudar os chineses. Um desses grupos é formado pelos responsáveis pelo "Serviço China", isto é, pelos representantes de vários Institutos (Jesuítas, Franciscanos, Padres do Verbo Divino, das Missões Exteriores de Paris, do ,PIME), que, no passado, marcaram sua presença missionária no país, e que agora se reúnem periodicamente em Hong Kong para estudar a situação e a possibilidade de fornecer material para a formação teológica, a transmissão de informações e a organização de visitas. Trata-se de um grupo aberto que está em contato com a Igreja da China, tanto a clandestina como a patriótica.

Existe outro grupo de padres chineses que trabalham no exterior e que se reúne, periodicamente, em Hong Kong, Taiwan, Cingapura ou nas Filipinas, para recolher informações sobre a Igreja na China, enviar informações e material de todo tipo a fim de ajudar os católicos chineses no trabalho pastoral.

Existe também um grupo com cerca de 100 membros, entre padres e religiosos estrangeiros que se encontra na China não oficialmente como missionários, mas aparentemente como leigos, exercendo diferentes profissões, cuja missão principal é a de enviar para fora informações do que acontece lá dentro e de ajudar a Igreja local no que for possível. Em todo caso eles são um sinal da Igreja que quer estar presente em todas as partes do mundo.

A SANTA SÉ E O GOVERNO CHINÊS

Alguns passos foram dados pela diplomacia vaticana, tentando melhorar as relações oficiais entre a Santa Sé e o governo chinês.

Dia 20 de agosto p.p., o porta-voz da Santa Sé, Joaquim Navarro VaUs, informou que estão em andamento, já há algum tempo, contatos indiretos entre Roma e a China, que vêm se intensificando nos últimos anos.

Quanto ao governo chinês, há uma vontade de dialogar e, ao mesmo tempo, intransigência a respeito de dois problemas: que o Vaticano rompa definitivamente as relações diplomáticas com Taiwan (China Nacionalista) e que condene a ordenação de todos os bispos clandestinos. Tais exigências foram repetidas oficialmente dia 19 de agosto p.p., por um porta-voz do ministério do exterior chinês.

No que se refere às relações diplomáticas com Taiwan, Roma já deu um sinal de boa vontade: em lugar de nomear um núncio, enviou para lá um simples encarregado de negócios, mons. Julius Janusz. Quanto à segunda exigência, a ela a Santa Sé não pode e não quer renunciar.

PERSPECTIVAS PARA O FUTURO

Para o futuro da Igreja da China não somente é importante que o governo conceda uma real e efetiva liberdade de religião: é absolutamente indispensável, também, que as Igrejas, a patriótica e a clandestina, possam interagir e dialogar.

A revista francesa Études cita a esse respeito o parecer de um jesuíta de Taiwan, o Pe. Chang Chun-Shen. Segundo o autor, é preciso reconhecer que os bispos consagrados irregularmente estão em ruptura de comunhão com o Papa, e que por isso várias igrejas estão em comunhão incompleta com o mesmo e com a Igreja universal. O problema, espera-se, será resolvido, mais cedo ou mais tarde.
Além disso, alguns desses bispos já teriam regularizado sua situação.

Para isso não basta evitar os conflitos, evitar tudo o que possa endurecer ainda mais a situação, ou tentar dizer que existe comunhão se ela não existe.

É preciso estimular o que há de bom, crer que o Espírito Santo está presente e age, tanto na igreja "patriótica" como na "clandestina" e tentar ajudá-Ias a se entenderem.

Isso pode ser feito, diz o Pe. Chang Chun, por pessoas que estejam fora das duas igrejas, e que possam formar como que "uma igreja-ponte" entre as duas. Seria esta a igreja dos chineses que vivem fora da China, em Taiwan e em Hong Kong.

COMO VIVE UMA COMUNIDADE DA IGREJA CLANDESTINA

A agência "Asia News" publicou, em junho de 1991, a seguinte entrevista de um padre com um católico chinês da igreja clandestina. Por motivos de segurança foram omitidos os nomes das pessoas e dos lugares.

Trata-se de um jovem de uns trinta anos, responsável por uma comunidade numa grande cidade.

A aldeia onde mora já se tomou periferia de uma grande cidade, embora conservando características rurais. Ele é o responsável pela paróquia que tem cerca de 800 batizados. A freqüência é muito alta, quase de 100%. Como vocês conseguem se reunir sem serem notados e onde encontraram uma sala para tantas pessoas?

  • Adaptamos o andar térreo de uma casa particular eliminando as paredes divisórias e construindo um altar onde conservamos a Eucaristia. De vez em quando, aparece um padre para renovar as hóstias. As autoridades se sentem obrigadas a nos tolerar, porque, de acordo com as disposições do Partido, já deveriam ter reconstruído a igreja, por eles injustamente derrubada; não o fizeram ainda porque não têm dinheiro. Como se desenvolvem as suas assembléias litúrgicas?
  • As orações da manhã aos domingos duram duas horas. Eu as coordeno.
    Desde que nosso padre foi preso, nunca tivemos outro padre residente. Rezamos todas as orações tradicionais que aprendemos na juventude: mandamentos de Deus, orações da manhã, Via Sacra, terço etc. e uma oração pelo Papa. Aos domingos temos sempre entre 700 e 800 pessoas.
    E o padre que visita vocês?
  • Todos o consideram um santo. Em toda sua vida, não teve mais que cinco anos de ministério normal, em liberdade e fora da cadeia. Não se sabe de que está sendo acusado. Está sempre a ponto de ser preso, julgado e condenado outra vez. Sua fibra e sua fidelidade nos ajudam muito. Sentimos, através dele, a presença de Deus na comunidade. Quais os maiores problemas que vocês têm em sua comunidade?
  • Antes de mais nada, faltam Bíblias, não temos nem ao menos os Evangelhos e assim as reuniões do domingo não têm leituras da Escritura. Mas Deus tem outros meios para nos dar sua iluminação e sua graça.

Outro problema é que não há catequistas para as crianças. Alguns pais conseguem instruir seus filhos porque aprenderam com seus pais.

Falando a verdade, não existe entre nós uma pessoa capaz de ensinar a verdade e não temos livros para aprender. Eu próprio não me sinto capaz de dar catecismo. Repetimos as orações decoradas e pedimos a Deus que nos ilumine na fé e na vida cristã".

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