Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

Os porquês de
uma guerra absurda

por Maroun Lahham

O reitor do Seminário Latino de Jerusalém revela elementos esquecidos do conflito entre Israel e Palestina

complexidade é um elemento característico do mundo do Oriente Médio, que não é lógico: nada aparece claro em seu interior. Essa complexidade é devida à presença simultânea de quatro elementos fortemente entrelaçados entre si: a dimensão histórica do conflito, a dimensão humana, a dimensão política e a dimensão religiosa.

A dimensão histórica

Seja o povo judeu como o povo palestino reivindicam a posse da Palestina. Os palestinos reclamam o direito de viver nesta terra, depois de terem pisado nela por 15 séculos. E, por essa razão, hoje, lamentam o fato de terem sido defraudados de sua própria história. Isso, certamente, não legitima, mas explica as pretensões palestinas sobre esta terra. Ao mesmo tempo, porém, o povo judeu reivindica a posse dela, referindo-se a sua história.

Se pegarmos a Bíblia, lemos, de fato, que esses lugares foram prometidos a Abraão e a sua descendência para sempre. A isso se acrescenta o intento do movimento histórico sionista de libertar o povo judeu da memória ferida por dois mil anos de perseguições, a última delas sofrida durante a Segunda Guerra Mundial, oferecendo-lhe um país no qual possa se sentir, de uma vez para sempre, autônomo e não mais sujeito a qualquer forma de perseguição. Nota-se, portanto, como as reivindicações históricas dos dois povos se contradizem.

A dimensão humana

A dimensão humana aparece, talvez, menos visível, mas, certamente, não menos importante que a histórica. De ambas as partes, seja do lado judeu como do palestino, há homens e mulheres que sofrem. Pessoas feridas em sua dignidade de filhos de Deus, na sua vida, nos amores, na família, nos valores mais profundos, em todo direito fundamental, também o de merecer uma morte digna. Uma dor ainda mais intensa, porque atinge seja o forte como o fraco, o grande e o pequeno, o vencedor e o vencido.

À dor se acrescenta o medo. Judeus e palestinos têm medo: angústia que não pode ser eliminada pelas bombas. A expressão mais evidente do medo judeu é a construção do famoso muro para proteger-se dos palestinos: 7-8 metros de altura, 700 km de comprimento. Medo que chega a ponto de levar a pensar que minha sobrevivência passa pelo desaparecimento, pelo cancelamento do outro, daquele que vejo como meu inimigo, minha ameaça. Que loucura é esse muro! Não posso eliminar você, então ergo uma barreira intransponível, e vou realizá-la dentro de seu próprio território, tomando ainda 12% da Palestina!

Hoje, o terror que reina na Terra Santa traduz-se, também, no medo de quem recusa a mão estendida em sinal de reconciliação por parte do outro. O judeu teme o palestino, porque vê nele um terrorista; o palestino recusa-se a cumprimentar o judeu, porque vê um inimigo que lhe roubou seu país. Além disso, vejo que, hoje, judeus e palestinos estão sufocados pelo medo de não serem mais capazes de superar esse complexo de desconfiança, de não saber transmitir às novas gerações uma cultura de paz e de reconciliação, em lugar de ódio e de guerra.

A dimensão política

O conflito que presenciamos é essencialmente político. A mesma terra é reivindicada, por motivos diferentes, por dois povos. No coração desse drama dilacerante, há a cidade de Jerusalém, a Cidade Santa, também reclamada pelas três religiões. A solução política deveria ir ao encontro de diferentes aspirações: trata-se de salvaguardar uma cidade unida, dois povos e três religiões. Cada um tem a pretensão de dar seu parecer sobre o futuro de Jerusalém e qualquer proposta política que não satisfaça ao mesmo tempo, as aspirações de uma cidade, de dois povos e de três religiões não é aceita.

Reivindicando os próprios direitos, todos usam as mesmas palavras, mas com significados diferentes. Todos falam de paz, justiça, segurança; todos estão de acordo sobre a necessidade de devolver a paz ao Oriente Médio. O problema surge quando se fala concretamente de justiça e de segurança. Segundo os judeus, não pode existir justiça sem segurança, portanto: “Parem com sua violência”, dizem aos palestinos. Segundo os palestinos: nenhuma garantia de segurança, se antes não for feita justiça, portanto: “Devolvam-nos nossos territórios que ocuparam”, dizem aos judeus. Como sair desse dilema: é a justiça fruto da segurança ou vice-versa?

A dimensão religiosa

O último aspecto é a dimensão religiosa. Hoje, para nós, cristãos, a separação entre Igreja e Estado é um aspecto normal em nossa vida. Tal distinção, ao contrário, vai contra o credo muçulmano e judeu. O islã não reconhece a separação entre a Mesquita e o Estado, assim como o judaísmo não reconhece a separação entre a Sinagoga e o Estado. No credo muçulmano, o aspecto político é parte integrante da fé. Para o israelense, a fé hebraica é baseada no triângulo: Deus-Povo-Terra. Deus que escolhe um povo ao qual doa a terra. Eis porque, para o judeu, essa terra é sua e a reivindica com a Bíblia na mão.

Quando colonos israelenses vão seqüestrar um terreno palestino, fazem isso, abrindo a Bíblia e dizendo: “Olha, este terreno é nosso, porque Deus nos prometeu”. Enquanto, do outro lado, o palestino reivindica seu direito de ficar em um lugar que lhe foi transmitido há gerações. A partir dessas considerações, é fundamental não cair no erro de pensar que o conflito entre israelenses e palestinos seja religioso. É claro que se alimenta dentro de uma dimensão religiosa, mas o judeu não sofre porque acredita no seu Deus, nem o cristão ou o muçulmano é perseguido pelo seu credo. Cada um é totalmente livre de professar a própria fé.

Os cristãos

A Igreja existe. Há os cristãos; poucos, sim, porém bons. São somente 2%, mas seu papel supera largamente seu número. Eles desenvolvem três funções: espiritual, cultural e profética. Através dos dois mil anos de história do cristianismo, sempre houve uma comunidade orante ao redor dos lugares santos. Esses fiéis tiveram, e têm, o grande privilégio de celebrar os eventos da vida de Cristo nos mesmos lugares em que efetivamente aconteceram. Além disso, têm a responsabilidade da guarda desses lugares e são orgulhosos disso.

Os cristãos na Terra Santa fazem parte do povo palestino, estão enraizados na cultura e na psicologia do Oriente e, ao mesmo tempo, estão ligados ao Ocidente pela fé cristã comum. Por essa sua colocação particular, eles constituem uma ponte natural entre mundo ocidental e médio-oriental. Hoje, não precisamos mais de muros, e sim de pontes, que ajudem a nos entender uns aos outros. No drama do conflito que opõe judeus e palestinos, os cristãos podem exercer uma importante função profética.

Podem fazer descobrir a luz que há no homem, criado à imagem e semelhança de Deus; podem levar uma mensagem de esperança e de otimismo através dos típicos valores cristãos da bondade, do perdão e da reconciliação. Para desempenhar esse papel, porém, devem enfrentar situações muito difíceis, como a atual, que é uma verdadeira ocupação militar. Devem ser fortes e perseverantes e precisam de muita fé e esperança.

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