Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

O perigo fundamentalista

pesar de os movimentos fundamentalistas terem aparecido só recentemente, a matriz do fundamentalismo moderno não é recente e tem vários fundadores. O primeiro é Hassan al-Banna que, em 1928 no Egito, fundou os "Irmãos Muçulmanos" e Abu al-A'la al-Maududi, fundador, em 1941, da Jamaat-e-Islami, na Índia.

Os dois movimentos introduziram uma ruptura com o islã tradicional dos ulemas, propondo um islã militante, mais semelhante a uma ideologia política. Banna e Maududi acusavam os Estados islâmicos contemporâneos de terem abandonado os princípios do Alcorão, preferindo os esquemas políticos ocidentais.

A solução proposta por eles era o retorno radical aos fundamentos criados, na antiga Arábia, ainda por Maomé e seus primeiros sucessores que conquistaram muitos povos. Esses movimentos fundamentalistas, nos anos setenta, transformaram-se na principal força de contestação no Oriente Médio.

O motivo era o desgaste e a fraqueza das ideologias nacionais dos vários regimes, como o nasserismo no Egito, a Frente de Libertação Nacional na Argélia, o kemalismo na Turquia, todos de tradição sunita.

A introdução no cenário mundial do fundamentalismo xiita, aconteceu em 1979 com a revolução de Khomeini no Irã. A partir daquele ano, entre as minorias xiitas do mundo inteiro, nasceram os movimentos radicais que se modelaram sobre o exemplo dos aiatolás iranianos.

Na parte sunita, porém, começam outros

movimentos políticos radicais, como no Egito, liderado por Sayyed Qutb, condenado à morte por Nasser, em 1966. Qutb estigmatizava qualquer compromisso com o poder. A partir da ideologia desses movimentos, o objetivo principal do islã não é mais a "islamização a partir das bases da população", como propunham Banna e Maududi, mas a eliminação dos "regimes dos infiéis", através da luta armada.

Os novos grupos começaram por condenar qualquer muçulmano que não concorde com eles. Em todos os Estados islâmicos, acontece uma polarização e divisão entre os grupos radicais, que assumem a luta armada e o terrorismo, e os movimentos moderados do islã tradicional.

É, porém, com a guerra no Afeganistão que se produz um salto qualitativo na escalada da violência, liderado por Bin Laden, que transformou o radicalismo desses movimentos, ainda separados entre si, num verdadeiro desafio ao mundo não islâmico.

A participação dos mulás e dos voluntários da jihad na guerra contra os russos no Afeganistão, e sua relativa vitória, transformou as militâncias radicais numa luta única pela Umma ou "nação islâmica" e não mais pelas revoluções nacionais.

Assim, a jihad na Palestina, na Chechênia, na Caxemira, nas Filipinas, os atentados contra as torres de Nova York, são as diferentes faces de uma única guerra, a da nação islâmica. De fato, as ações desses grupos têm todas uma única motivação: o antiocidentalismo ou a favor de um islã mais fundamentalista, como nos países asiáticos onde predominam o hinduísmo, budismo ou um islã mais moderado como na Índia, no Sri Lanka e na Indonésia.

INDONÉSIA À BEIRA DO ABISMO
por Stefano Vecchia

pós o massacre de Kuta (Bali), o governo indonesiano tenta, tardiamente, aplicar os remédios: a proteção de depósitos de gás e de petróleo pelo exército e pela polícia, a proteção das embaixadas, proclamação oficial contra o terrorismo, com pena de morte para os terroristas.

Tudo isso não passa de uma demonstração tardia de escassa eficiência e incapacidade de controle do terror que feriu a Indonésia na sua ilha mais famosa, Bali, e uma tentativa de desviar a atenção internacional da responsabilidade do governo e dos militares.

Essa responsabilidade não se refere somente ao episódio de Bali, mas à conivência da que, há anos, os grupos radicais de al-Qaeda, infiltrados no Estado, estão usufruindo.

O partido de Megawati Sukarnoputri, que está no poder, tem que governar com islâmicos, mas no exército, mais que um aliado na guerra ao terrorismo, tem um antagonista no jogo do poder e no controle da economia nacional.

Os líderes fundamentalistas islâmicos gozam de liberdade de movimento e de pregação e suas sedes estão registradas e abertas, apesar dos protestos dos EUA.

Enquanto se isolam os chefes moderados do islã, aumenta a liberdade dos movimentos dos líderes dos radicais.

Tentou-se também sugerir a hipótese de que o atentado em Bali seria uma retaliação pela independência de Timor leste, país de maioria católica. Isso foi somente uma tentativa de desviar a atenção da realidade dos problemas internos da Indonésia.

O Timor conseguiu ser independente, após muitas vítimas e implantando uma democracia plena, onde há vários partidos e homens de ideologias diferentes, e todos contribuíram para a independência. Ao lado do presidente católico, há um premier muçulmano.

No centro de Jacarta, também existe a catedral católica e a mesquita, numa aparente convivência, mas policiados por um pesado aparato militar para evitar que eventuais atentados aos edifícios, símbolos das duas religiões, possam explodir a cidade. Nas 13 mil ilhas do país há, porém, 210 milhões de pobres, vítimas da intolerância religiosa e abandonados a si mesmos.

Bali, ao contrário, era um símbolo de convivência religiosa, uma ilha da prosperidade que começou a ser destruída pela ação dos radicais islâmicos. Uma grande perda para a Indonésia e para o mundo.

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