Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

Não existe paz para
os cristãos do Paquistão

Após o dia 11 de setembro do ano passado e da guerra no Afeganistão, não existe mais paz para os cristãos do Paquistão. Eles são considerados traidores, inimigos e estrangeiros
no próprio país, por causa de sua fé.

por João Pedro Sandionigi

ervoso em sua cadeira de rodas, com as mãos crispadas, correndo para cima e para baixo do seu rosto em lágrimas, Abdul Qadir Azad olhava assustado ao seu redor. Sua cadeira estava manchada de sangue. Na grande nave central da igreja havia uma movimentação de pessoas, rostos pálidos e chorosos, olhares espantados, comentários sobre o que havia acontecido, um forte odor de sangue, muita raiva e medo.

As palavras não conseguiam expressar a tragédia acontecida e, talvez, por isso o velho Abdul chorasse. Ele era o presidente da Conferência dos ulemas (estudantes islâmicos) do Paquistão, já foi um grande imane da mesquita Badshahi de Lahore e não quis faltar. Alugou um carro e veio àquela igreja católica, para constatar com seus olhos a dor dos seus compatriotas cristãos de Bahawalpur, no sul do Punjab.

Ao seu redor, em oração, homens e mulheres, padres dominicanos, pastores protestantes e algumas irmãs. Os cadáveres dos 17 fiéis mortos, metralhados naquele domingo, 29 de outubro, estavam ainda estendidos sobre as esteiras de palha e parecia que alguém ainda estivesse rezando.

A polícia procurava pistas e o imane não conseguia entender como alguns de seus irmãos muçulmanos, poderiam ter matado pessoas que estavam rezando a Deus, Pai de todos. Não entendia e por isso chorava. Chorava sobre o país, cujo nome significa "país dos puros", mas que estava se tornando prisioneiro do mal.

Pe. Jaime Channan, vice-provincial dos dominicanos do Paquistão, observava a perturbação do velho muçulmano e, mais tarde, declarou à agência Uca News: "Admirei aquela expressão de solidariedade com todos os cristãos e admiro os esforços de Abdul Qadir Azad para promover a paz entre as religiões, especialmente o diálogo islamo-cristão".

Pe. Rocus Patras, vigário da paróquia de São Domingo onde aconteceu o atentado, relatou, à agência Fides, que, no Paquistão, os cristãos desde sempre pagaram na própria pele as tensões em que vive o mundo islâmico, contraposto ao ocidental e que se identifica como cristão.

Desta vez, foram os bombardeios anglo-americanos sobre o Afeganistão a motivar a tragédia. O fato é que, nesse país como em outros, a propaganda dos movimentos islâmicos fanáticos tende a considerar, como quinta coluna do ocidente, todos os que, embora sejam do mesmo sangue e da mesma pátria, aderiram ao cristianismo.

Para esses movimentos, os cristãos são sempre inimigos a combater, sempre acusados de proselitismo. Nada serviu o reconhecimento da Igreja de eventuais erros cometidos em algumas situações do passado. As mudanças de perspectiva da Igreja, após o Concílio, são ignoradas e ela é particularmente responsabilizada pelos fatos, presentes nos movimentos fundamentalistas evangélicos e protestantes.

Após o trágico acontecimento de outubro, "os cristãos do Paquistão estão com medo, vulneráveis, inseguros e indefesos", diz pe. Channan e cita uma sua experiência: "No dia 11 de setembro, fui rezar missa na aldeia cristã de Mian Channu. Não foi fácil. Ao redor da capela havia mais de 50 jovens cristãos armados.

Tinham a tarefa de assegurar uma celebração "serena". Parecia-me entrar numa zona de guerra, mas era a mesma aldeia onde estudei, 32 anos atrás. Naquele tempo, as pessoas não tinham medo, eram dias de paz e tranqüilidade. Durante as festas, realizavam-se procissões, torneios de futebol e outras atividades, num clima sereno.


País: República Islâmica do Paquistão
Forma de governo: república parlamentarista
Capital: Islamabad
Independência: 14 de agosto de 1947
PIB (Produto Interno Bruto):
US$ 282 bilhões
PIB per capita: US$ 2.000
Área total: 803.940 km2
Ponto culminante: monte K2 (8.611 metros)
Recursos naturais: gás natural, ferro, cobre e sal, escassez de petróleo e carvão mineral
População: 152.3 milhões em 1999
Posição na lista de desenvolvimento: 138.º lugar
Taxa de analfabetismo: 62,2%
Mortalidade infantil: 82,49 a cada mil nascimentos
Expectativa de vida: 61,07 anos
Grupos étnicos: punjabi, sindhi, pashtun, muhajir e outras minorias
Religiões: muçulmanos: 95%; cristãos: 2%; hindus: 1,8% e outros
Línguas: punjabi: 48%; sindhi:12%; siraiki:10%; pashtun: 8%; urdu: 8% e outras; inglês (língua oficial da elite paquistanesa)

Os portões da capela ficavam sempre abertos. Essa era a vida daqueles tempos. Hoje, todos estão com medo. Os portões estão fechados e barrados. Não se realizam mais torneios e procissões. Por que a aldeia mudou tão rapidamente? Por que a nossa comunidade cristã tem tanto medo? Por que os nossos jovens têm que se armar para proteger cristãos que rezam? Por que precisamos da polícia para proteger nossas escolas e nossas igrejas?"

O padre dominicano repudia a tentativa de atribuir a inimigos externos - foi citado o nome da Índia, hoje, principal adversário do Paquistão - a matança de Bahawalpur. "Para mim, acusar um país estrangeiro é procurar um bode expiatório. Os responsáveis por esse ato de terrorismo estão aqui, ao nosso redor, e tentam criar um choque entre as religiões e civilizações. Querem restabelecer as cruzadas".

O risco de choques, como acontecem na Indonésia, começa aparecer no horizonte. O mal cria, facilmente, suas raízes no coração humano. Ainda bem que, no Paquistão, ainda prevalece a consciência de que, no fim, o bem, embora vagarosamente, cura as feridas provocadas pelo ódio. Existem, todavia, pessoas, como pe. Channan que, "apesar das injustiças, das perseguições e das discriminações que devem suportar, permanecem fiéis cidadãos do nosso país".

Em Bahawalpur, as famílias católicas, embora sendo minoria, chegam a duas mil. As protestantes ainda são menos numerosas: cerca de 250 famílias. Assim como foram condivididos o templo e o altar, hoje, as duas comunidades compartilham também seus mártires.

E esse é um testemunho de ecumenismo real e sincero que as Igrejas paquistanesas dão num tempo de sofrimento - o sofrimento em Cristo que se sobrepõe às diferentes denominações cristãs. Se um cristão for encarcerado ou morre como cristão, permanece um simples cristão. Mas se foi mártir da fé, a sua morte é patrimônio de todo o cristianismo.

Na celebração da reconsagração da igreja de São Domingo, no dia 15 de novembro, participaram o bispo católico, dom Andrew Francis, e o bispo protestante John Mall. Durante a cerimônia, foram lidos os nomes dos mortos no domingo 28 de outubro; esses nomes foram gravados nas paredes da igreja e não foram apagadas as marcas das balas nas paredes. Ficarão testemunhas silenciosas do sofrimento.

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