Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

 


esperança para o Irã

por Alberto Garutti

Comitê do Prêmio Nobel, como de costume, tomou os primeiros contatos telefônicos com a família da vencedora, uma hora antes da publicação de seu nome. O marido de Shirin, Javad Tavassolian, disse que foi contactado para que fornecesse o número telefônico da esposa, que se encontrava em viagem na França. Ela recebeu o telefonema enquanto estava se dirigindo ao aeroporto de Paris, para voltar a Teerã. Foi uma grande surpresa e não só para ela. Entre os 165 candidatos, havia nomes bem mais conhecidos mundialmente que vinham sendo anunciados pela mídia nos dias anteriores à promulgação do vencedor.

Entre eles, João Paulo II, Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente da República Tcheca, Vaclav Havel, o Exército da Salvação, o cantor de rock Bono, dos U2. A atribuição do Nobel a Shirin representou uma injeção de confiança em todos os iranianos que, começando do presidente Khatami, desejam que aconteçam mudanças no país. À sua chegada, mais de 10 mil pessoas, na maioria mulheres, estavam no aeroporto para recepcioná-la, enquanto fontes de informação dizem que o clima em Teerã era extraordinário e de verdadeira euforia.

Na motivação do prêmio, lê-se que o Comitê, com muita satisfação, entendeu premiar "uma mulher que pertence ao mundo muçulmano, para quem é importante que o diálogo entre culturas e religiões diferentes aconteça a partir de valores que todos compartilham". E a motivação continua: "Como advogada, juíza, professora, escritora e militante política, ela sempre levantou sua voz forte e clara em seu país, e além dos confins dele. Sempre batalhou pela defesa dos direitos fundamentais. Nenhuma sociedade pode ser definida civilizada, se os direitos das mulheres e das crianças não são respeitados".

Quem é Shirin Ebadi

Shirin, nome que significa "doce", é advogada e professora de direito na Universidade de Teerã. É casada e tem duas filhas, de 20 e 23 anos. Em 1974, foi a primeira mulher a se tornar juíza, ainda sob o reinado do xá Reza Pahlevi. Mas, depois da tomada de posse de Khomeini, os aiatolás decidiram que as mulheres eram muito emotivas para serem responsáveis por um tribunal e ela foi obrigada a deixar o cargo. Voltou a exercer a profissão de advogada, aceitando casos bastante difíceis pois se tratava de defender pessoas perseguidas pelo regime. Três anos atrás, ficou detida durante 22 dias, acusada de divulgar um vídeo contendo as declarações de um membro arrependido da organização extremista Hezbollah.

Ele admitia que o grupo recebera instruções para impedir e dissolver, pela força, as manifestações de contestação ao regime que, então, se multiplicavam no país. Em vista disso, Shirin foi impedida de exercer a advocacia durante cinco anos. Há bastante tempo, ela luta para combater os abusos contra as crianças, tanto na família como no trabalho. No campo dos direitos da mulher, está lutando para que as mulheres possam ficar com os filhos, em caso de separação do marido, que não sejam prejudicadas pelo divórcio, não sofram violências na família, tenham o direito de herdar e testemunhar em juízo, exatamente como os homens.

Shirin Ebadi e o Prêmio Nobel

"Esse prêmio vai também
para todos os iranianos que
lutam pela democracia"

O significado desse prêmio

Fica muito claro que esse prêmio teve um valor altamente simbólico. Além da pessoa, é o símbolo também que foi premiado: uma mulher que lutou pelos direitos humanos, especialmente das mulheres e das crianças num regime totalmente machista e teocrático. Há tempos, o mundo inteiro sabe que os direitos humanos são o ponto fraco do regime de Teerã.

Shirin mostrou que islamismo, direitos das mulheres e democracia não são realidades incompatíveis. É uma voz que se levanta não somente contra o governo do Irã, mas contra todos os governos, especialmente os islâmicos, que parecem ignorá-lo. Se esses direitos são violados, a culpa não é do Islã, é dos políticos.

Esse prêmio representa um grande impulso para as forças democráticas do país que, há anos, lutam por mudanças, especialmente os jovens, que somam dois terços da população, e que foram os responsáveis pela eleição do atual presidente Khatami, que, até agora, pouco pode fazer, diante da força dos aiatolás.

E uma força também para as mulheres, que já atingiram um grau de emancipação muito maior do que em outros países islâmicos. Já são 50% da população universitária do país. O prêmio poderia ser a gota d'água que faltava para que se realizem, finalmente, as mudanças esperadas pela maioria.

Ao jornal inglês The Guardian, afirmou: "Meu problema não é o Islã, é a cultura patriarcal. Práticas como o apedrejamento não têm fundamento no Alcorão".

O Prêmio Nobel da Paz consiste num diploma, numa medalha de ouro e num cheque de 10 milhões de coroas suecas (1,3 milhão de dólares). A cerimônia se realiza todos os anos no dia 10 de dezembro, aniversário da morte de Alfred Nobel, um sueco que deixou um fundo para que todos os anos fossem premiadas as pessoas que se destacassem nas ciências, na literatura e no campo dos direitos humanos.

Todos os Prêmios são entregues em Estocolmo, capital da Suécia. Somente o da Paz é entregue em Oslo, capital da Noruega.
O Prêmio vem sendo entregue, todos os anos, desde 1901. Até agora, só 10 mulheres foram contempladas e Shirin é a única islâmica entre elas.

Eis aqui algumas declarações de Shirin, após ter sido informada da premiação. "Estou ainda atordoada", disse a uma agência francesa. "Esse prêmio vai também para todos os iranianos que lutam pela democracia". "Este prêmio é bom para mim, bom para os direitos do homem, bom para a democracia no Irã".

Mas Shirin falou também de cristianismo: citou as felicitações que recebeu de João Paulo II, que foi um dos primeiros a se congratular com ela. "Sempre admirei João Paulo II, especialmente porque condenou a intervenção americana no Iraque". Disse, ainda, que entre islã e cristianismo não pode haver conflito.

"Tudo isso pode ser coisa do passado. Agora cristãos e muçulmanos deixaram de lado as cruzadas; é importante o diálogo entre as diversas religiões. O Islã não é uma religião do terror, uma religião em nome da qual se possa matar".

Sua posição a respeito da invasão do Iraque também foi clara: é contrária à ocupação pelos americanos e disse que os direitos humanos não podem ser levados a um país por meio de bombas e tanques de guerra. Algumas declarações feitas à imprensa, antes de ganhar o Prêmio Nobel, mostram claramente o que ela pensa do islamismo e do Irã: "Qualquer pessoa que começa a trabalhar pelos direitos humanos, no Irã, deve viver com medo, desde o nascimento até a morte, mas eu aprendi a superar esse medo", declarou à revista americana The Christian Science Monitor.

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