Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

PARA ONDE A CHINA CAMINHA?

Alberto Garuti

A China praticamente "acordou" e começou seu rápido crescimento em 1978, quando Deng Xiaoping tomou o poder. Escolhendo o modelo de desenvolvimento dos vizinhos "tigres asiáticos" (Hong Kong, Cingapura, Taiwan e Coréia do Sul), então em franco crescimento, adaptou-o às próprias necessidades, com as devidas correções. A partir daí, não parou de crescer, tendo-se tornado o país com a mais alta porcentagem de crescimento no mundo.
Deng Xiaoping estava convencido de que um país não pode tornar-se uma grande potência política, se não for também uma potência econômica.

E as mudanças vieram. Nos últimos vinte anos, a China:

  • abandonou o planejamento econômico centralizado e os planos qüinqüenais da época de Mao;
  • abandonou a coletivização da terra e o sistemas das "com unas", passando a um sistema em que o trabalhador recebe a metade do que produz;
  • reformou o sistema da gestão das empresas estatais;
  • incentivou o desenvolvimento do setor privado, estimulando o surgimento de empresas de condução familiar;
  • atraiu o mais possível o capital externo, criando condições mais favoráveis aos investidores estrangeiros, especialmente em determinadas regiões.

Deng começou a admitir o "socialismo de livre mercado" e a afirmar que capitalismo e socialismo devem ser julgados unicamente pela capacidade de aumentar a potência econômica do país. Quebrou-se uma verdade que foi tabu durante mais de um século e começaram a coexistir, na mentalidade chinesa, socialismo e liberalismo.

O sucesso e as contradições das reformas

As reformas não tardaram a colher ótimos dividendos:

  • a renda anual per capita aumentou dez vezes em dezessete anos;
  • a porcentagem de crianças em idade escolar agora é de 98,4%;
  • a descoletivização da terra aumentou muito a produtividade agrícola e a renda das famílias camponesas;
  • desenvolveu bastante a indústria, especialmente a de tipo leve.

Mas não faltaram os aspectos negativos, comuns, aliás, a outros países industrializados:

o desemprego e a inflação bastante elevados: o primeiro, segundo certas fontes, chegaria até 20% e a segunda está beirando 10%. Ficou evidenciada a ineficiência das empresas estatais e parece que aumentou a corrupção.

Outro fenômeno negativo dos últimos anos foi a urbanização:

150 milhões de pessoas teriam deixado o campo, inchando certos bairros das megalópoles.

Preocupações

A atual situação da China suscita preocupações imediatas tanto dentro como fora do país. Fora, são os países industrializados que temem. ao ver seus mercados invadidos pelos produtos chineses, vendidos a preços imbatíveis, e ao perceber que suas empresas são atraídas pelas condições fiscais e alfandegárias oferecidas pelo governo chinês.

Dentro, quem se preocupa é o próprio governo chinês que sabe que não pode mais contar com o apoio incondicionado da opinião pública interna. O povo já não se contenta com uma tigela de arroz e uma casaca "à Mao", mas busca, cada vez mais. melhores condições de vida, faz pressões para mudanças no sistema político e não está mais disposto a tolerar os erros e a ideologia da classe dirigente.

Perspectivas

Economicamente as perspectivas, são boas: se continuar o atual ritmo de crescimento, muitos analistas prevêem que até o ano 2010, a China poderá ser a maior economia do mundo, ainda que não em termos de economia "per capita": a esse respeito, alcançaria os Estados Unidos não antes do século XXII.

Politicamente, é difícil falar. Sabese que existe uma corrente reformadora que considera superada as teorias econômicas do marxismo-leninismo. Mas existe também - e é numerosa especialmente entre os militares e os burocratas - uma classe conservadora que gostaria de fechar de novo as portas da China e que acusa o atual sistema de ter aberto as fronteiras aos modelos do capitalismo.

Parece que a primeira corrente triunfou no último Congresso do Partido Comunista, realizado em Pequim, em setembro de 1997.

O XV congresso do Partido Comunista Chinês

Quem saiu fortalecido desse Congresso foi Jiang Zemin, discípulo e continuador da política de Deng Xiaoping. Os dois mais ferozes opositores foram eliminados com um sutil estratagema. Por coincidência, a idade de ambos era bem avançada: 73 e 81 anos.

Jiang Zemin declarou-se, antes do congresso, disposto a rejuvenescer os quadros do partido e a não nomear para cargos importantes pessoas cuja idade estivesse acima dos 70 anos. Ele próprio, tendo superado a idade limite, declarou-se pronto a apresentar sua demissão.

Aí interveio o velho revolucionário Bo Yibo. suplicando para que ficasse, pois estava tudo preparado para sua visita aos Estados Unidos. Contudo, o parecer deste era que todos os outros, que tivessem ultrapassado os 70 anos, renunciassem. Proposta apoiada e aprovada, Jiang Zemin encontrou-se livre de seus mais duros opositores, pouco antes do início do Congresso.

Algumas declarações do mesmo Congresso mostram claramente a que ponto chegaram os teóricos do novo marxismo chinês:

"O Partido, em seu XV Congresso, assume o marxismo, o leninismo. o pensamento de Mao Tsetung e a teoria de Deng Xiaoping como sua ideologiaguia de ação."

"É preciso permanecer vigilantes contra as tendências de direita, mas especialmente contra as de esquerda".

"A China deve manter a propriedade pública como base de seu sistema econômico, mas deve promover todas as formas de propriedade, se elas:

  • favorecerem o desenvolvimento das forças produtivas;
  • favorecerem e consolidarem a força do país;
  • favorecerem e levantarem o nível de vida da população (...)

Ainda que o setor da propriedade estatal se reduza a uma pequena porção da economia nacional, isto não influenciará a natureza e a característica socialista do país".

Como se vê, a afirmações vagamente esquerdistas e de acordo com a antiga doutrina, sucedem-se outras mais claramente de direita e que deixam transparecer o pensamento liberal que orienta a economia do novo regime.

Continuará assim durante muito tempo essa tendência ou sofrerá guinadas à direita ou à esquerda? É impossível prever. Por enquanto, só podemos dizer que essa posição saiu reforçada do último Congresso do Partido.

Mudanças econômicas, não políticas

Se muitas coisas mudaram na economia, muito pouco mudou quanto ao controle que o Partido quer ter sobre tudo o que acontece no interior do país. A Igreja católica é uma das instituições que mais sofrem por causa desse controle. Ainda existem bispos, padres e leigos engajados que estão presos, há uma lista de outros sob constante pressão e controle da polícia: a Igreja clandestina ou subterrânea continua sofrendo.

A Igreja oficial, pelo contrário, que aceita ser controlada pelo governo, recebe até ajuda para a reconstrução das igrejas e pode manter abertos seus seminários, enquanto a outra Igreja, que não tem permissão para reunir-se publicamente, não tem recursos para a formação de seminaristas e de futuros religiosos, sujeitos a terem os estudos freqüentemente interrompidos por causa das intervenções policiais.

Contudo, a situação varia muito de uma região para outra. Diz um padre que trabalha no Norte do país: "Nos anos 80, nossas atividade eram vistas como clandestinas. Agora temos mais liberdade e até os funcionários do governo sabem que celebramos missas e outras liturgias. De vez em quando, alguns membros da polícia vêm nos visitar e nos pedem que façamos as coisas sem muito alarde."

Outro padre, sempre do Norte da China, confirma: "Agora podemos viajar com mais liberdade dentro dos limites da província e podemos celebrar nos domingos e dias de festa. Só não temos licença para reformar as nossas únicas duas igrejas que estão quase caindo". Como se vê, há ainda regiões onde o governo endurece com os católicos e outras nas quais é mais permissivo. Será um sinal de que, na China, algo começa a mudar também sob o aspecto político?

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