Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - Ásia
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Não existe paz para
por João Pedro Sandionigi
As palavras não conseguiam expressar a tragédia acontecida e, talvez, por isso o velho Abdul chorasse. Ele era o presidente da Conferência dos ulemas (estudantes islâmicos) do Paquistão, já foi um grande imane da mesquita Badshahi de Lahore e não quis faltar. Alugou um carro e veio àquela igreja católica, para constatar com seus olhos a dor dos seus compatriotas cristãos de Bahawalpur, no sul do Punjab. Ao seu redor, em oração, homens e mulheres, padres dominicanos, pastores protestantes e algumas irmãs. Os cadáveres dos 17 fiéis mortos, metralhados naquele domingo, 29 de outubro, estavam ainda estendidos sobre as esteiras de palha e parecia que alguém ainda estivesse rezando. A polícia procurava pistas e o imane não conseguia entender como alguns de seus irmãos muçulmanos, poderiam ter matado pessoas que estavam rezando a Deus, Pai de todos. Não entendia e por isso chorava. Chorava sobre o país, cujo nome significa "país dos puros", mas que estava se tornando prisioneiro do mal. Pe. Jaime Channan, vice-provincial dos dominicanos do Paquistão, observava a perturbação do velho muçulmano e, mais tarde, declarou à agência Uca News: "Admirei aquela expressão de solidariedade com todos os cristãos e admiro os esforços de Abdul Qadir Azad para promover a paz entre as religiões, especialmente o diálogo islamo-cristão". Pe. Rocus Patras, vigário da paróquia de São Domingo onde aconteceu o atentado, relatou, à agência Fides, que, no Paquistão, os cristãos desde sempre pagaram na própria pele as tensões em que vive o mundo islâmico, contraposto ao ocidental e que se identifica como cristão. Desta vez, foram os bombardeios anglo-americanos sobre o Afeganistão a motivar a tragédia. O fato é que, nesse país como em outros, a propaganda dos movimentos islâmicos fanáticos tende a considerar, como quinta coluna do ocidente, todos os que, embora sejam do mesmo sangue e da mesma pátria, aderiram ao cristianismo. Para esses movimentos, os cristãos são sempre inimigos a combater, sempre acusados de proselitismo. Nada serviu o reconhecimento da Igreja de eventuais erros cometidos em algumas situações do passado. As mudanças de perspectiva da Igreja, após o Concílio, são ignoradas e ela é particularmente responsabilizada pelos fatos, presentes nos movimentos fundamentalistas evangélicos e protestantes. Após o trágico acontecimento de outubro, "os cristãos do Paquistão estão com medo, vulneráveis, inseguros e indefesos", diz pe. Channan e cita uma sua experiência: "No dia 11 de setembro, fui rezar missa na aldeia cristã de Mian Channu. Não foi fácil. Ao redor da capela havia mais de 50 jovens cristãos armados. Tinham a tarefa de assegurar uma celebração "serena". Parecia-me entrar numa zona de guerra, mas era a mesma aldeia onde estudei, 32 anos atrás. Naquele tempo, as pessoas não tinham medo, eram dias de paz e tranqüilidade. Durante as festas, realizavam-se procissões, torneios de futebol e outras atividades, num clima sereno.
Os portões da capela ficavam sempre abertos. Essa era a vida daqueles tempos. Hoje, todos estão com medo. Os portões estão fechados e barrados. Não se realizam mais torneios e procissões. Por que a aldeia mudou tão rapidamente? Por que a nossa comunidade cristã tem tanto medo? Por que os nossos jovens têm que se armar para proteger cristãos que rezam? Por que precisamos da polícia para proteger nossas escolas e nossas igrejas?" O padre dominicano repudia a tentativa de atribuir a inimigos externos - foi citado o nome da Índia, hoje, principal adversário do Paquistão - a matança de Bahawalpur. "Para mim, acusar um país estrangeiro é procurar um bode expiatório. Os responsáveis por esse ato de terrorismo estão aqui, ao nosso redor, e tentam criar um choque entre as religiões e civilizações. Querem restabelecer as cruzadas". O risco de choques, como acontecem na Indonésia, começa aparecer no horizonte. O mal cria, facilmente, suas raízes no coração humano. Ainda bem que, no Paquistão, ainda prevalece a consciência de que, no fim, o bem, embora vagarosamente, cura as feridas provocadas pelo ódio. Existem, todavia, pessoas, como pe. Channan que, "apesar das injustiças, das perseguições e das discriminações que devem suportar, permanecem fiéis cidadãos do nosso país". Em Bahawalpur, as famílias católicas, embora sendo minoria, chegam a duas mil. As protestantes ainda são menos numerosas: cerca de 250 famílias. Assim como foram condivididos o templo e o altar, hoje, as duas comunidades compartilham também seus mártires. E esse é um testemunho de ecumenismo real e sincero que as Igrejas paquistanesas dão num tempo de sofrimento - o sofrimento em Cristo que se sobrepõe às diferentes denominações cristãs. Se um cristão for encarcerado ou morre como cristão, permanece um simples cristão. Mas se foi mártir da fé, a sua morte é patrimônio de todo o cristianismo. Na celebração da reconsagração da igreja de São Domingo, no dia 15 de novembro, participaram o bispo católico, dom Andrew Francis, e o bispo protestante John Mall. Durante a cerimônia, foram lidos os nomes dos mortos no domingo 28 de outubro; esses nomes foram gravados nas paredes da igreja e não foram apagadas as marcas das balas nas paredes. Ficarão testemunhas silenciosas do sofrimento. |
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