Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

 

Camboja:
um país que está renascendo

Arrasado totalmente pela guerra e pela ditadura dos khmers vermelhos, o país está recomeçando uma nova vida

por Alberto Garuti

pesar de seu passado recente de massacres e genocídios, o Camboja está mostrando uma vontade de recomeçar, de reconstruir o que foi destruído, que suscita admiração. É verdade que o dia da democracia plena está longe ainda e que a corrupção não desapareceu, mas pensando na situação em que se encontrava o país, ainda no fim dos anos oitenta, temos que reconhecer que muita coisa foi feita nestes últimos 15 anos.

BRUTAL GENOCÍDIO

Na segunda metade do século passado, o país viveu um pesadelo que durou vinte anos. Em 1970, o general Lon Nol destituiu o príncipe Sihanouk e instaurou um governo americanófilo favorável à guerra contra o Vietnã. Assim, o país se viu envolvido no conflito e sofreu pesados bombardeios americanos contra os redutos dos partidários dos comunistas. Em 1975, os khmers vermelhos foram acolhidos na capital Phnom Penh como libertadores, mas o que aconteceu depois foi bem diferente.

Eram portadores de uma ideologia maoísta muito radical que planejava não somente a eliminação da vida urbana, da classe média e dos intelectuais, como também da propriedade privada e da família. Depois de três anos de dominação total e do extermínio de um 1,7 milhão de pessoas, outros “libertadores” ocuparam o Camboja durante dez anos: os vietnamitas, há séculos inimigos dos cambojanos. Houve uma fuga em massa desses para a Tailândia.

Somente no fim dos anos oitenta, as Nações Unidas resolveram se interessar pelo Camboja. Enquanto os odiados vietnamitas se retiravam, a Onu tomou posse, por três anos, do país, para garantir que a reconstrução fosse iniciada num clima de democracia e liberdade. A situação que encontraram foi estarrecedora: os khmers tinham destruído tudo e os vietnamitas não tinham construído nada.

O PAÍS RENASCE

Graças à garantia da presença das Nações Unidas, muitas Ongs começaram a vir e deram inicio à reconstrução: agora são mais de seiscentas, investindo centenas de milhões de dólares e trazendo tecnologia, que no Camboja não havia mais, pois os khmers tinham destruído totalmente a classe média e os intelectuais. A capital, Phnom Penh, agora é outra cidade: muitos edifícios foram reconstruídos, o tráfego urbano é intenso, o turismo em grande expansão, a classe média está sendo pouco a pouco reconstruída pelo impulso que foi dado a todo tipo de escola, inclusive à universidade.

Estrangeiros, especialmente do sudeste asiático e Japão, investiram na indústria: na capital, foram implantadas 250 fábricas, sobretudo têxteis. Mas existem ainda vários problemas a serem resolvidos para a reconstrução do país ser completa: a corrupção nas altas esferas, a má distribuição da riqueza (num país auto-suficiente do ponto de vista alimentar, 45% das crianças são subnutridas), a prostituição está em contínuo aumento, alimentada também pelo fato de o Camboja ser um “paraíso” para o turismo sexual. A alfabetização não supera 68%, mas governo e Ongs prometem trabalhar muito para melhorar a situação.

A IGREJA CATÓLICA RENASCE TAMBÉM

Quando, em 1975, iniciou o regime maoísta que levaria ao genocídio, o bispo e todos os padres e religiosos foram presos e desapareceram Não se soube mais nada a respeito deles. As igrejas foram destruídas e os poucos cristãos foram dispersos nos vários campos de concentração. Muito poucos sobreviveram, isolados e perdidos. Atualmente, os cristãos são pouco menos de 25 mil, numa população de 12 milhões de habitantes. Eram 50 mil antes do massacre.



O PIME NO CAMBOJA

O Pime promoveu no Camboja, em 1992, a organização não governamental New humanity, para trabalhar no campo da educação e da promoção humana integral. O responsável é pe.Toni Vendramin, já missionário em Bangladesh, que chegou em 1990 a Phnom Penh, como capelão das Missionárias da Caridade de Madre Teresa de Calcutá, primeira congregação religiosa a estabelecer-se no país depois que começaram as reformas democráticas.

Decorridos seis anos, New humanity concluiu os projetos de desenvolvimento rural em 11 aldeias da região de Veal Pon, está terminando as atividades nas áreas rurais de Ampeu Prey e Kandaok e iniciou novos projetos de educação e desenvolvimento no distrito de Boribor.

Colaborou também com o Ministério da Educação, na fundação do Departamento de Sociologia e na reabertura do Departamento de Psicologia da Universidade Real de Phnom Penh. Junto com os padres do Pime trabalham missionárias leigas e leigos voluntários.


Todos juntos formariam uma paróquia e não das maiores. A maioria deles ainda são vietnamitas, pescadores, que atravessaram o rio Mekong e se estabeleceram na outra margem.

Restabelecida a democracia, missionários, sacerdotes e leigos foram para lá, junto com numerosas Ongs, assim foi possível unir os cristãos dispersos e começar a reconstrução da Igreja no país. Eis os principais desafios que a Igreja do Camboja está encontrando: em primeiro lugar, a colaboração entre os cristãos nativos, cambojanos e os vietnamitas.

Estes são mais numerosos, quase o dobro, e pertencem a um povo que sempre foi inimigo dos cambojanos. Nos tempos passados, os missionários deram mais atenção aos vietnamitas, por serem mais abertos à conversão. Por isso, os cambojanos viam e vêem o cristianismo como religião dos vietnamitas. As duas comunidades vivem sempre separadas. Outro desafio é o das vocações ao sacerdócio.

No país, há, ao todo, somente 50 padres e somente cinco são cambojanos. Para as primeiras ordenações é preciso esperar ainda quase dez anos. Nesse campo, os protestantes têm menos dificuldades. Antes de 1975, quase não existiam neste país. Agora são mais numerosos que os católicos. Contentam-se com uma formação rápida dos catecúmenos e dos pastores, que são todos locais. Nós levamos até dez anos para formar um padre!

Embora haja um bom diálogo ecumênico entre as principais denominações cristãs, a divisão em Igrejas diferentes com tão poucos cristãos cria mais uma dificuldade para quem se aproxima de nossa religião. Algumas dessas denominações cristãs são radicais e fundamentalistas, e enviam seus membros de casa em casa para buscar novos adeptos, oferecendo em troca os mais variados serviços: cursos gratuitos de inglês, dinheiro, alimentos.

O método foi tão descarado que o Ministério do Culto e dos Negócios religiosos interveio e proibiu esse tipo de proselitismo. E há também desafios no relacionamento com o mundo. Num país ainda tão corrupto e confuso, depois de tudo pelo que passou, é preciso dar um testemunho de vida, generosidade e honestidade, colaborar na formação cultural do povo, ter uma pastoral bem arrojada que chegue em profundidade ao mundo jovem e às universidades.

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