Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - Ásia
Olimpíadas
chinesas
por Ernesto Arosio
A altivez demonstrada pelo seu dirigente em Atenas, porém, já custa sangue e dor ao povo de seu país, ainda dominado pela mão férrea do governo comunista de Pequim, que acena, entretanto, para tênues sinais de abertura. Durante uma visita à China, em 2001, pude constatar como as pessoas ainda temem as autoridades, apesar de desfrutarem de aparente liberdade de ir e vir. Vi poucos soldados ostensivamente armados nas ruas, mas muitos policiais com luvas brancas e celulares. Segundo o nosso guia, celulares são mais perigosos que armas: basta teclar um código e dezenas de policiais, desta vez armados, aparecem em poucos minutos. Um jovem casal aproximou-se de nosso grupo, que caminhava descontraidamente, à noite, pelas ruas de Xian, e, num inglês precário, pediu-nos informações sobre nossa origem. Ao verem soldados se aproximando, eles se afastaram cautelosamente, para se achegarem de novo, à frente, a fim de obter informações sobre a vida fora da China. Os noticiários oficiais transmitem a imagem de uma China livre e democrática, uma estrela de primeira grandeza, a emergir entre as grandes potências. Mas eles omitem o que se passa nos bastidores da política. Uma parcela significativa do povo ainda vive sem direito à liberdade, ao progresso social, pisoteada pelo regime que – se aparentemente demonstra liberalidade –, na realidade é um demolidor de direitos humanos, porque não permite manifestações ou protestos públicos, inclusive na esfera dos direitos mais elementares do cidadão: família, casa e trabalho. Olimpíadas: ostentação de luxo, mas atentado ao homem e à cultura chinesa Em uma importante avenida no centro moderno de Pequim, já em 2001, estavam expostas as estátuas, símbolos das próximas Olimpíadas a serem realizadas no país. Em Pequim, e ainda mais em Xangai, edifícios de estilo ultramoderno, audacioso, com mais de 400 metros de altura já tinham sido construídos para albergar serviços públicos, hotéis e escritórios de companhias estrangeiras. As três grandes metrópoles: Pequim, Xangai e Xian, eram enormes canteiros de obras e hoje, mais ainda, os operários, como em formigueiro, trabalham incessantemente durante as 24 horas do dia. São hotéis, arranha-céus, centros esportivos, luxuosos alojamentos para atletas e visitantes estrangeiros, escritórios e shoppings centers, comissionados às grandes empresas construtoras dessas megalópoles. Mas, para obter resultados iminentes, os tratores arrasam milhares de casas e alguns bairros inteiros.
Metade do centro histórico da milenar Pequim, a capital, repleto de relíquias, foi varrida. É a memória de uma China já deteriorada, que agora desaparece para sempre. Organizações internacionais e nacionais denunciam o desaparecimento de tesouros arquitetônicos, como os Siheyan, antigas casas da elite na dinastia Ming, providas de pátio interno e ambientes para os membros do clã, concubinas e empregados; e os hutongs, casas típicas, enfileiradas, que caracterizavam as folclóricas vielas da cidade. Estima-se que, em Pequim, na década de 80, havia mais de 3600 hutongs. Hoje não passam de 1500. Após protestos de intelectuais e artistas, as autoridades prometeram preservar 658 imóveis tradicionais, construídos entre 100 e 400 anos atrás, mas esse total não foi respeitado. Um templo taoísta, com mais de 700 anos, também foi demolido para abrir espaço a um bairro moderno. Os responsáveis pela preservação dos bens históricos e culturais encerram, cinicamente, qualquer discussão sobre a perda da inestimável herança cultural, com a desculpa que as casas são velhas, sem água e serviços higiênicos e, portanto, devem ser demolidas. O custo da miséria Mais grave que a destruição dessas preciosas relíquias, é a expulsão dos seus moradores, da noite para o dia. Levados à força pelos tratores, muitos perdem seus pertences, quando são avisados no ato da demolição; outros nem recebem novo endereço, ficando à mingua. A indenização, quando obtida, é irrisória, o que já provocou revoltas e protestos. Na era Mao Tzé-Tung, os chineses recebiam moradia popular, com 36 m2 de área, em prédios de seis a sete andares, com elevador que parava em planos alternados; hoje, a maioria dos desapropriados é jogada na rua, ou é afastada dos centros urbanos, sem respeito algum a seus direitos de cidadãos, sem tutela e proteção. A crônica dos últimos meses, nem sempre censurada, denuncia numerosos suicídios, especialmente de anciãos, em desesperado gesto por terem sido jogados à rua, sem pertences nem direitos. Em 1º de outubro, data do aniversário da República Popular, um desempregado de 40 anos embebeu sua roupa em gasolina e se ateou fogo, na praça Tiananmen, de Pequim, após perder a casa. No mesmo dia, a polícia de Pequim prendeu 85 pessoas que protestavam contra a demolição de suas casas. Magistratura comprometida Outro aspecto preocupante – quando não escandaloso – é o conluio entre a magistratura e as empresas de demolição e construção. Afirma-se que nenhuma denúncia de desalojados
teve sentença favorável no tribunal. Um advogado, Zheng Enchong, foi condenado a três anos de reclusão porque enviou para fora da China, sem a anuência das autoridades, um dossiê sobre protestos de desalojados. No dia da condenação, o tribunal foi cercado pela polícia, evitando eventuais manifestações públicas e da imprensa. Na realidade, a condenação de Enchong foi um claro alerta a outros defensores de desalojados e à mídia, para que evitassem tocar em questões de direitos. Manifestações populares em defesa de direitos são severamente reprimidas pela polícia. Essas atitudes contrastam com a afirmação oficial do governo central. Nos dias de maior tensão em Xiaoxiaoxi (na província de Zhejiang), em novembro de 2003, Luo Gan, chefe do Departamento para a Aplicação da Lei, afirmou: “O aumento dos protestos das massas está se tornando um perigo para a estabilidade social. As questões de interesse político necessitam de atenção especial e os protestos não devem ser reprimidos com violência. Ao contrário, é preciso explicar com paciência a política do governo”. Belas palavras! Pena que a realidade seja diferente. |
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