Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

Alguém pode estranhar que existam cristãos na terra do "diabo" Saddam. A vizinhança com países integralistas, como os árabes, pode suscitar suspeita de perseguições e hostilidades contra os cristãos.

Na realidade, no Iraque, a situação é diferente por vários motivos. Os xiitas no Iraque são maioria, mas o governo está nas mãos dos sunitas que, com uma política de ajuda e tolerância, procuram o apoio político dos cristãos. Saddam, apesar de ser acusado de violento e cruel, não é certamente um fundamentalista islâmico: aliás, ele contribui com as obras dos cristãos.

Existem, no Iraque, mais ou menos um milhão de cristãos de várias Igrejas. A Igreja cristã mais importante é a caldaica que, com seu culto antiqüíssimo, se considera um pouco a Igreja nacional. A segunda em importância é Igreja siro-católica.

O patriarca católico de Bagdá, dom Raphael Bidawid, é um interlocutor reconhecido de Saddam e o intermediário entre o governo e o Vaticano. Ultimamente, talvez para ganhar o apoio dos seus súditos, Saddam Hussein, muçulmano sunita que persegue os islâmicos xiitas, construiu mesquitas para seu povo, mas também ajudou as várias denominações cristãs. Somente em Bagdá as denominações cristãs possuem 54 edifícios, entre igrejas, mosteiros, seminários e colégios.

Pelo testemunho de um padre, sabemos que os cristãos são bastante fervorosos, embora sejam muito fechados em si mesmos e as Igrejas cristãs tornam-se quase o baluarte que os une e os protege no clima pesado que impera nos últimos 30 anos. A religião é bem devocional, ou seja, manifesta-se mais em formas de culto a Nossa Senhora, venerada também por vários islâmicos, e santos da antiga tradição caldaica e siriaca. "Evangelização" é uma palavra que não existe entre eles.

Aos domingos, apesar de não ser feriado, as igrejas ficam superlotadas. O colégio Babel, ecumênico, é muito procurado pelas várias denominações cristãs, até como preparação dos seminaristas iraquianos. As moças cristãs, que querem encontrar um marido, devem ter no seu dote, atestado de estudos em colégio de freiras. Se aceitarem casar com moços islâmicos, devem se tornar muçulmanas.

A constituição iraquiana permite a liberdade de culto, mas não de religião, ou seja, os cristãos não sofrem discriminações de qualquer tipo, nem no campo sócio político, podem praticar e manifestar seu culto, mas não podem converter islâmicos ao cristianismo. O vice-premier, Tarek Aziz, é cristão caldeu. O Alcorão é obrigatório em todas as escolas e, nas católicas, onde existe um mínimo de 25% de cristãos, é permitido ensinar o cristianismo, mas, no começo das aulas, deve-se sempre comentar alguns versículos do Alcorão. Algumas comunidades locais cristãs têm suas creches e suas escolas. Nem tudo, porém, é fácil e simples e, vez ou outra, os cristãos pagam com a vida sua fidelidade à religião em lutas com os fundamentalistas. Mas, o governo, em geral, está ao lado dos cristãos.

A OCIDENTALIZAÇÃO E O ISLÃ

A ocidentalização sobrevive ao embargo, criando contrastes bastante contundentes. Muitos homens e mulheres vestem à maneira ocidental, embora as mulheres sejam bem mais penalizadas no seu vestuário que as ocidentais. É comum ouvir música country nos locais freqüentados por jovens, mas, a cada meia hora, devem ser intercalados cantos patrióticos em louvor a Saddam. A bebida preferida dos jovens parece ser a Pepsi Cola. Com uma antena parabólica é possível acompanhar os programas ocidentais "roubados" de um satélite por um repetidor iraquiano; esses programas também, devem ser intercalados com propaganda do regime.

Embora não haja uma perseguição aberta, existe, porém, um clima político e social pesado que tenta os cristãos a se tornarem muçulmanos para poderem ter um futuro mais tranqüilo, e os jovens a emigrarem para o exterior, onde tenham a liberdade de praticar sua fé e encontrar trabalho. A situação atual, todavia, é de uma tolerância aceitável, tanto que há o medo que, numa possível queda do atual ditador Saddam Hussein, a situação possa piorar. Vários cristãos preferem a situação atual a uma incógnita que poderia ser pior.

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