Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

por Pino Cazzaniga

o entardecer de um frio dia de inverno, um idoso missionário atravessa apressado uma estreita rua do centro de Tóquio. Não muito longe, enxerga um homem de mais ou menos cinqüenta anos, sentado num colchonete.

O missionário passa rápido, mas algo, como uma voz interior, lhe diz de parar. Não tem nenhuma vontade de sentir-se igual ao sacerdote ou ao levita da parábola do bom samaritano. Sente que não há perigo de ferir a sensibilidade e o brio de um japonês: a rua está totalmente deserta.

Rapidamente tira da carteira uma nota e, infringindo o que ensina a etiqueta do confucionismo, aperta a mão do homem solitário, dizendo baixinho: "Você precisa de um jantar quente, não é verdade?" Tenta ir embora, mas o sem-teto se levanta e lhe diz com muita distinção: "Gaijin sama (prezado estrangeiro), o Japão vai mal".

"Sei disso", responde-lhe o estrangeiro e se despede. O idoso missionário tem pela frente mais duas horas de viagem, antes de chegar à sua residência. No metrô e no trem não percebe as pessoas que se acotovelam à sua volta. O diálogo que acaba de ter com o sem-teto não lhe sai da cabeça e suscita, ao mesmo tempo, paz e perturbação. Paz, porque, graças àquela pessoa, experimentou a alegria de tornar-se próximo de alguém; perturbação, porque nasce dentro dele a suspeita de que aquela criatura, sentada na calçada, seja o representante de uma tragédia de grandes dimensões.

Como disse aquele morador de rua, o Japão vai mal. A mentalidade dominante nos anos do rápido crescimento econômico era: um futuro muito próspero aguarda o Japão. Por isso, valia a pena realizar qualquer sacrifício. Hoje, a nação ficou rica, mas aumenta a insatisfação com o presente e a insegurança em relação ao amanhã. A crise está diante dos olhos de todos. Ninguém mais diz: "Estamos caminhando em direção a um futuro melhor". Quando muito, espera-se poder resolver a situação complicada em que o Japão se encontra.

25 MIL SEM-TETO

Um mês depois desse fato, o Ashai shinbum, um dos diários mais difundidos no país, confirma as suspeitas do missionário. No Japão, vivem ao relento mais de 25 mil pessoas, conforme uma pesquisa do próprio governo, relatada pelo jornal. Não se tratam de furosha, os desadaptados sociais que desde sempre existem em qualquer parte do mundo, inclusive no Japão. É uma nova categoria de pessoas sem-casa e sem-família, que são chamadas hoomoresu, que nada mais é do que a pronúncia japonesa da palavra inglesa homeless (sem-casa).

Casa e família essas pessoas tinham, mas a recessão econômica, que está durando há mais de dez anos, as afastou do próprio lar. Essa crise, que começou na primeira metade dos anos noventa, deu origem a um fenômeno social antes desconhecido no Japão. O nosso missionário, quando atravessa a imensa estação de Shinjuku, por onde passam diariamente mais de dois milhões de pessoas, encontra sempre grupos de hoomoresu que têm consigo panos velhos, papelão para se resguardar do frio e, com certa freqüência, uma latinha de sakê (bebida alcoólica feita a partir do arroz) para matar a tristeza e superar o sentimento de solidão.

PESQUISAS E DADOS SOBRE OS SEM-TETO

As primeiras pesquisas sobre o fenômeno remontam ao ano de 1999. Inicialmente, os burocratas limitaram-se a anotar cifras, mas alcançando o fenômeno proporções assustadoras, foi pedido ao Parlamento que aprovasse uma lei em favor dos sem-teto. Para preparar uma intervenção mais eficaz, o governo resolveu aprofundar a pesquisa já iniciada. Uma amostra de 2 mil hoomoresu foi sistematicamente entrevistada, e assim, a fisionomia dessas pessoas adquiriu feições mais precisas.
Eis alguns dados. A maior parte dos sem-teto vive nas três maiores cidades do Japão: Tóquio, Osaka e Fukuoka.

É fácil compreender o motivo: assim eles conseguem esconder a própria identidade mais facilmente. Não se trata, como já vimos, de desadaptados sociais que, por motivos psicológicos ou por livre escolha, recusam o duro trabalho que é característico da sociedade japonesa. Sessenta por cento dos entrevistados desejam trabalhar e, na realidade, alguns se viram, catando e vendendo papelão e outro material abandonado no lixo, ou trabalhando por dia em alguma construção. Os que têm mais sorte conseguem ajuntar 30 mil yens por mês, quantia com a qual, no Japão, somente se consegue não morrer de fome e viver na rua.

As causas do fenômeno são várias, mas, como já se falou, a principal é a perda do trabalho, porque a empresa os despediu (36%), ou porque ela faliu (33%). Cinqüenta e sete por cento deles vivem nessas condições há menos de três anos e 31%, há menos de um ano. Portanto, trata-se de um fenômeno bastante recente. Somente 7% deles são desadaptados sociais que escolheram viver assim há mais de dez anos. Muitos deles estão doentes (47%). Entre eles, 69% não recebem cuidados médicos, pois não possuem seguro social. Mais um dado: a idade média dos sem-teto japoneses é de 56 anos.

A solidariedade e os sem-teto

s 25-30 mil sem teto numa população de 130 milhões de habitantes representam uma porcentagem insignificante (exatamente 0,02 por cento), tanto no Japão como em qualquer país. Mas quando se fala do sofrimento de seres humanos, as percentagens perdem valor: importa é o ser humano que sofre.

A presença de pessoas como essas em lugares públicos não passou desapercebida, mas chamou a atenção de cidadãos que resolveram fazer alguma coisa para eles. Surgiram assim algumas formas, mais ou menos organizadas, de ajuda. Citaremos duas. No bairro de Shibuya, em Tóquio, continua em atividade, desde 1998, a Livre associação de Shibuya para o direito dos hoomoresu ao bem-estar e a casa (Nojiren é o nome da associação; a palavra é formada pelas iniciais das palavras japonesas). Trata-se de uma associação de auto-ajuda formada pelos próprios sem-teto, cujo objetivo é coordenar os trabalhos de negociação com as autoridades e de relacionamento com os que querem ajudá-los.

Entre as organizações de ajuda, muito importante é o Banco de alimentos do Japão, que nasceu em março de 2002 para recuperar e distribuir as mais de 6 mil toneladas de gêneros alimentícios ainda em boas condições higiênicas e que seriam jogadas fora, pois são as sobras das centrais de distribuição e dos restaurantes. Na direção desse banco está Charles E. McJilton, um católico dos Estados Unidos que chegou ao Japão, há onze anos, como missionário.

O autor do artigo é missionário do Pime no
Japão, onde viveu 33 anos.

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