Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia


Monumento à revolução chinesa

O paraíso dos
trabalhadores

está se tornando
um inferno

por Bernardo Cervellera

A China, que está se lançando na conquista do espaço e se orgulha de seus sucessos, teme uma revolução de operários e camponeses

ste ano será especial para a China: o grande país vai entrar no clube exclusivo das nações que lançaram um homem ao espaço. Depois que a nave espacial Shengzou IV, lançada a 30 de dezembro de 2002, foi recuperada no deserto de Gobi, verificou-se que todos os instrumentos de bordo estavam em ótimo estado, a ponto de o China Daily poder afirmar:

"É um bom começo para coroar nosso sonho de enviar astronautas chineses ao espaço". Alguns oficiais do Departamento Aeroespacial de Xangai começaram a dizer que, no próximo lançamento, a Shengzou V será tripulada por seres humanos que iniciarão suas experiências para construir uma estação espacial em órbita. Mas por parte da população, além de um certo e compreensível orgulho nacional, não houve muitas manifestações de entusiasmo.

O céu, com efeito, está longe e a terra continua cheia de espinhos. A China moderna, que está se lançando na conquista do espaço e dos mercados mundiais, atualmente, teme uma revolta de operários e agricultores. O medo do governo é que, aumentando o desnível entre as classes sociais, o desemprego e o protesto dos agricultores, possa explodir uma grande revolta popular.

Pesquisa sobre a situação chinesa

Três professores universitários de Pequim publicaram uma pesquisa revelando que mais de 200 milhões de chineses estão descontentes: o abismo entre ricos e pobres, a corrupção e o aumento do desemprego podem criar uma convulsão social de conseqüências imprevisíveis. Conforme os três pesquisadores, o problema mais importante na China é o abismo, que aumenta cada dia mais, entre ricos e pobres. Esse abismo é sentido especialmente no mundo rural, mas também nas cidades o nível de insatisfação está aumentando.

A pesquisa apontou 70 milhões de desempregados, dos quais mais de 120 milhões são camponeses que abandonaram o campo e buscam trabalho na cidade, aceitando até salários muito baixos. O progresso que até agora alcançamos, dizem os pesquisadores, poderia ser eliminado de um momento para outro, por causa da instabilidade que reina na sociedade chinesa. Qualquer crise que possa surgir, como por exemplo, uma nova crise asiática, um aumento dos preços do petróleo, uma recessão econômica mundial, poderia pôr tudo a perder. Essas condições, que criam uma situação muito instável, tendem a aumentar muito nos próximos dez anos.

O governo, para os autores, está mascarando ou até escondendo a crise. "Infelizmente", dizem eles, "essa preocupação com o futuro está ausente nos políticos, que preferem esconder os problemas e mostrar o progresso econômico. Os líderes estão negando a realidade desse abismo que se está criando entre ricos e pobres. A China vai pagar por isso um preço social e político muito alto". Os líderes chineses, com efeito, em lugar de mostrar os problemas, limitam-se a calar quem protesta e a prender os que criam desordens, gritando aos quatro ventos os progressos da economia.

Algo, devagar, está mudando

Um sinal de novidade pode estar nas palavras do novo secretário do Partido, Hu Jintao, no discurso proferido no Ano Novo chinês. Ele não se limitou a falar dos sucessos internacionais, como seu predecessor, Jiang Zemin, mas começou a tocar nas chagas dos problemas internos. Ele disse, entre outras coisas: "devemos nos esforçar para resolver os problemas que afligem as massas; resolver com realismo os problemas do emprego e desemprego, criar um sistema de aposentadorias e aumentar os esforços para aliviar a pobreza". O tempo dirá se a essas palavras vão seguir os fatos.

Por enquanto, Hu Jintao está insistindo para que haja mais democracia no Partido e os cargos se tornem eletivos. Há muitos privilégios, mordomias e bajulações, mas se esquecem as necessidades de muitas outras pessoas. Os privilégios podem ser eliminados, se Partido e política se tornarem realidades bem distintas, e isso poderá acontecer somente se houver uma estrutura multipartidária e uma imprensa livre, que possa pôr em evidência os problemas e apontar soluções. Enfim, é preciso fazer uma revolução política e social, se quiser evitar a revolução popular de conseqüências imprevisíveis, num país de 1,3 bilhão de habitantes. Conseqüência do descontentamento popular é a queda da popularidade do Partido.

Enquanto aumentam as manifestações de operários e camponeses e os assaltos às sedes do Partido, aumenta também a convicção de que o mesmo deixou de ser o partido "das massas". A situação lembra muito a da Polônia dos anos oitenta, quando surgiu o movimento Solidarnosc. Hoje, na China, os movimentos operários e os protestos estão esvaziando a popularidade do Partido Comunista que pretende governar o país em "nome da classe operária". A visão dos chefes que gastam dinheiro em banquetes e passam pelas ruas a bordo de novíssimas BMW irrita os pobres e desempregados. A diminuição dos inscritos no Partido chegou a atingir, entre os lavradores, até 80%.

O Partido Comunista chinês hoje

O PCC continua o maior partido comunista do mundo, com 63 milhões de inscritos. Todo ano há novos membros, especialmente jovens, mas é muito possível que eles o façam mais por conveniência que por ideologia. Entrar no PCC significa adquirir vantagens na busca de um emprego. A pessoa que suscita o maior descontentamento é o ex-secretário, Jiang Zemin, por causa de sua opção de aceitar os "capitalistas vermelhos".

Em 2002, a cúpula do Partido conseguiu, com muita dificuldade, evitar uma manifestação de protesto de muitos membros que queriam queimar sua carteira de comunista na praça Tiananmen. Da cerimônia teriam participado veteranos, aposentados e membros do exército, cansados de ver o Partido cada vez mais distante de suas raízes proletárias. Graças a acordos de última hora, a manifestação não se realizou, mas continuam as críticas a Jiang Zemin, especialmente na Internet.

Agora dizem na China que o Partido se rendeu à classe capitalista e que Jiang Zemin é o porta-voz de 0,3% da população, isto é, dos empresários. Após 53 anos da fundação da República Popular Chinesa (1949) e de 82 anos da fundação do Partido, o paraíso dos trabalhadores se transformou em inferno: a ditadura do proletariado virou ditadura da classe favorecida e a sociedade dos que antes eram iguais abriu um abismo entre ricos e pobres, que tende a aumentar perigosamente.

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