Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - Ásia
Armênia: por Pedro Miskalo
O genocídio é um crime contra a humanidade
porque consiste em destruir total ou parcialmente um grupo nacional, étnico,
racial ou religioso, não pelo que ele fez, mas pelo que ele é.
Ele é a plenitude do crime de Estado, visto que só um governo
tem meios para atuar em esquema tão destrutivo. Articula-se de
maneira organizada para aniquilar ou submeter populações
a condições infra-humanas de sobrevivência. O totalitarismo
sempre impede de ser aquilo que se é; é a negação
do direito a uma identidade própria. A profunda cultura cristã de um pequeno país A Armênia, pequeno país (menos de 30.000 Km2), ponte entre a Europa e a Ásia, sofreu, durante séculos, todo tipo de agressões por parte dos vizinhos poderosos. Persas, árabes, bizantinos, turcos e russos invadiram o país. Perseguiram, destruíram e ocuparam. As provas de fogo fortaleceram a identidade nacional de seu povo. Desde o quarto século, até hoje, os armênios contaram com o forte apoio da Igreja, que se identificou intensamente com sua nacionalidade. Ao chegarem, a Bíblia, os Padres da Igreja e outras obras litúrgicas compuseram de tal modo a identidade cristã do povo, que os invasores persas afirmariam posteriormente: “A fé cristã é a cor da sua pele e não simples roupa sobre o corpo”. Seu povo constitui a mais coesa comunidade cristã da região. Holocausto Desde fins do século 19, a minoria armênia da Anatólia estava na mira dos turcos, interessados em criar um Estado nacionalista. Ao nacionalismo extremado (base étnica) somava-se a tendência para impor o islã (base religiosa) a fim de eliminar outras religiões. Católicos romanos, caldeus, sírio-ortodoxos, nestorianos, sírio-católicos e protestantes seriam as vítimas. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) propiciou o movimento. A ideologia nacionalista do triunvirato (Talaat, Enver, Djemal) do governo dos “Jovens Turcos” negou aos armênios a possibilidade de existirem como súditos otomanos e como armênios. Em 1915, soldados turcos convenceram o povo armênio de que a guerra iria chegar à sua porta e, portanto, ele deveria abandonar suas terras. Ameaçavam: “Vocês têm cinco dias para vender suas casas e seus bens, a fim de retirar o dinheiro para satisfazer suas necessidades no lugar onde irão morar”. No caminho, os mais ricos eram espoliados e massacrados. Abandonados no deserto da Síria, nus e sem mantimentos, morriam de inanição. O relato dramático de Jacques Rhetoré, missionário dominicano, retrata a tragédia: “Era como o inferno: calor insuportável e sede impossível de ser aplacada. Muitos, sobretudo as crianças, morriam pelo caminho. Os soldados impunham marcha forçada ao cortejo, que as pessoas frágeis ou debilitadas não podiam suportar. Então, sobre elas choviam golpes; os retardatários eram reagrupados na estrada para formar novos cortejos. O caminho estava cheio de cadáveres e o restante fora roubado pelos curdos, autorizados a fazer qualquer coisa com os deportados”. Os que permaneceram, forneciam armas e mantimentos aos soldados, à espera de segurança. Assim que conseguiram infiltrar-se pelos lugarejos, os soldados começaram a enforcar, assassinar, violentar os que resistiam. Intelectuais, professores, médicos, escritores, formaram a primeira leva de vítimas. Em seguida, foi a vez dos mais humildes. Filas de homens foram decapitados, um a um. Mulheres, espancadas, violentadas e mortas. Crianças, quando não abandonadas à fome, eram adotadas por famílias turcas, para perderem a identidade armênia. Dois terços da população foram eliminados. Logo após a Guerra, entre 1920 e 1923, o restante da população continuou como objeto de mais massacres e expulsões. Além de impedir que os armênios mantenham viva a memória do passado, o atual governo turco não admite qualificar a tragédia como genocídio. Alega que houve exagero no número de vítimas e que se tratou apenas de uma luta, no contexto maior de guerra mundial, com vítimas dos dois lados. Porém, o cientista judeu-polonês Raphael Lemki definiu a “luta” como verdadeiro genocídio, e colocou o “crime que revolta a consciência” no âmbito da jurisprudência internacional. Segundo ele, o extermínio dos grupos nacionais deve ser perseguido em toda parte, superando as barreiras da soberania nacional. Na década de 30, já eram muitos os sinais premonitórios de que o crime seria repetido contra os judeus. E isto aconteceu em seguida. Lemki refugiou-se nos Estados Unidos e viu sua primeira vitória quando, em 9 de dezembro de 1948, a ONU aprovou o texto da “Convenção pela prevenção e repreensão ao crime de genocídio”, considerado o mais grave crime contra a humanidade. Memória Todo ano, no dia 24 de abril, a diáspora armênia recorda o Metz Yeghern, o Grande Mal, o primeiro genocídio do séc. 20 contra seu povo, orquestrado pelo governo turco no território do Império Otomano. Em muitas cidades dos vários continentes, todos os armênios se reúnem depois da Missa, ao redor de um khachkar, a cruz de pedra e grande ícone armênio, e cantam o Pai Nosso. Para eles, o Pai Nosso é o hino nacional. Em Yerevan, capital da Armênia independente, no dia 24 de abril, um milhão de pessoas desfilam para colocar uma flor ao pé da chama que arde no centro do monumento, erguido em Zizernagapert, a “colina das andorinhas”, que domina a cidade, para recordar as vítimas da tragédia. Após o silêncio da primeira geração dos sobreviventes, começa-se a levantar o véu. Intensificam-se publicações, exposições, seminários nas universidades, filmes, para dar a conhecer ao mundo o genocídio esquecido. Mais de 50 estados, quase todos europeus, reconheceram e condenaram o genocídio. “A esperança de milhões de armênios espalhados pelo mundo é que, uma vez obtido o reconhecimento oficial pelos Estados Unidos, sejam criadas as condições para o reconhecimento pelo governo turco. Assumindo a responsabilidade sobre sua história, como fez a Alemanha nos confrontos contra os judeus, a Turquia poderá dar descanso a um milhão e meio de vítimas inocentes”, afirma Pietro Kuciukian, médico de origem armênia e autor de várias obras sobre esse genocídio. |
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