Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - Ásia
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Publicou suas experiências de vida num livro intitulado "Histórias de Kabul" e foi agraciado com o Prêmio para a Paz, da região da Lombardia. Em seu livro escreve: "Aos trinta anos, me perguntei o que queria fazer na vida. Escolhi ser médico fisioterapeuta para trabalhar com os deficientes e, de preferência, em outros países. E, assim, acabei primeiro no Sudão e agora estou no Afeganistão". "O que é a paz? Difícil dizer... certamente não é somente falta de conflitos, é muito mais: uma atitude do espírito, uma disponibilidade para os outros, vontade de viver junto, de partilhar. Não é algo passivo... ela constrói e vai adiante e enriquece a todos". Kabul é a sua casa. Existe um "mal do Afeganistão"? - O que o Afeganistão e seu povo me ensinaram e me deram é muito mais daquilo que levei a eles. Por isso, teria sido desleal ficar com eles somente quando tudo corria tranqüilamente, ainda mais sabendo que, para muitos, nós éramos a esperança e o único contato com o exterior. Está dizendo que do Afeganistão pode-se até se enamorar, mesmo depois de ter visto o que fizeram os Talebãs? Todavia, de seu livro emerge toda uma carga de humilhações e proibições impostas ao povo... - Afeganistão e Talebãs não são a mesma coisa. O absurdo das imposições, a impotência resignada do povo me fizeram amar o país mais ainda. As hostilidades e a difidência do regime contra os estrangeiros me estimularam a ficar por lá. Quantos doentes vocês reabilitaram nesses 12 anos? - Cerca de 55 mil, mas, a cada ano, chegam, em média, 6.500 novos pacientes. Você disse, uma vez, que o médico não pode se limitar a ser simplesmente médico, mas deve ir além. O que significa? - A saúde e a reabilitação física é o primeiro passo, mas a reintegração social é a meta final: restituir uma dignidade, um lugar na sociedade, conforme a faixa etária. Para as crianças, visamos a instrução, possivelmente nas escolas públicas ou em casa, nos casos mais graves. Para os adolescentes, organizamos escolas e cursos profissionalizantes para aprenderem uma profissão, como mecânico, alfaiate, cozinheiro, etc.. Para os adultos, o problema fundamental é o trabalho e, para ajudá-los na busca, criamos um escritório para encontrar empregos. O seu livro é um ato de amor pelo povo afegão. Apesar dos defeitos da gente, muitas vezes, usando a mentira e a trapaça para sobreviver, aparece nele uma grande simpatia pelo povo. - Os afegãos sofreram e sofrem ainda muito e, às vezes, por sua culpa. Eu os amo muito, apesar de, em certos momentos, querer mandá-los para o inferno. Trapaceiros, geralmente geniais, capazes de gozar de si próprios, velhacos, exuberantes, mas também generosos, afetuosos e muito simpáticos, não há dúvida... E, portanto, cada qual deve ser aceito por aquilo que é. Filantropia? Talvez... O que é mais necessário, hoje no Afeganistão: médicos, dinheiro, instrução? |
- Eles precisam de tudo porque as necessidades estão ligadas. Mas se fosse preciso fazer uma classificação, poria a instrução em primeiro lugar. Os ocidentais presentes hoje no Afeganistão... quem são e como são encarados? - Durante alguns anos, éramos poucos, quase somente os humanitários e um ou outro jornalista. Agora somos muitos e de todas espécies: militares, aventureiros, humanitários... até turistas, embora poucos. Nas cidades, já estão acostumados à nossa presença; no interior menos, mas, não existindo xenofobia, somos todos, em geral, bem aceitos. Alguém disse que a paz não é feita para os afegãos. Quanto tempo seria necessário para o país virar a página? - Infelizmente, concordo que não será fácil mudar em pouco tempo. Até que os senhores da guerra estejam por lá com armas e poder, nunca se poderá criar um exército nacional, a economia não poderá decolar, não haverá segurança e mudança. É um país pobre, mas estrategicamente colocado: alguns temem que possa se transformar numa base militar de quem quisesse controlar aquela área da Ásia. O que é para você a paz? - É difícil dizer... Certamente, não apenas falta de conflitos. É muito mais, uma atitude do espírito, uma disponibilidade para os outros, uma vontade de viver junto, de partilhar. Não é algo passivo... ela constrói e vai adiante, enriquece a todos. Você já foi voluntário num hospital do Cotolengo de Turim, foi à África com uma Ong católica. Qual a sua relação com a fé? Você se define como um crente, "embora praticante anômalo". Que quer dizer isso? - Eu creio. "Praticante anômalo" quer dizer que não sigo todas as regras que um cristão é chamado pela Igreja a observar. Agora que em Kabul há um padre permanentemente, procuro ir à missa todos os domingos e isso me proporciona grande alegria. Mas isso é suficiente para se definir praticante? No seu livro, você manifesta uma grande admiração
pelas Pequenas Irmãs de Jesus e por um missionário francês,
pe. Serge de Laugier de Beaurecueil. Por quê? Onde estava Deus quando choviam bombas? No seu trabalho, já foi ameaçado, já experimentou o medo? - Ameaçado sim. Mas nunca tive medo. Das bombas sim. Ter medo é normal - diria - até saudável. Importante é que o medo não se transforme em pânico. Conhecer os próprios limites é essencial, quando se trabalha em lugares de guerra. Você não cai em desespero, vendo tanto mal ao seu redor? - Quando vejo uma pessoa sem pernas chegar até nós, aprendi a não dizer "coitado", mas a calcular os dias de que eu precisaria para pô-lo caminhando. O que me sustenta é o entusiasmo e a felicidade desses deficientes. Eles me comunicam isso. Sem retórica, dar uma mão aos outros, preenche tanto a vida que você quer dar cada vez mais, sempre mais. Você é que se torna dependente dessa felicidade. |
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